Criar as bases para a instalação de um centro de desenvolvimento e produção de terapias CAR-T, agora no Ceará: esse é objetivo do Memorando de Entendimento (MdE) assinado, nesta terça-feira (29/9), pela Fiocruz, a Secretaria Estadual de Saúde (SES) do Ceará, a HU Brasil e a Universidade Federal do Ceará (UFC). O acordo ocorreu, em Fortaleza, no Palácio da Abolição, sede do governo do Estado do Ceará. A cooperação faz parte da estratégia do Ministério da Saúde (MS) de ampliar o acesso a terapias avançadas no Brasil.

Cooperação faz parte da estratégia do Ministério da Saúde de ampliar o acesso a terapias avançadas no Brasil (foto: João Risi / Ministério da Saúde)
“Inovação sem acesso é injustiça, porque aumenta as disparidades entre quem tem acesso e quem não tem”, destacou o Ministro da Saúde, Alexandre Padilha. “Hoje celebramos uma parceria que mostra para a sociedade brasileira que a saúde tem que ter um sistema público que a regule, que podemos sim desenvolver uma terapia avançada que custa centenas de milhões a um preço acessível e que podemos garantir ao povo brasileiro o que há de mais avançado nas terapias para o cuidado das doenças hematológicas, oferecido no Ceará”.
A iniciativa adota o modelo Point-of-Care (POC) de produção de CAR-T, com instalação de laboratórios modulares em locais próximos do atendimento de pacientes, de forma a reduzir custos logísticos e agilizar o tratamento. O primeiro centro de desenvolvimento e produção de células CAR-T foi instalado no Rio de Janeiro, em maio deste ano, no Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), da Fiocruz. O objetivo do MdE é expandir a iniciativa a partir de uma segunda unidade produtiva no Ceará, conforme Acordo de Cooperação Técnica entre a Fiocruz e o Ministério da Saúde, no âmbito do Programa para Ampliação e Modernização de Infraestrutura do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (PDCEIS).
Além da descentralização da oferta dessas terapias de ponta pelo Sistema Único de Saúde (SUS), por meio da implantação do centro, o acordo possibilita estabelecer pesquisas, estudos clínicos, além de fortalecer a qualificação dos centros assistenciais da região, com base na parceria entre o Governo do Ceará, a HU Brasil e a Fiocruz, por meio de Bio-Manguinhos e da Fiocruz Ceará. A iniciativa busca, ainda, colocar o Ceará como referência para pacientes de toda a região Nordeste do país e, com isso, contribuir para a sustentabilidade e capilaridade do SUS. A terapia CAR-T é considerada um dos maiores avanços recentes na área de Oncologia.
“A parceria viabiliza o desenvolvimento de novas aplicações e base para produção de células CAR-T, um dos maiores avanços recentes na oncologia, de forma regionalizada e economicamente viável para o SUS. Essa iniciativa, fortalecida por investimentos feitos pelo MS e governo Ceará na Unidade da Fiocruz aqui no município de Eusébio, irá fortalecer a nossa capacidade tecnológica e dos nossos parceiros no Ceará, constituindo um polo de desenvolvimento, inovação e fabricação de medicamentos e terapias avançadas”, afirmou o presidente da Fiocruz, Mario Moreira.
“A escolha para os estudos serem implantados no Ceará deve-se a uma junção de fatores, dentre eles pesquisadores extremamente voltados para desenvolver ferramentas, tecnologias e tratamentos para dar o melhor à nossa população. Tenho certeza de que vamos ser modelo para que outros estados e outros serviços possam, junto com a gente, fortalecer essa parceria e o sistema público de saúde”, comentou a secretária da Saúde do Estado do Ceará, Tânia Mara Coelho.
O reitor da UFC, Custódio Almeida, celebrou o acordo de cooperação e o “rompimento da fronteira da ciência”, garantindo, no Nordeste, este tipo de tratamento, com o empenho e diálogo entre tantas instituições. “É isso que a gente quer: cooperação e alinhamento que produz avanço e permite ampliar a nossa capacidade de entregar o que há de melhor para a nossa população”, comemorou.
Presidente da HU Brasil, Arthur Chioro enalteceu a força da parceria entre as instituições e do diálogo para a consolidação da iniciativa. “Trata-se de um movimento pioneiro de desenvolvimento científico e tecnológico, que será um diferencial no cuidado aos pacientes com câncer onco-hematológicos e com doenças raras”.
Estratégia para Terapias Avançadas no SUS
A produção e o desenvolvimento de células CAR-T é parte da Estratégia para Terapias Avançadas da Fiocruz, em alinhamento ao Ministério da Saúde, que envolve, além da descentralização da oferta dessas terapias de ponta pelo SUS, a internalização das principais etapas produtivas deste tratamento e a realização de estudos clínicos no país, em parceria com o Instituto Nacional do Câncer (Inca). A produção local busca reduzir os custos destas terapias com objetivo de aumentar o acesso da população. A atuação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tem sido fundamental para o avanço desta estratégia, por meio de suporte regulatório aprimorado e intensificado durante todo o projeto, em consonância com os esforços da Agência para acelerar o desenvolvimento nacional de produtos de terapia avançada de interesse do SUS.
A ser desenvolvida nos centros de produção, a terapia transferida pelo parceiro tecnológico Caring Cross, é a duoCAR-T triespecífico, cuja principal vantagem é reconhecer e atacar simultaneamente três antígenos diferentes no tratamento de câncer. Isso garante uma eliminação da doença mais robusta, abrangente e com expectativa de respostas clínicas duradouras.
A terapia com células CAR-T é um tipo de tratamento inovador que utiliza as próprias células do paciente para combater o câncer. Primeiro, profissionais de saúde retiram linfócitos T, que são as células de defesa, do próprio paciente. Em laboratório, essas células passam por uma modificação genética para receber um receptor especial, chamado CAR, que permite reconhecer as células cancerígenas. Estas células são multiplicadas em grande quantidade em laboratório e reinfundidas no paciente, em um processo parecido com uma transfusão de sangue comum. Já no organismo do paciente, as células CAR-T identificam e atacam as células tumorais. A tecnologia CART-T a ser produzida poderá beneficiar, inicialmente, brasileiros que enfrentam leucemia e linfoma.
A produção do vetor lentiviral, necessário para a modificação gênica das células, ocorrerá na planta de vetores virais de Bio-Manguinhos/Fiocruz recentemente utilizada para a vacina de Covid-19. Dessa forma, os avanços para a produção dessas terapias é fruto do investimento e da capacitação tecnológica realizada ao longo dos anos na política de fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (Ceis), que durante a pandemia permitiu a internalização e produção nacional da vacina da Covid-19 e agora viabiliza a incorporação e produção das terapias celular. Publicado em 30/09/2026 14:24