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OMS recomenda testes de diagnóstico rápido para erradicar tuberculose

Hoje é o Dia Mundial da Tuberculose

No Dia Mundial da Tuberculose, lembrado nesta terça-feira (24), a Organização Mundial da Saúde (OMS) cobrou maiores esforços para erradicar a doença e ampliar o acesso a novas tecnologias, incluindo testes diagnósticos que podem ser feitos no próprio local de atendimento e swabs de língua que detectam a bactéria mais rapidamente.

Em nota, a entidade destacou que as novas tecnologias representam mais um passo rumo à detecção precoce e ao tratamento mais rápido de uma das doenças infecciosas mais mortais do mundo.

“Esses testes portáteis e fáceis de usar aproximam o diagnóstico da tuberculose dos locais onde as pessoas normalmente buscam atendimento”.

A OMS informa que esses testes custam menos da metade do preço de exames moleculares já existentes e podem ajudar diversos países a expandir o acesso à testagem: “os testes podem funcionar por meio de bateria e fornecem resultados em menos de uma hora, permitindo que os pacientes iniciem o tratamento mais cedo”, completou a nota.

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Em todo o mundo, mais de 3,3 mil pessoas morrem por dia vítimas da doença. Os números da agência mostram ainda que há 29 mil novos casos de tuberculose por dia.

“Os esforços globais para combater a tuberculose salvaram cerca de 83 milhões de vidas desde 2000; no entanto, os cortes no financiamento global da saúde ameaçam reverter esses avanços”.

“A adoção de ferramentas de diagnóstico rápido tem sido um desafio em muitos países, em parte, devido aos altos custos e à dependência do transporte de amostras para viabilizar os testes em laboratórios centralizados”, destacou a entidade.

Para a entidade, esses esforços podem contribuir para alcançar metas globais de acesso aos testes de tuberculose e resistência a medicamentos, além de reduzir atrasos no início do tratamento e conter a transmissão.

Brasil

Dados do Boletim Epidemiológico Tuberculose 2025, do Ministério da Saúde, mostram que 84,3 mil pessoas contraíram a doença no país em 2024 – uma incidência de 39,7 casos para cada 100 mil habitantes. Nesse período, foram contabilizados ainda mais de 6 mil óbitos.

Os maiores coeficientes de incidência foram observados no Amazonas (94,7 por 100 mil), no Rio de Janeiro (75,3 por 100 mil) e em Roraima (64,3 por 100 mil).

Na mortalidade, considerando os dados consolidados de 2023, os destaques foram Amazonas, (5,1 por 100 mil), Pernambuco (4,8 por 100 mil) e Rio de Janeiro (com 4,6 por 100 mil).

Entenda

A tuberculose é uma doença infecciosa e transmissível, causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis, também conhecida como bacilo de Koch.

A doença afeta principalmente os pulmões, mas pode atingir outros órgãos e/ou sistemas. A forma extrapulmonar ocorre com mais frequência em pessoas que vivem com HIV.

A transmissão acontece por via respiratória, pela eliminação de partículas muito pequenas produzidas por tosse, fala ou espirro de uma pessoa com tuberculose ativa (pulmonar ou laríngea) sem tratamento.

Quando outras pessoas respirarem essas partículas, há a possibilidade de se infectarem.

De acordo com o Ministério da Saúde, calcula-se que, durante um ano, em uma comunidade, uma pessoa com tuberculose pulmonar e/ou laríngea ativa sem tratamento e que esteja eliminando partículas com bacilos, possa infectar, em média, de 10 a 15 pessoas.

Segundo a pasta, com o início do tratamento, a transmissão tende a diminuir gradativamente e, em geral, após 15 dias, o risco de transmissão da doença cai drasticamente.

“No entanto, o ideal é adotar medidas de controle de infecção até que o resultado da baciloscopia [exame para detectar a bactéria da tuberculose] se torne negativo – tais como cobrir a boca com o braço ou lenço ao tossir e manter o ambiente bem ventilado, com bastante luz natural.”

O bacilo de Koch é sensível à luz do sol e a circulação de ar ajuda a dispersar as partículas infectantes. Por isso, ambientes ventilados e com luz natural direta diminuem o risco de transmissão.

“A ‘etiqueta da tosse’, ou seja, cobrir a boca com o antebraço ou lenço ao tossir, também é uma medida importante”, informa o Ministério da Saúde.

Dentre os sintomas associados à tuberculose estão:

  • tosse seca ou produtiva (com catarro) por três semanas ou mais;
  • febre à tarde;
  • suor noturno;
  • emagrecimento.

“Se uma pessoa apresentar sintomas de tuberculose, é fundamental procurar a unidade de saúde mais próxima de sua residência para avaliação e realização de exames. Se o resultado for positivo para tuberculose, deve-se iniciar o tratamento o mais rápido possível e segui-lo até o final”, concluiu o ministério.

Paula Laboissière – Repórter da Agência Brasil Publicado em 24/03/2026 – Brasília

Alzheimer e outras demências são temas do Caminhos da Reportagem

Programa vai ao ar nesta segunda, às 23h, na TV Brasil

O programa Caminhos da Reportagem desta segunda-feira (23) “Quando o esquecimento chega: Alzheimer e outras demências” analisa o avanço dos diagnósticos no país, as causas, estágios atuais dos tratamentos e a importância do cuidado. A atração jornalística vai ao ar às 23h, na TV Brasil, emissora pública da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

De acordo com dados do Ministério da Saúde, cerca de 2 milhões de brasileiros têm Alzheimer. A previsão é que essa população chegue a triplicar até o ano de 2050. Embora o Alzheimer seja a demência mais conhecida, existem mais de 100 tipos da doença.

“A demência não está contaminando ou sendo transmitida entre as pessoas. A demência aumenta porque a população envelhece”, explica o chefe da Geriatria do Hospital Universitário de Brasília, Marco Polo.

A produção também entrevistou o geriatra Otávio Castello. Ele destaca a importância de um diagnóstico precoce para que as pessoas possam se programar com antecedência.

“É claro que isso tem que ser feito de forma jeitosa, amorosa e acolhedora. Mas precisa ser feito”, orienta.

Esse é o caso de Jorge Noronha, que soube que tinha Alzheimer aos 55 anos. O diagnóstico foi feito pelo seu próprio irmão, o geriatra Flávio Noronha.

“Meu irmão e eu estávamos conversando sobre o carro dele. A conversa estava tendo coerência, mas num certo momento começou a ficar infantilizada. Ele parecia um menino de 11 ou 12 anos. Aquilo me chamou atenção e eu falei: tem alguma coisa errada. Fizemos exame de sangue, tomografia, ressonância e chegamos ao quadro de Alzheimer”, lembra o médico.

Atualmente, Jorge recebe cuidados que vão de fonoaudióloga a higiene.

“Nós sempre vamos saber quem é o Jorge, mas vai chegar um momento em que ele não vai saber quem é a gente. E temos que estar preparados emocionalmente para isso”, desabafa a pedagoga Karla Viana, cunhada de Jorge.

Os médicos já descobriram que atividades intelectuais, sociais e, principalmente, físicas são aliadas nessa batalha.

“Às vezes as pessoas me perguntam e isso virou até anedótico: ‘Qual exercício eu faço: palavra cruzada ou caça-palavra?’ Faça exercício físico”, aconselha Marco Polo. “Se uma pessoa quer ter uma velhice saudável, ela precisa se sentir útil”, complementa Otávio Castello.

Outras características da doença ainda estão sendo estudadas.

“Perda de força, perda de apetite, lentificação da marcha. Esse tipo de sintoma também tem sido associado ao início precoce de demência”, diz a presidente da Associação Brasileira de Alzheimer no Distrito Federal (ABRAz-DF), Juliana Martins Pinto.

O secretário nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, Alexandre da Silva, também participa do programa. Ele reforça ser essencial que as políticas públicas de saúde cheguem a todos. 

“Os cuidados precisam ser adequados para os mais diversos territórios. Como é tratar pessoas com demência que moram na região rural, em favelas, em cortiços? Tudo isso demanda da sociedade várias formas de cuidado”, lembra.

Sobre o programa

No ar desde 2008, o Caminhos da Reportagem é uma das produções jornalísticas brasileira mais prestigiadas pelo público e a crítica. No final de 2025, o programa da TV Brasil ultrapassou a marca de 100 prêmios recebidos.

Desde 2010, quando foi iniciada a contagem, já foram 101 honrarias. Os reconhecimentos atestam a relevância editorial, a qualidade jornalística e o compromisso da equipe com reportagens aprofundadas sobre os mais variados temas de interesse público.

Exibido às segundas, às 23h, o Caminhos da Reportagem tem horário alternativo na madrugada de terça, às 2h30. A produção disponibiliza as edições especiais no site do programa e no YouTube da emissora. As matérias anteriores também estão no aplicativo TV Brasil Play, disponível nas versões Android e iOS, e no site http://tvbrasilplay.com.br.

TV Brasil Publicado em 23/02/2026 – 08:02 Brasília

Anvisa aprova novo medicamento para tratar fenilcetonúria

Doença é causada por deficiência da enzima hepática

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o registro do medicamento Sephience, indicado para o tratamento da fenilcetonúria. A doença, de origem genética, é causada pela deficiência da enzima hepática responsável pela conversão da fenilalanina, presente nas proteínas da alimentação, em tirosina.

Em nota, a Anvisa destacou que a fenilalanina é um aminoácido considerado essencial para o organismo, mas que sua ingestão deve ser rigorosamente controlada em pacientes fenilcetonúricos.

“A elevação dessa enzima no sangue tem efeito neurotóxico e suas sequelas são graves – com o desenvolvimento de déficits neurocognitivos e deficiência intelectual severa e irreversível”, indicou a agência.

“O controle dos níveis séricos da fenilalanina deve ser iniciado no primeiro mês de vida e mantido a vida inteira. O medicamento aprovado, indicado para pacientes pediátricos e adultos, ajuda justamente na quebra desse aminoácido e pode ampliar as possibilidades de dieta,  melhorar a qualidade de vida e o bem-estar dos pacientes”, completou.

Dados do Ministério da Saúde indicam que a fenilcetonúria é detectada em apenas um de cada 15 mil a 17 mil nascimentos no Brasil.

Entenda

O diagnóstico precoce é feito pela detecção de níveis elevados da fenilalanina no sangue em bebês, que tiveram coleta realizada entre o terceiro e o quinto dia de vida. É recomendado que o sangue do recém-nascido seja colhido após 48 horas do seu nascimento para garantir que ele tenha ingerido quantidades de proteína suficientes para o aparecimento de alterações no exame, evitando assim resultados falso-negativos.

O exame é oferecido a toda população pelo Sistema Único de Saúde (SUS), em todo o território nacional, no Programa Nacional de Triagem Neonatal (PNTN). Crianças com fenilcetonúria não apresentam sintomas ao nascimento, porém os sinais de atraso no desenvolvimento neuropsicomotor (DNPM) são evidentes aos seis meses de vida. Se não iniciarem tratamento  no primeiro mês de vida – o ideal – evoluem com deficiência intelectual, odor característico na urina e suor, além de distúrbios no comportamento.

É importante que a família fique atenta e verifique a presença e a quantidade de fenilalanina no rótulo de medicamentos e alimentos industrializados. São proibidos alimentos que contenham o adoçante aspartame na sua formulação

Paula Laboissière – Repórter da Agência Brasil Publicado em 19/02/2026 – 10:09 Brasília

Brasil deve ter 781 mil novos casos de câncer por ano até 2028

Doença é a segunda causa de morte no país

O Brasil deve ter 781 mil novos casos de câncer por ano entre 2026 e 2028. O câncer se aproxima das doenças cardiovasculares como principal causa de morte no país.

Os dados constam da publicação Estimativa 2026-2028: Incidência de Câncer no Brasil, do Instituto Nacional de Câncer (Inca), divulgada nesta quarta-feira (4), no Rio de Janeiro, no Dia Mundial do Câncer.

Segundo o Inca, os números refletem o envelhecimento da população, mas também desigualdades regionais e desafios persistentes no acesso à prevenção, ao diagnóstico precoce e ao tratamento rápido.

Entre os homens, os cinco tipos de câncer mais comuns são próstata (30,5%), cólon e reto (10,3%), pulmão (7,3%), estômago (5,4%) e cavidade oral (4,85).

Entre as mulheres, predominam o câncer de mama (30%), cólon e reto (10,5%), colo do útero (7,4%), pulmão (6,4%) e tireoide (5,1%).

Desigualdades regionais

Segundo o Inca, o câncer de colo do útero está entre os mais prevalentes no norte e nordeste do país. O câncer de estômago tem maior incidência entre os homens no norte e nordeste. Tumores associados ao tabagismo (pulmão e cavidade oral) são mais frequentes no sul e sudeste.

Para o Inca, as diferenças refletem o acesso desigual à prevenção, rastreamento e tratamento. “O Brasil é um país heterogêneo que tem a ver com urbanização e com a exposição a fatores de risco como a falta de saneamento básico. Mas estamos muito preocupados com o câncer de cólon e de reto porque vem aumentando a incidência. Tem a ver com a exposição precoce a fatores de risco, aumento da obesidade e do sedentarismo. Isso mostra que alguma coisa precisa ser feita”, disse o diretor-geral do Inca, Roberto Gil.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, destacou que o câncer de colo do útero vem diminuindo com a vacinação contra o HPV (Papilomavírus Humano).

Rio de Janeiro (RJ), 04/02/2026 –  O ministro da Saúde, Alexandre Padilha durante evento Dia Mundial do Câncer 2026 no Instituto Nacional de Câncer (INCA), no centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Ministro Alexandre Padilha participou do Dia Mundial do Câncer 2026 no Instituto Nacional de Câncer , no Rio Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

“O mais importante é a prevenção, é combater os hábitos que levam ao câncer como tabaco, principalmente entre os mais jovens, com os dispositivos eletrônicos, o crescimento da obesidade”, afirmou o ministro.

Padilha também cumpriu outra agenda no Rio de Janeiro nesta quarta-feira que foi a adesão da Amil ao programa Agora Tem Especialistas, o que representará 600 cirurgias em hospitais privados que serão abertas a pacientes que estão esperando nas filas do Sistema Único de Saúde (SUS).

Ana Cristina Campos – Repórter da Agência Brasil Publicado em 04/02/2026 – 12:27 Rio de Janeiro

Fiocruz desenvolve teste que prevê eficácia de tratamento contra esclerose múltipla

A esclerose múltipla (EM) é uma doença autoimune que afeta o sistema nervoso central e pode causar fadiga, alterações motoras e cognitivas, perda de visão e outros sintomas neurológicos. A condição não tem cura, mas tem tratamento, e o avanço de terapias imunológicas vem permitindo controlar surtos e retardar a progressão da enfermidade.

Um estudo coordenado pela Fiocruz deu um passo importante nessa direção e pode revolucionar a forma como o tratamento é indicado aos pacientes. A pesquisa, publicada na revista Nature Communications, mostrou que é possível prever se uma pessoa com esclerose múltipla responderá bem ao medicamento ‘natalizumabe’ — um dos tratamentos mais comuns contra a doença — antes mesmo do início da terapia.  

Para isso, os cientistas do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) desenvolveram um teste simples, feito em laboratório com uma amostra de sangue, que analisa a reação de células de defesa do paciente quando expostas ao medicamento.

Esclerose múltipla.

A esclerose múltipla é uma doença autoimune que afeta o sistema nervoso central e pode causar sintomas como fadiga, alterações motoras e cognitivas, distúrbios visuais e dificuldades de equilíbrio (foto: Pixabay)


Embora ainda não exista um kit clínico pronto para uso em hospitais, o método já funciona integralmente no laboratório. A expectativa é que, nos próximos anos, o procedimento seja simplificado e validado em diferentes populações de pacientes e que possa ser incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS) até 2035.

Além do IOC/Fiocruz, o estudo contou com a participação de cientistas do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz), da Fiocruz Ceará, da Universidade de São Paulo (USP), do Hospital Israelita Albert Einstein e do Instituto de Doenças Infecciosas e Inflamatórias (INFINITy, no acrônimo em inglês), ligado ao Instituto Nacional de Pesquisa em Saúde e Medicina da França (Inserm).

Parte central do trabalho foi realizada durante o doutorado-sanduíche no INFINITy de Beatriz Chaves, aluna do Programa de Pós-graduação em Biologia Computacional e Sistemas do IOC/Fiocruz, e com atividades também na Fiocruz Ceará. “Cerca de 35% dos pacientes não respondem plenamente ao natalizumabe e ainda ficam expostos a riscos e efeitos colaterais. Então começamos a nos perguntar se seria possível entender melhor o efeito do anticorpo nas células e usar isso para prever, antes da terapia, quem realmente vai se beneficiar do medicamento”, contou Beatriz.

Segundo o pesquisador do Laboratório de Pesquisas sobre o Timo do IOC/Fiocruz, Vinicius Cotta, um dos autores do artigo, a descoberta representa um avanço expressivo na luta por melhoria da qualidade de vida dos pacientes com EM. “Poder prever quem vai se beneficiar ou não do tratamento evita a exposição desnecessária a riscos de outros medicamentos, reduz custos e antecipa a troca para terapias mais eficazes, melhorando o prognóstico e a qualidade de vida dos pacientes”, explicou.

Ação do natalizumabe 

O artigo O perfil morfológico in vitro de células T prevê a resposta clínica à terapia com natalizumabe em pacientes com esclerose múltipla mostra que as diferenças na reação celular em cada paciente explicam a eficácia do tratamento com o medicamento. Para chegar a essa resposta, entretanto, é preciso entender como atuam três importantes atores: natalizumabe, o subtipo de linfócito T CD8 e as proteínas VLA-4 e VCAM-1 (confira explicações nos próximos parágrafos).

Entre os tratamentos mais comuns contra a esclerose múltipla, o natalizumabe é um imunoterápico usado para impedir que os linfócitos T — células do sistema imunológico — atravessem a barreira que protege o cérebro e a medula espinhal, reduzindo a inflamação que causa os sintomas da doença.

Pesquisa.

A combinação entre microscopia avançada e análise computacional permite identificar padrões celulares associados à eficácia do tratamento da esclerose múltipla (foto: Rudson Amorim)


Embora eficaz, o tratamento com o medicamento não funciona igualmente para todas as pessoas. Cerca de 35% dos pacientes continuam apresentando sintomas mesmo após dois anos de uso do natalizumabe. A partir desse cenário, o estudo liderado pelo IOC/Fiocruz desvendou que a chave para antecipar se o paciente responderá bem à terapia está na observação de um tipo específico de linfócito T: as células T CD8.

Essas células são uma espécie de ‘tropa de ataque’ do organismo. Em condições normais, elas atuam no combate a infecções virais e no controle do crescimento de tumores, eliminando células infectadas ou alteradas e desempenhando um papel central na vigilância imunológica.

Entretanto, em doenças autoimunes como a esclerose múltipla, as T CD8 podem confundir componentes do próprio corpo com ameaças e acabar atacando estruturas saudáveis do sistema nervoso, como a mielina — a ‘capa’ que reveste e protege os neurônios.

A pesquisa mostrou que o natalizumabe não age da mesma forma nas células T CD8 de todos os pacientes. Essas diferenças ajudam a explicar por que o medicamento é altamente eficaz para alguns e apresenta efeito limitado em outros casos. A razão está na forma como, em cada paciente, essas células reagem ao bloqueio da proteína VLA-4, que é justamente o alvo do remédio. A VLA-4 é uma molécula que fica na superfície das células T e funciona como um ‘gancho’ que ajuda essas células a grudar nas paredes dos vasos sanguíneos. Já a VCAM-1 é uma proteína de adesão celular, em outras palavras, a ‘argola’ presente nessas paredes, onde o gancho se encaixa.

Quando as duas proteínas se ligam, as células T conseguem se fixar e atravessar a barreira que protege o cérebro e a medula espinhal, o que favorece o processo inflamatório típico da doença. O natalizumabe age interrompendo essa ligação entre a VLA-4 e a VCAM-1, impedindo que as células atravessem a barreira e, assim, reduzindo a inflamação e os demais sintomas da esclerose múltipla.

Se o medicamento não consegue bloquear essa ligação no sistema imunológico do paciente, o tratamento tem efeito limitado. Logo, o objetivo final do estudo foi desenvolver e validar um teste in vitro que preveja a resposta clínica antes do início da terapia, a partir do comportamento de linfócitos T CD8 expostos ao natalizumabe em cada paciente.

Pesquisa.

Observação e análise de células do sistema imunológico ajudam a prever a resposta ao tratamento da esclerose múltipla (foto: Rudson Amorim)


Para isso, os pesquisadores coletaram amostras de sangue de pessoas com esclerose múltipla antes do início do tratamento e isolaram as células mononucleares do sangue periférico (PBMCs) — um conjunto que inclui os linfócitos T. Com isso, analisaram, em laboratório, imagens de alta resolução dessas células e usaram algoritmos de aprendizado de máquina para reconhecer padrões de forma, movimentação e organização interna associados à boa ou má resposta ao medicamento.

Com esse teste, abre-se caminho para uma decisão terapêutica mais personalizada, ajudando a escolher a melhor opção para cada paciente e evitando o uso prolongado de tratamentos que não trariam benefício.

Liderança na rede 

O artigo foi construído a partir de uma ampla rede de cooperação científica liderada pelo IOC/Fiocruz, que coordenou a integração entre as diferentes frentes do estudo. “O IOC teve um papel central na coordenação científica do projeto em que este estudo se insere. Atuamos como núcleo integrador das distintas áreas, conectando desde o desenho de novos imunoterápicos à utilização de ferramentas de aprendizado de máquina”, contou Cotta.

Além da liderança na rede, o IOC/Fiocruz conduziu testes funcionais de imunologia experimental, além de ter organizado a análise do comportamento das células T CD8 e a interface com a etapa de inteligência artificial para transformar os dados de microscopia em predições de resposta terapêutica.

A Fiocruz Ceará ficou responsável pelo desenho e modelagem de novos anticorpos anti-VLA-4, que bloqueiam a ligação entre as proteínas VLA-4 e VCAM-1; já a equipe de Bio-Manguinhos atuou no desenvolvimento e na produção de novos anticorpos.

Pesquisa.

Equipamento de microscopia utilizado por Beatriz Chaves na análise de células que embasou o desenvolvimento do teste preditivo para esclerose múltipla (foto: Acervo pessoal)


No eixo internacional, o Instituto de Doenças Infecciosas e Inflamatórias (INFINITy), da Universidade de Toulouse, conduziu a microscopia de alto conteúdo e o processamento de amostras de pacientes tratados com natalizumabe.

Por fim, a USP e o Hospital Israelita Albert Einstein desenvolveram e aplicaram modelos de aprendizado de máquina para selecionar descritores relevantes das imagens e construir a ferramenta preditiva que antecipa a resposta clínica.

Segundo o pesquisador do Albert Eistein, Helder Nakaya, o uso de inteligência artificial foi fundamental para transformar centenas de informações morfológicas em um modelo viável. “Nós conseguimos reduzir mais de 400 características das células para poucas combinações, que já permitem prever se o paciente vai responder ou não ao tratamento. Sem o aprendizado de máquina, isso ficaria impraticável para virar um teste que pudesse ser validado e aplicado em larga escala”, apontou.

O estudo faz parte de um projeto mais amplo coordenado por Cotta em parceria com o pesquisador de Bio-Manguinhos, Marco Medeiros, voltado ao desenvolvimento de novos imunoterápicos anti-VLA-4 para o tratamento de doenças inflamatórias e autoimunes. “Essa parceria marcou o início do projeto para o desenvolvimento do anticorpo anti-VLA-4. A colaboração entre o IOC, Bio-Manguinhos e a Fiocruz Ceará evidencia a força da integração institucional e mostra como a união de diferentes expertises é fundamental para avançar no desenvolvimento de um insumo biológico inovador para o tratamento da esclerose múltipla”, contou Marco Medeiros.

A iniciativa tem patente depositada em fase de análise internacional e já avança em ensaios pré-clínicos com modelos animais, a partir de um acordo entre a Fiocruz e a Embrapii, com participação da USP Ribeirão Preto. Os próximos passos incluem ampliar a metodologia para novos grupos de pacientes brasileiros, a fim de validar o modelo em diferentes populações, e testar o método em outras doenças inflamatórias e genéticas, nas quais a molécula VLA-4 também desempenha papel central — como a Distrofia Muscular de Duchenne, doença genética ligada ao cromossomo X.

“O cronograma atual prevê que, após os estudos pré-clínicos e clínicos, o produto possa ser registrado e incorporado ao SUS até 2035, consolidando mais um passo da Fiocruz na inovação em saúde e no fortalecimento da produção nacional de biofármacos”, finalizou o pesquisador de Bio-Manguinhos.  Na AFN Mais notícias Comitiva do Iphan visita Fiocruz para discutir candidatura a Patrimônio Mundial

Publicado em 23/01/2026 09:24 Yuri Neri (IOC/Fiocruz)