Arquivo da tag: SuS

Pesquisadores divulgam nota técnica sobre cigarros eletrônicos e desinformação

Pesquisadores da Fiocruz produziram uma nota técnica com dados sobre a circulação de vídeos desinformativos sobre os cigarros eletrônicos no YouTube. Os conteúdos produzidos em canais brasileiros negam evidências científicas sobre os riscos da nicotina e desacreditam autoridades sanitárias. De acordo com os pesquisadores, o formato opinativo dos vídeos é uma estratégia para burlar as leis que proíbem a publicidade do tabaco na internet brasileira desde 2000.

Estudo indica a urgência de ajuste à legislação brasileira, que proíbe a publicidade do tabaco na internet desde 2000 e a venda de vape desde 2009 (Foto: Freepik)

Os cigarros eletrônicos são proibidos no Brasil, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), desde 2009. Eles causam dependência e provocam a doença denominada evali, causadora de lesões no pulmão. Pessoas entre 15 e 24 anos somam cerca de 70% dos usuários desses dispositivos eletrônicos para fumar no Brasil.

O vape desafia três décadas de conquistas de políticas públicas contra o tabaco, por meio do Programa Nacional de Controle do Tabagismo (PNCT). A nota técnica, produzida pelo Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict/Fiocruz), indica que, entre 2023 e 2024, houve um aumento no número de fumantes no Brasil, passando de 9,3% para 11,6% de adultos fumantes no país. O enfrentamento das doenças causadas pelo tabagismo representa um custo anual de R$ 153 bilhões para o Sistema Único de Saúde (SUS).

Os cinco canais identificados na nota acumularam mais de 6 milhões de visualizações e somam 400 mil pessoas inscritas. Os conteúdos são recomendados pelo YouTube em buscas sobre os cigarros eletrônicos. Eles ensinam como usar o produto, avaliam os modelos, oferecem cupons de desconto e links para adquirir o vape, além de trazer entrevistas com especialistas defensores do cigarro eletrônico.

A nota identificou que o YouTube apresenta uma autorregulação frágil, ao desconsiderar leis como o Código de Defesa do Consumidor, a Lei Anti Fumo e o Eca Digital. A plataforma não menciona, em sua seção de publicidade, a proibição legal de propaganda de tabaco e cigarros eletrônicos no Brasil; e a sinalização de conteúdo restrito a maiores de 18 anos foi aplicada de forma esporádica.

O estudo técnico defende uma articulação intersetorial entre Estado e sociedade civil para propor soluções para ampliar a segurança dos brasileiros no YouTube, diante do avanço da desinformação sobre tabaco e da promoção dos cigarros eletrônicos.

Recomendações

Celebrar um acordo de cooperação com o YouTube, destinado a oferecer maior segurança aos cidadãos brasileiros no que se refere à proibição da publicidade do tabaco nos canais brasileiros. Nesse contexto, sugere-se uma parceria entre atores da comunicação pública, influenciadores digitais e o YouTube para promover, gratuitamente, conteúdos informativos sobre o risco dos cigarros eletrônicos.

Sugere-se, com base no Decreto n.º 12.975/2026, que os provedores de aplicações de internet tenham transparência sobre estratégias usadas para a avaliação de riscos, moderação, recomendação e monetização sobre os temas relativos ao tabaco nas plataformas. Tais medidas são relevantes no contexto do ECA Digital, pois atuam como medidas preventivas para evitar a iniciação de jovens e adolescentes no uso de dispositivos eletrônicos para fumar.

Período eleitoral

Durante o período eleitoral (de 4 de julho até 25 de outubro), os conteúdos digitais publicados e disponibilizados pela Agência Fiocruz de Notícias (AFN) acompanham as orientações da Advocacia-Geral da União (AGU) e da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom). O documento esclarece que é permitida a divulgação de “conteúdo meramente informativo ou de serviço ao cidadão”

Publicado em 26/08/2026 15:30

Fiocruz debate ambiente regulatório e financiamento da inovação no XI Summit Brasil

A Fiocruz marcou presença em dois painéis do XI Summit Brasil, evento paralelo à Bio Convention 2026 realizado em San Diego, nos Estados Unidos. Organizado pela Brazilian Pharma and Health e promovido pela Abiquifi, Apex Brasil e Ministério da Saúde, o encontro reuniu lideranças do setor para discutir avanços regulatórios, competitividade e mecanismos de financiamento para a inovação em saúde no país.

Debate destacou a evolução do modelo regulatório brasileiro (Foto: Pamela Lang)

O primeiro painel abordou os avanços regulatórios e iniciativas voltadas à celeridade e competitividade no Brasil. A mesa contou com a participação da diretora de Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz), Rosane Cuber, e foi moderada pelo presidente executivo da Abiquifi, Norberto Prestes.

Em sua fala inicial, o secretário-adjunto da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde do Ministério da Saúde, Eduardo Jorge Valadares Oliveira, traçou um histórico das políticas industriais no país. Ele destacou que, entre os anos 1950 e 2000, pesquisa e indústria farmacêutica caminharam de forma desarticulada. A retomada das políticas industriais no primeiro governo Lula, com programas como o Profarma do BNDES e a Lei de Inovação de 2004, começou a quebrar esse paradigma.

“Em 2007, com a chegada do [José Gomes] Temporão, o Ministério da Saúde saiu de um foco apenas assistencial para qualificar a plataforma científica e tecnológica, com a retomada da produção pública farmacêutica e do setor farmoquímico. Instrumentos como as PDPs, o fortalecimento do PNI e de Bio-Manguinhos deram sustentabilidade a todo esse sistema”, afirmou.

A diretora da Anvisa, Daniela Marreco, apresentou dados que evidenciam a modernização dos fluxos da Agência. Nos primeiros cinco meses de 2026, foram concluídas 137 decisões sobre registros de medicamentos sintéticos, superando o total de 2025 e registrando a maior produtividade da história para o período. O desempenho é resultado de um plano de ação voltado à redução do estoque de processos, com melhorias na gestão, realocação de recursos humanos e atualização tecnológica.

A Agência também tem adotado programas de priorização e aceleração para medicamentos voltados a doenças raras e necessidades não atendidas, além de editais de chamamento para terapias avançadas (2022), dispositivos médicos (2023) e inovação radical (2024). “Inovação exige regulação ágil, mas sem comprometer qualidade, segurança e eficácia”, reforçou a mensagem apresentada pela Anvisa.

Avanço regulatório acelera desenvolvimento de terapias avançadas

No debate que se seguiu, a diretora de Bio-Manguinhos/Fiocruz, Rosane Cuber, destacou a evolução do modelo regulatório brasileiro. “O Brasil vem consolidando um modelo próprio, baseado em diálogo técnico, previsibilidade e construção conjunta entre a Agência e os desenvolvedores de produtos biológicos”, afirmou.

Cuber citou o Edital de Chamamento nº 17/2021 como uma ferramenta transformadora. O projeto-piloto de cooperação técnico-regulatória voltado a terapias avançadas de interesse do SUS permitiu a transição de um modelo linear de submissão para um modelo interativo, com construção conjunta ao longo do desenvolvimento dos produtos.

“Este conjunto de ferramentas não apenas acelera o processo — reduz incertezas, aumenta a qualidade dos dossiês e evita retrabalho, o que é particularmente crítico em produtos altamente complexos, como terapias gênicas e celulares”, explicou.

Bio-Manguinhos foi contemplado no edital em novembro de 2022. Desde então, acumula experiências concretas. Um dos exemplos citados foi o desenvolvimento de uma terapia gênica in vivo para atrofia muscular espinhal (AME) tipo 1. O dossiê foi submetido à Anvisa em junho de 2025 e a autorização para início do estudo clínico foi obtida em novembro do mesmo ano — um processo de avaliação inferior a cinco meses para um estudo de Fase I/II em população pediátrica com administração intracisternal.

“O estudo já está em fase de recrutamento de participantes, posicionando o Brasil em um patamar diferenciado no desenvolvimento de terapias avançadas”, destacou.

Outro caso mencionado foi o desenvolvimento de uma terapia CAR-T para linfoma não-Hodgkin difuso de grandes células e leucemia linfoblástica aguda de células B. Desde dezembro de 2023, a interação com a Anvisa tem sido contínua e, atualmente, ocorre em frequência praticamente semanal. Como resultado, foi inaugurado em maio de 2026 o Centro de Desenvolvimento e Produção de Terapia CAR-T de Bio-Manguinhos (CDPTC). “A atuação da Anvisa foi determinante não apenas como órgão avaliador, mas como facilitador técnico na construção dessa plataforma”, afirmou Cuber.

A diretora também apontou dois caminhos para o avanço do ambiente regulatório. O primeiro diz respeito a plataformas tecnológicas, como as vacinas de mRNA. “Poderíamos pensar no aproveitamento de estudos pré-clínicos e clínicos, uma vez que, para uma mesma plataforma, só alteramos a sequência genética, mas a molécula e a nanopartícula são as mesmas”, explicou.

O segundo caminho seria a criação de um instrumento nos moldes do chamamento da Anvisa, agora voltado a biossimilares. “O desenvolvimento de biossimilares tem se dado num tempo muito menor. Talvez possamos pensar na não necessidade de um estudo de fase III, reforçando as comparabilidades. Isso daria celeridade e agilidade para competirmos com outros países, como China e Índia”, concluiu.

Financiamento da Inovação em Saúde

O segundo painel debateu mecanismos de financiamento e a integração entre capital público e privado para acelerar a inovação em saúde e biotecnologia. A vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz, Priscila Ferraz, participou da mesa ao lado de representantes do BNDES, Finep, Embrapii e Instituto Butantan.

A representante do BNDES destacou o papel central do banco no apoio ao setor produtivo. “No setor farmacêutico, investimentos em inovação são o que garantem a competitividade. O desafio das instituições de fomento é oferecer uma cesta de produtos que atue nas diferentes fases da inovação — desde financiamento direto até instrumentos de renda variável, como fundos específicos para projetos de maior risco”, afirmou.

Priscila Ferraz trouxe uma provocação sobre o acesso dos laboratórios públicos aos instrumentos de fomento. “O Brasil hoje dispõe de instrumentos de inovação para os laboratórios públicos, como as PDPs, que usam o poder de compra do Estado para induzir a inovação. Mas uma das provocações que faço é a necessidade de integrar e coordenar melhor esses instrumentos. Precisamos de investimento continuado, com previsibilidade”, disse.

Ela ressaltou as dificuldades enfrentadas por instituições como a Fiocruz, que, por ser uma instituição pública de direito público, não consegue acessar diversos instrumentos da Finep e do BNDES. “Temos que ser criativos e pensar de que forma podemos articular as diversas iniciativas para ajudar os laboratórios públicos, que têm sido, na história do país, os responsáveis por segurar as pontas nos momentos de emergência”, concluiu.

A participação da Fiocruz no XI Summit Brasil reforça o papel estratégico da instituição no fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde e na articulação entre ciência, regulação e financiamento para garantir à população brasileira o acesso a inovações em saúde.

Publicado em 24/06/2026 14:09 Pamela Lang (Bio-Manguinhos/Fiocruz)

Fiocruz promove 4ª edição do Sarau: Saúde em Cena com temática sobre ecologia

Em sua quarta edição, com a temática ecologia, o evento Sarau: Saúde em Cena 2026, promovido pela Fiocruz, abre as portas para as comunidades do território da Colônia Juliano Moreira e entorno, na Zona Sudoeste do Rio de Janeiro, no próximo sábado (27/6). A programação conta com apresentações culturais, atividades lúdicas de laboratórios da Fiocruz e a participação dos dispositivos públicos parceiros do território que trazem informação e serviços. O destaque é a vacinação com presença do Zé Gotinha, uma boa oportunidade de colocar a caderneta de vacinação infantil e adultos em dia.

As novidades deste ano são o jogo Escape Room: Os enigmas de Lassance – uma imersão que transporta os participantes a resolverem enigmas no cenário das investigações conduzidas por Carlos Chagas em Lassance (MG), e a participação do Comitê Fiocruz pela Acessibilidade e Inclusão, que colocará em pauta a importância de ações de inclusão e acessibilidade no combate ao capacitismo. Além disso, haverá iniciativas como as atividades de educação ambiental realizadas pela Sala Verde, oficinas, feira para geração de renda local, aplicação de jogos, como o #TAMOJUNTO sobre Comunicação Não Violenta e o jogo do Ciclo do Poder, sobre o ciclo menstrual, oferta de Práticas Integrativas de Saúde (PICs) e mais.

O evento tem como objetivo o fortalecimento do SUS em territórios com vulnerabilidades sociais, enfrentando as iniquidades em saúde para a melhoria dos determinantes sociais da saúde locais. O evento contará com ações integradas, intersetoriais e territorializadas em parceria com os dispositivos públicos de saúde, assistência social, educação e cultura do território com o incentivo à participação das comunidades locais nos processos construtivos.

“Chegamos à quarta edição. São quatro anos consecutivos de portas abertas para receber a comunidade com atividades culturais, educativas e de divulgação científica. É um dia de culminância das atividades de prevenção e promoção da saúde, que são desenvolvidas ao longo do ano, no Calendário da Saúde da Fiocruz, para o fortalecimento das ações territorializadas e da rede de apoio em saúde, com a integração das instituições parceiras e das comunidades locais, com geração de renda. Estas ações também têm o objetivo de promover uma relação de reconhecimento comunitário e de resiliência do SUS, com ressonâncias em saúde aos viventes do evento, proporcionando articulações comunitárias e protagonismos coletivos neste território”, ressalta a pesquisadora Isabel Bonna, da Coordenação de Saúde Humana da Fiocruz Mata Atlântica e do Sarau.

O Sarau foi estruturado, ao longo do ano, a partir das ações do Calendário da Saúde da FMA com diversas expressões do território, seja cultural ou de seus serviços, e destaca em sua composição as atividades culturais como ferramentas importantes de promoção da saúde, que podem articular trocas entre seus atores, como o Palco Cultural e o Espaço Literário. Na edição anterior a novidade foi a oferta das Práticas Integrativas de Saúde (PICs) que estão de volta este ano.

“Teremos também feira para a geração de renda com alimentação, com produtos da agricultura familiar e/ou produzidos no território, e com artesanatos. Os serviços contarão com participações científicas e lúdicas com temas de saúde e ecologia, de vários parceiros da Fiocruz, como IOC + Escolas, Museu da Vida e dos serviços dos dispositivos atuantes no território, como o Cras Machado de Assis, a Clínica da Família Arthur Bispo do Rosário, Capsi Eliza Santa Roza, Caps Arthur Bispo do Rosário, programa Meninas Livres do MEC, BiblioSesc, Centro de Cultura e Convivência Pedra Branca, projeto Saci, Aguadeiros da Cedae, entre outros. Esta ação é coordenada pela Fiocruz Mata Atlântica e conta com a participação de todos os seus escritórios técnicos”, explica Isabel Bonna.

O Sarau é aberto a crianças, jovens, adultos e idosos e ocorrerá das 10h às 16h, no Pavilhão Olympio da Fonseca do campus Fiocruz Mata Atlântica. O Campus da FMA tem estrutura física que valoriza a participação de PCDs.

Serviço
Sarau: Saúde em Cena
Quando: 27 de junho, das 10h às 16h 
Onde: campus Fiocruz Mata Atlântica (Rua Sampaio Côrrea s/n, Jacarepaguá, Rio de Janeiro)
Palco Cultural: programação de apresentações de dança e de música 
Espaço Literário
Práticas Integrativas de Saúde: mediante a agendamento/inscrição prévia na hora (reiki, massagem e auriculoterapia)
Sala Verde: oficina ecologia interior (bem-estar e regulação emocional)

Expositores
Fiocruz Mata Atlântica: mostra da biodiversidade do bioma com coleções da Sala Verde da FMA, promoção de campanhas de conscientização sobre saúde preventiva, atividades lúdicas e de divulgação sobre a importância da conservação e restauração da floresta, além do descarte correto do lixo orgânico e do resíduo reciclável. Estão programadas exposições sobre morcegos e serviços ecossistêmicos, abelhas nativas sem ferrão e sua importância para a preservação do bioma, atividades do Clubinho da Mata para o público infantil e mostra com participação de voluntários do jogo #Tamu Junto, desenvolvido pelo Núcleo de Convívio da FMA, que tem como finalidade trabalhar habilidades e percepções relacionadas à mediação de conflitos e à comunicação não violenta. Inscrições para oficinas e para Trilha Interpretativa estarão disponíveis.

Clínica da Família Arthur Bispo do Rosário: vacinação 

Caps Arthur Bispo do Rosário: mandala 

Capsi Eliza Santa Roza: poesia e contação de histórias 

Ministério da Educação (MEC): Meninas Livres sobre dignidade menstrual 

BiblioSesc: biblioteca itinerante 

Centro de Cultura e Convivência Pedra Branca (Cecco): oficina de artes

IOC + Escolas/Fiocruz: atividades diversas como os Jogos do Ciclo do Poder e Escape Room –Os Enigmas de Lassance e #TAMUjunto sobre comunicação não violenta

Comitê Fiocruz pela Acessibilidade e Inclusão

Arte, Horta & Cia da Prefeitura do Rio

Projeto Saci

Cedae: aguadeiros 

Feira para geração de renda local: alimentação e artesanato com a participação dos Quintais Produtivos da Colônia 

Venda de livros de escritores do território

Publicado em 23/06/2026 11:26 Isis Breves (VPAAPS/Fiocruz)

Brasil registrou 120 mil mortes associadas a ondas de calor em 20 anos

O estudo Saúde e ondas de calor do Brasil: evidências sobre mortalidade, morbidade hospitalar e implicações para o SUS, lançado nesta quarta-feira (17/6), apresenta dados inéditos sobre mortes atribuíveis às ondas de calor no país nos últimos 20 anos. O estudo caracteriza padrão de exposição a eventos de ondas de calor e os efeitos na saúde humana em todo o território nacional. Os achados reforçam o calor extremo como ameaça à saúde pública e destaca a necessidade de fortalecer a agenda de adaptação, diante do aquecimento global e da intensificação e frequência de ondas de calor. As análises foram conduzidas por pesquisadores da Fiocruz e da Universidade Federal da Bahia (UFBA), sob a coordenação das equipes técnicas dos projetos Ciência&Clima e ProAdapta, com o objetivo de apoiar a formulação de ações para o enfretamento do calor extremo e fortalecer a integração entre produção científica e políticas setoriais. Acesse o estudo.

A maioria dos municípios brasileiros apresentou uma tendência de aumento na frequência e na intensidade das ondas de calor ao longo das duas décadas estudadas

Os dados de mortalidade por doenças do aparelho circulatório e cardiovascular ocorridas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) em 5.566 municípios, entre os anos de 2000 e 2019, estimaram em aproximadamente 120 mil óbitos associados ao calor extremo no país. Esse valor equivale a 0,6% da mortalidade total registrada no período, excluindo os óbitos por causas externas (acidentes e violências). Os resultados revelam de modo consistente a associação entre a exposição ao calor extremo e ondas de calor e o aumento da mortalidade. Os efeitos foram mais pronunciados entre idosos, com óbitos por causas respiratórias, mulheres e pessoas com menor escolaridade. São resultados que indicam e reforçam a influência dos determinantes sociais na distribuição dos impactos.

“A inovação deste estudo está em integrar, em escala nacional, a caracterização das ondas de calor considerando frequência, intensidade e duração com uma análise detalhada de seus impactos sobre internações hospitalares e mortalidade. De modo geral, o trabalho reforça evidências já descritas na literatura, mas avança em análises mais detalhadas sobre os impactos do calor extremo na saúde da população brasileira”, destaca a pesquisadora Beatriz Oliveira, da Fiocruz, responsável por conduzir o estudo.

“A pesquisa traz uma mensagem inequívoca: o calor extremo já está custando vidas no Brasil. Os mais de 120 mil óbitos associados às ondas de calor revelam que a adaptação à mudança do clima precisa avançar com urgência, ampliando a construção de cidades verdes e resilientes. Para o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, é o que estamos fazendo a partir da implementação do Programa Cidades Verdes Resilientes com o Plano Nacional de Arborização Urbana, a iniciativa ArborizaCidades fomentando apoio a planos e projetos de arborização urbana para enfrentar o calor extremo, a elaboração da Estratégia Nacional de Soluções Baseadas na Natureza e o Plano Nacional de Ação pelo Resfriamento. Tudo isso é indispensável para apoiar estados e municípios a serem capazes de proteger a saúde da população diante de um clima cada vez mais quente. A agenda de resfriamento urbano é uma agenda de prevenção, adaptação e proteção da vida”, detalha o diretor de Meio Ambiente Urbano do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e do projeto ProAdapta, Maurício Guerra.

Em âmbito nacional, o estudo explorou os efeitos do calor extremo sobre as internações hospitalares do SUS. Na população em geral foi identificado um aumento consistente do risco de internação por doenças respiratórias, especialmente pneumonia, e geniturinárias, como insuficiência renal, em quase todas as regiões. O estresse térmico sobrecarrega as funções cardiorrespiratórias, contribuindo para inflamações sistêmicas e agravando doenças respiratórias pré-existentes, além de afetar o trato urinário por meio da desidratação, da hipovolemia (redução do volume total de sangue e líquidos no corpo) e da disfunção renal.

Para crianças menores de 10 anos, as gastroenterites (diarreias) foram a causa de internação mais fortemente associada às ondas de calor em todas as macrorregiões do país. A condição pode estar associada à maior suscetibilidade à desidratação, à imaturidade dos mecanismos de termorregulação e às alterações ambientais que afetam a qualidade da água e o armazenamento de alimentos durante períodos de calor extremo.   

Na população idosa, indivíduos com mais de 60 anos mostraram alta sensibilidade em causas respiratórias, renais e metabólicas (diabetes). Segundo os pesquisadores, do ponto de vista fisiopatológico, esses efeitos podem estar associados à redução da capacidade de termorregulação, à maior prevalência de doenças crônicas e ao uso de medicamentos que interferem no balanço hídrico e eletrolítico, favorecendo a desidratação e a disfunção renal. O estudo sugere que, durante ondas de calor mais severas, internações por doenças cardiovasculares podem evoluir rapidamente para quadros graves, com possibilidade de óbito antes da hospitalização.

“Na morbidade hospitalar, exploramos diferentes desfechos de saúde, um tema ainda pouco estudado no país. Na mortalidade, identificamos um gradiente social de risco, com maior aumento percentual do risco de morte entre pessoas com menor escolaridade. Esses resultados reforçam a necessidade de direcionar ações de adaptação e proteção aos grupos mais vulneráveis”, explica o supervisor de Impactos, Vulnerabilidades e Adaptação do projeto Ciência&Clima, Sávio Raeder.

A maioria dos municípios brasileiros apresentou uma tendência de aumento na frequência e na intensidade das ondas de calor ao longo das duas décadas estudadas. Contudo, a análise sinaliza que a exposição às ondas de calor não ocorre de modo homogêneo no território nacional. Há variações de frequência, duração e intensidade entre as sete zonas climáticas do país, que foram adotadas neste estudo por sua maior sensibilidade de captar a relação entre saúde e os eventos de ondas de calor.

Estas variações também foram observadas entre as regiões brasileiras: enquanto os eventos climáticos foram mais frequentes, longos e persistentes nas regiões Norte e Centro-Oeste, os episódios com maior intensidade, em relação à temperatura média climatológica local, ocorreram no Sul e no Sudeste. Os resultados demonstram como as ondas de calor  podem aumentar a demanda por serviços de saúde pública e contribuir para o agravamento de condições clínicas entre os grupos mais sensíveis.

Metodologia empregada

O estudo envolveu três etapas. A primeira caracterizou a exposição às ondas de calor no Brasil. Foram considerados o número de dias em ondas de calor, o número de eventos climáticos, a duração média dos episódios e a intensidade média em relação à média climatológica do período de referência (1981-2010). A metodologia para realização do estudo adotou o critério mínimo de dois dias consecutivos com temperatura acima do percentil 95 da temperatura média como principal componente da exposição. Além disso, foram analisadas a distribuição espacial e temporal entre 2000 e 2019.  

A segunda etapa explorou as estimativas de risco da exposição às ondas de calor sobre desfechos de morbidade hospitalar atendidos pelo SUS, segundo diferentes definições de ondas de calor, subgrupos populacionais de maior risco (população geral, crianças menores de 10 anos e idosos) e causas específicas. Os principais desfechos estudados foram selecionados de acordo com a plausibilidade biológica, relevância clínica e adequação ao uso de dados administrativos. Foram consideradas as internações hospitalares com a seleção de 680 municípios, que apresentaram séries temporais mais estáveis e robustas entre 2010 e 2019. Por fim, os pesquisadores analisaram a associação entre ondas de calor e mortalidade e estimaram o número de óbitos atribuíveis, considerando as zonas climáticas e as características sociodemográficas (2000-2019).  

Medidas preventivas

Os resultados reforçam a necessidade de ampliar a sensibilização sobre os riscos das ondas de calor e incrementar os planos de ações em nível municipal. A resposta passa pela implementação de sistemas de monitoramento e alerta antecipado, orientação à população e fortalecimento da capacidade de respostas do SUS. 

Outro aspecto apontado pelo estudo é a necessidade de incorporar sistematicamente informações climáticas nos processos de vigilância epidemiológica e ambiental para melhor identificar os períodos críticos, ampliar a capacidade de antecipação de riscos e subsidiar medidas preventivas e assistenciais. Os maiores impactos observados em grupos de maior vulnerabilidade apontam necessidade de atenção especial a estes segmentos.   

A publicação é mais um resultado da iniciativa conjunta dos projetos Ciência&Clima e ProAdapta, em conjunto com a Fiocruz, em aprofundar e avançar no conhecimento científico e na compreensão dos impactos observados da mudança do clima no Brasil. O estudo preenche uma lacuna crítica sobre a associação entre calor extremo e impactos na saúde no âmbito nacional. Na primeira fase do estudo, lançado em outubro de 2025, os técnicos se preocuparam em sintetizar os indicadores e índices utilizados para estabelecer os parâmetros para protocolos de enfrentamento ao calor extremo. 

Saiba mais

Ciência&Clima é um projeto de cooperação técnica internacional executado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) na sua implementação e recursos do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) cujo propósito é auxiliar o governo brasileiro no cumprimento dos compromissos internacionais da agenda de transparência climática junto à Convenção do Clima (UNFCCC). Acesse: https://www.gov.br/mcti/ciencia-clima

ProAdapta é fruto da parceria entre o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Brasil (MMA) e o Ministério Federal do Meio Ambiente, Ação Climática, Conservação da Natureza e Segurança Nuclear (BMUKN) da Alemanha, no contexto da Iniciativa Internacional para o Clima (IKI, na sigla em alemão) e implementado pela Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH. Acesse: https://www.adaptacao.eco.br/

A Fiocruz é a maior instituição de pesquisa biomédica da América Latina e uma das principais responsáveis pela produção de vacinas, medicamentos e conhecimento para o Sistema Único de Saúde (SUS). Vinculada ao Ministério da Saúde, atua em pesquisa, ensino, inovação e assistência em saúde. Presente em dez estados e no Distrito Federal, além de manter um escritório em Moçambique, reúne 16 unidades técnico-científicas distribuídas pelo país. 

Publicado em 17/06/2026 14:50 Agencia Fiocruz de Noticias (AFN), Ciência&Clima e ProAdapta

MAIS ACESSO À SAÚDE

Mais Médicos completa 13 anos levando assistência a 67 milhões de brasileiros e fortalecendo o SUS em todo o país

Programa está presente em cerca de 4,5 mil municípios e conta com mais de 27 mil profissionais na Atenção Primária, reduzindo vazios assistenciais e ampliando o acesso à saúde

Presente em cerca de 4,5 mil municípios brasileiros, o Programa Mais Médicos completa 13 anos de existência garantindo assistência a aproximadamente 67 milhões de pessoas no Sistema Único de Saúde (SUS). Atualmente, mais de 27 mil médicos atuam na Atenção Primária à Saúde, fortalecendo as equipes de Saúde da Família e contribuindo para a melhoria dos indicadores de saúde, especialmente em territórios mais vulneráveis. Dos municípios atendidos pelo programa, cerca de 1,7 mil apresentam altos índices de vulnerabilidade social. A meta do Ministério da Saúde é alcançar 28 mil profissionais até 2027.

Para o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, a política pública transformou o cuidado em saúde e fortaleceu o Sistema Único de Saúde nas regiões mais vulneráveis do país. “Treze anos depois, o Mais Médicos continua contando a história de um Brasil que se recusou a abandonar seu povo. Cada médico presente em uma comunidade remota, em uma periferia ou em um território indígena representa mais do que atendimento: representa respeito, cidadania e a garantia de que nenhuma vida vale menos por causa do lugar onde nasceu”, afirmou.

O ministro também destacou que o Mais Médicos se tornou um símbolo de esperança para milhões de brasileiros que antes enfrentavam dificuldades para acessar os serviços de saúde. “Consolidado como uma das mais importantes políticas públicas do país e referência internacional, o programa levou esperança para onde antes havia ausência e transformou o direito à saúde em realidade para milhões de brasileiros”, completou.

Mais do que levar médicos para localidades historicamente desassistidas, o Mais Médicos contribuiu para fortalecer as equipes de saúde, qualificar a formação profissional e consolidar a Atenção Primária como principal porta de entrada do SUS. Ao longo dessa trajetória, milhões de brasileiros passaram a contar com atendimento mais próximo de suas casas, ampliando o acesso ao cuidado e fortalecendo os vínculos com os profissionais de saúde.

O secretário de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, Felipe Proenço, ressaltou a transformação proporcionada pelo programa na vida da população brasileira. “Comemorar os 13 anos do Mais Médicos é celebrar uma política pública que mudou a realidade de milhões de brasileiros. O programa mostrou que, quando o Estado chega aonde as pessoas mais precisam, é possível reduzir desigualdades, fortalecer o SUS e garantir cuidado com dignidade. Cada profissional formado, cada equipe fortalecida e cada comunidade atendida reafirmam que investir na Atenção Primária é investir em um Brasil mais justo, saudável e humano”, destacou.

Impacto do programa Mais Médicos no SUS

Para celebrar essa trajetória, o Ministério da Saúde promoveu, em 8 de junho, em Brasília (DF), um encontro nacional que reuniu profissionais, gestores, pesquisadores, instituições de ensino e organismos internacionais para debater resultados, compartilhar experiências e projetar o futuro do provimento médico no Brasil.

Durante a celebração, também foram lançados o livro Caminhos Mais Médicos: Experiências Transformadoras na Atenção Primária à Saúde e a exposição fotográfica homônima, que retratam a trajetória do programa por meio de histórias reais vividas nos territórios. Foto: Sarah Maximo/MS

A obra reúne dez experiências emblemáticas de diferentes regiões do país e evidencia como o Mais Médicos ampliou o acesso à saúde e fortaleceu o cuidado em comunidades historicamente vulnerabilizadas. Complementando a publicação, a exposição apresenta registros fotográficos que revelam a diversidade dos cenários, dos profissionais e das populações atendidas, destacando experiências que vão da atenção à saúde em áreas remotas da Amazônia ao trabalho junto a comunidades quilombolas, ribeirinhas e do semiárido brasileiro.

“Esta exposição e este livro traduzem aquilo que muitas vezes os números não conseguem mostrar: histórias de vida transformadas pelo cuidado. Cada fotografia e cada relato revelam a presença do SUS nos territórios, o compromisso dos profissionais com as comunidades e o impacto do Mais Médicos na construção de uma saúde mais próxima, humana e acessível para a população brasileira”, concluiu Proenço.

 Anna Elisa Iung
Ministério da Saúde

Categoria Saúde e Vigilância Sanitária

Dor crônica terá 5 de julho como dia nacional de conscientização

Dor crônica terá 5 de julho como dia nacional de conscientização

Pacientes terão atendimento integral no SUS

Lei publicada nesta segunda-feira (8) define diretrizes básicas para a melhoria do atendimento de saúde a pessoas que convivem com a dor e institui 5 de julho o Dia Nacional de Conscientização e Enfrentamento da Dor Crônica.

A norma assegura atendimento integral no Sistema Único de Saúde (SUS) e prevê orientações prévias sobre riscos e possíveis efeitos adversos dos tratamentos.

De acordo com a Associação Internacional para o Estudo da Dor, dor crônica é aquela com duração maior que 30 dias.

Campanhas anuais

A data será representada pela cor verde e deverá mobilizar o Poder Público na promoção de campanhas de conscientização todos os anos. 

A iniciativa busca ampliar o acesso a informações qualificadas sobre opções terapêuticas disponíveis no SUS, combater o preconceito e estimular gestores de saúde a adotarem abordagens multiprofissionais humanizadas e eficazes.

Impacto na população

Estima-se que a dor crônica afete cerca de 60 milhões de brasileiros. Ao reconhecer a dimensão do problema, a lei pretende fortalecer políticas públicas voltadas ao diagnóstico, tratamento e acompanhamento desses pacientes.

Agência Brasil Publicado em 08/06/2026 – 07:56 Brasília

SUS vai ampliar proteção vacinal contra doença pneumocócica

Guia preliminar com orientações foi divulgado pelo Ministério da Saúde

A partir de junho, o Sistema Único de Saúde (SUS) vai começar a oferecer um imunizante mais abrangente contra a doença pneumocócica. A vacina pneumocócica conjugada 20-valente (VPC20 ou Pneumo 20) vai substituir a 10-valente, dobrando os sorotipos prevenidos.

O Ministério da Saúde publicou nesta quarta-feira (27) um guia técnico preliminar com orientações sobre a mudança para profissionais de saúde. Os municípios poderão começar a aplicar a vacina assim que receberem o imunizante.

A doença pneumocócica é uma infecção causada pela bactéria Streptococcus pneumoniae, ou pneumococo, que pode ocasionar quadros leves, como inflamação no ouvido ou sinusite, ou graves, como pneumonia bacteriana, meningite e sepse.

Estima-se que o pneumococo seja responsável por até 50% de todos os casos de meningite bacteriana em crianças. A mortalidade nesses casos é de cerca de 30%. Além das crianças pequenas, idosos e indivíduos com comorbidades ou imunossupressão também são mais vulneráveis.

>> Siga o canal da Agência Brasil no WhatsApp

A vacinação contra a doença, com a VPC10, foi incluída no calendário básico infantil em 2010 e desde então, houve redução de 60% dos casos de doença meningocócica causada por algum dos 10 sorotipos combatidos pela vacina em crianças de até dois anos. Os casos de meningite pneumocócica na mesma faixa etária também caíram 65%.

No entanto, em anos mais recentes os casos vêm crescendo. De 2013 a 2019, o Brasil registrou uma média de 164 casos anuais de meningite pneumocócica em crianças de até 5 anos. De 2022 a 2024, a média anual subiu para 211,3 casos.

A Diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, Flávia Bravo, explica que esta fato é reflexo de uma mudança epidemiológica decorrente da própria efetividade da vacinação.

“A introdução da vacina 10-valente foi excelente na redução desses dez tipos, o que representou uma queda importante nas doenças graves. Mas o pneumococo tem uma característica que a gente chama de “replacement“: você controlando um tipo, reduzindo a circulação, outro tipo pode começar a ganhar o espaço”

Dados da vigilância do Ministério da Saúde mostram que quase 40% dos casos graves com amostra coletada entre 2018 e 2023 foram causados por apenas dois tipos da bactéria não prevenidos pela VPC10, mas incluídos na formulação da VPC20.

“Além disso, nos menores de 1 ano, cerca de 11% dos casos de meningite meningocócica são causados pelos outros tipos adicionais da vacina 20-valente. Isso significa que há a possibilidade da gente voltar a reduzir a curva de incidência porque estaremos protegendo exatamente contra os sorotipos que hoje prevalecem”, complementa Flávia. 

As vacinas pneumocócicas conjugadas, que são o caso tanto da VPC10 quanto da VPC20, também evitam que o pneumococo se instale na nasofaringe de pessoas vacinadas. Por isso, além de evitar que elas desenvolvam a doença, a vacina também impede a transmissão, promovendo proteção indireta às pessoas não vacinadas.

O Programa Nacional de Imunizações já oferece outras vacinas mais abrangentes contra a doença pneumocócica, a VPC13 e a VPP23, mas apenas para públicos específicos, com determinadas condições de saúde que aumentam a vulnerabilidade às formas graves da doença. Esses imunizantes também serão substituídos pela VPC20 após o fim dos estoques.

Fazem parte dos grupos de alto risco que devem tomar a vacina: pessoas vivendo com HIV/aids; pacientes oncológicos; transplantados de órgãos sólidos ou medula; imunodeficientes; pessoas com nefropatias, pneumopatias, cardiopatias e hepatopatias crônicas; asmáticos graves; diabéticos; pessoas com síndrome de down e prematuros.

O calendário básico de vacinação prevê que os bebês devem receber duas doses da vacina pneumocócica, aos 2 e aos 4 meses de idades, com mais uma dose de reforço aos 12 meses. Crianças menores de 5 anos que não tenham sido vacinadas na idade correta devem atualizar a carteira o mais breve possível.

Durante o período de transição da VPC10 para a VPC20, as crianças receberão a vacina 20-valente na primeira dose e no reforço, e a 10-valente na segunda dose. Crianças que já receberam a primeira dose da vacina 10-valente, serão vacinadas com a 20-valente na segunda dose e no reforço. Uma dose de reforço da VPC20 também será aplicada nas crianças menos de 5 anos que completaram apenas o esquema básico de duas doses com a VPC10.

A vacina só é contraindicada para pessoas com alergia grave a algum componente da fórmula, ou que apresentaram reação alérgica severa em doses anteriores. Recomenda-se também que quem estiver com febre espere melhorar antes de se imunizar

Tâmara Freire – Repórter da Agência Brasil Publicado em 28/05/2026 – 14:25 Rio de Janeiro

Mortalidade materna: Brasil ainda perde centenas de mulheres por ano

Índice é de 56,4 a cada 100 mil nascidos vivos

O Brasil ainda perde centenas de mulheres por ano durante a gestação ou em um período de 42 dias após o fim da gravidez. 

A razão de mortalidade materna no país é de 56,4 a cada 100 mil nascidos vivos, segundo os últimos dados disponíveis, de 2024. Isso significa que, apenas neste ano, foram registrados 1.347 óbitos. A meta do país é chegar a 30 mortes a cada 100 mil nascidos vivos até 2030. 

Os dados são do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM-Datasus), consultados no Observatório da Saúde Pública. A maioria dessas mortes, nove em cada dez, é evitável, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) 

O dia 28 de maio é o Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna, data que tem como objetivo reforçar a importância de ações sobre a saúde das mulheres em sua integralidade e de reforçar os direitos da gestante e puérpera.  

A chefe da Unidade da Saúde da Mulher da Maternidade Escola Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Maria Isabel Peixoto, reforça que um atendimento de qualidade oferece mais segurança à gestante. 

Rio de Janeiro (RJ), 26/05/2026 – A chefe da Unidade da Saúde da Mulher da Maternidade Escola UFRJ, Maria Isabel Peixoto posa para foto na instituição, na zona sul do Rio de Janeiro.
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

 A chefe da Unidade da Saúde da Mulher da Maternidade-Escola UFRJ, Maria Isabel Peixoto, destaca importância do pré-natal bem feito – Foto Tomaz Silva/Agência Brasil

“A gente sabe que com um pré-natal bem feito, de qualidade, de preferência o mais precoce possível para pegar todas as variáveis, conseguimos, na grande maioria das vezes, entregar uma paciente pronta para um parto monitorizado num local com boa assistência e com um desfecho favorável”, diz.  

A unidade é referência no atendimento principalmente de casos de alto risco. “Aqui na maternidade a gente consegue fazer um trabalho de boa qualidade para perpetuar o conhecimento e dar boa assistência aos pacientes”, reforça.

As quatro principais causas de morte materna no Brasil, entre as obstétricas diretas, são as síndromes hipertensivas, hemorragias, infecções puerperais e complicações do aborto. As causas obstétricas diretas são responsáveis por 66% das mortes maternas no país. 

A técnica de enfermagem Fernanda Lopes de Almeida, 41 anos, é uma das pacientes da maternidade. Grávida de 18 semanas, ela é acompanhada por causa de um quadro de hipertensão e pelo histórico de diabetes gestacional em gravidez anterior. 

Rio de Janeiro (RJ), 26/05/2026 –  A grávida que faz tratamento na Maternidade Escola UFRJ, Fernanda Lopes de Almeida posa para foto na instituição, na zona sul do Rio de Janeiro.
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Fernanda Lopes de Almeida é acompanhada na Maternidade-Escola UFRJ – Foto Tomaz Silva/Agência Brasil

Na maternidade, foi orientada a mudar os hábitos de alimentação, fez exames e faz acompanhamento constante. “Sou muito bem atendida, me sinto segura”, diz. “Foi difícil essa adaptação [da alimentação] e até a conscientização. Agora, acho que estou curtindo bem melhor a gestação, uma fase mais tranquila”.

Equipe múltipla

Além dos médicos, uma equipe de diferentes profissionais é importante para garantir o atendimento adequado às mulheres, defende o enfermeiro obstétrico Renné Costa, membro do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen). 

“A gente precisa acreditar muito na multidisciplinaridade das profissões. Cada uma no seu quadrado, cada uma fazendo o seu papel, mas todo mundo centrado nos objetivos que, nesse caso , são a mãe e o bebê”.

Renné Costa diz que tem assistido e participado de muitas experiências positivas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). 

Como enfermeiro obstétrico, Renné Costa já fez mais de 5 mil partos desde 2009, a maioria no Hospital Municipal de Viçosa, em Alagoas. Com pouco mais de 26 mil habitantes, Viçosa é referência nessa área para mais nove municípios alagoanos.

Rio de Janeiro (RJ), 27/05/2026 –  A mortalidade materna no Brasil está muito diferente do que foi há 20 anos. E a mudança foi para melhor. A análise é do enfermeiro obstétrico Renné Costa, membro do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen).
Formação de enfermeiros obstétricos contribui para redução da mortandade materna.
Foto: Renné Costa/Arquivo pessoal

Para Renné Costa, formação de enfermeiros contribui para redução da mortandade materna – Foto Renné Costa/Arquivo Pessoal

Quando ele chegou ao Hospital Municipal de Viçosa, eram realizados no local entre 80 e 90 partos por ano. “Depois do meu trabalho lá, a gente passou a fazer 600 partos por ano”. O enfermeiro atribui essa expansão à autonomia dada à enfermagem, ao enfermeiro obstétrico, que pode assistir ao parto de baixo risco amparado pela Lei 7.498 de 1986, a lei do exercício profissional da enfermagem.

Ele defendeu que experiências como essa deveriam ser multiplicadas pelo Brasil. Nos mais de 5 mil partos que realizou, Renné Costa não perdeu nenhuma criança e nenhuma mulher.

Acompanhamento após o parto 

Rio de Janeiro (RJ), 27/05/2026 –  Dra. Inessa Bonomi, A fase pós-parto, chamada puerpério, é uma parte nevrálgica dentro da questão da mortalidade materna, afirmou à Agência Brasil a ginecologista e obstetra Inessa Beraldo de Andrade Bonomi.
Foto: PlayP/Divulgação
A médica Inessa Bonomi lembra que a fase pós-parto, chamada puerpério, é muito importante na questão da mortalidade materna – Foto PlayP/Divulgação

A ginecologista e obstetra Inessa Beraldo de Andrade Bonomi, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Gestação de Alto Risco da Federação Brasileira das Associaçaões de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), ressalta que o acompanhamento após o parto é também chave para a redução da mortalidade materna. 

“A mulher vai para casa e, muitas vezes, ela acaba sendo menos olhada pelos serviços da rede de saúde e também pela família”, diz. 

O olhar um pouco menos atento para essa mãe pode fazer com que sinais de risco sejam percebidos tardiamente. Essas complicações que surgem no período do puerpério muitas vezes se agravam, se complicam.

A ginecologista e obstetra assegura que os sinais de alerta no pós-parto, no puerpério, não podem ser naturalizados. Entre esses sinais estão sangramento vaginal além do habitual, febre, falta de ar, dor no peito, dor de cabeça intensa e que não passa com o uso de analgésico, alteração visual (escotomas ou pontinhos de luz que a paciente passa a enxergar), pressão que permanece alta e se mantém com picos hipertensivos.

A recomendação da especialista é que essas pacientes voltem mais precocemente para a consulta puerperal. Nos primeiros sete dias e, no máximo, dez, elas devem retornar ao centro de saúde ou ao consultório do ginecologista e obstetra para que sejam avaliadas e se consiga fazer um acompanhamento das condições clínicas pré-existentes que elas têm.

A Febrasgo ressalta que um ponto que não pode ficar fora do acompanhamento puerperal é a saúde mental. O sofrimento psíquico no pós-parto pode se manifestar de várias formas: com tristeza intensa, ansiedade, insônia, medo de cuidar do bebê, sensação de incapacidade, exaustão extrema e dificuldade de vínculo com o recém-nascido.

Em casos mais graves, podem surgir ideias de autoagressão, risco de violência contra si mesma ou contra o bebê e sintomas psicóticos, situações que exigem atenção imediata. Segundo Inessa Bonomi, olhar para a saúde mental é essencial para prevenir desfechos graves no puerpério.

Rede Alyne 

No âmbito federal, em 2024, o governo federal lançou programa para reduzir a mortalidade materna em 25% até 2027. Em relação a mulheres pretas, a intenção é reduzir a mortalidade em 50% no mesmo período. Chamado de Rede Alyne, a iniciativa é uma reestruturação da antiga Rede Cegonha, de cuidados a gestantes e bebês na rede pública.

A iniciativa homenageia a jovem negra Alyne Pimentel, que morreu aos 28 anos, grávida de seis meses, por falta de atendimento adequado na rede pública de saúde do município de Belford Roxo (RJ), em 2002. Alyne também era mãe de uma criança de 5 anos. 

Rio de Janeiro (RJ), 12/09/2024 - Alyne Pimentel morreu aos 28 anos, grávida de 6 meses, por negligência médica. Foto: Reprodução/Centro Brasileiro de Estudos da Saúde
Alyne Pimentel morreu aos 28 anos, grávida de seis meses, por negligência médica – Foto Reprodução/Centro Brasileiro de Estudos da Saúde

A meta da Rede Alyne é beneficiar mulheres com cuidado humanizado e integral, observando as desigualdades étnico-raciais e regionais

Mariana Tokarnia, Alana Gandra e Tâmara Freire  Publicado em 28/05/2026 – 08:13 Rio de Janeiro

Risco cardíaco dobra para pacientes com doença de Chagas após cirurgia

Estudo é de pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP

Portadores de doença de Chagas que apresentam arritmias graves têm mais risco de mortalidade do que outros grupos com doenças do coração. A informação é uma das conclusões de estudo conduzido por pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP.

O estudo, que revisou dados de atendimento a pacientes com doença de Chagas que precisaram passar por cirurgias cardíacas no Hospital das Clínicas, em São Paulo, encontrou um padrão preocupante: o risco de morte após as cirurgias é muito maior, cerca de 2,4 vezes, para esse público do que para portadores de outras doenças cardíacas em pós-operatório. Entre esse grupo a mortalidade geral, após a cirurgia, é de 36%.

“O estudo reflete que é necessário melhorar o cuidado em saúde do paciente com doença de Chagas de uma forma geral, considerando que a grande maioria dessa população é atendida no Sistema Único de Saúde (SUS)”, destaca Rodrigo Melo Kulchetscki, um dos autores do estudo e doutorando em cardiologia pela Faculdade de Medicina da USP.

A equipe destacou que o acompanhamento rigoroso da insuficiência cardíaca e de outras comorbidades após a alta hospitalar tem grande importância.

Isso indica, para os pesquisadores, que há necessidade de se pensar em procedimentos específicos de acompanhamento para esse grupo. O que aumenta esse risco, porém, não são as próprias arritmias. Ele até pode acontecer, mas sua incidência não é maior do que aquela que aparece para outras doenças cardíacas.

O aumento ocorre pelo que os pesquisadores destacaram como fatores não cardíacos, e tem relação com a complexidade da cirurgia.

A doença de Chagas é uma condição crônica causada por infecção pelo protozoário Trypanosoma cruzi, principalmente pelo contato com fluídos ou fezes do inseto barbeiro, que se alimenta do sangue de mamíferos, inclusive humanos, e é o reservatório natural do parasita. A infecção sobrecarrega órgãos internos, principalmente o coração e os intestinos, e pode causar lesões neles.

Com as lesões, o coração tem risco de funcionar mal, as arritmias graves, que podem ser fatais. A condição pode ser revertida com cirurgias que “queimam” as lesões. Esse processo é a chamada ablação por cateter e também é um procedimento usado para outras doenças cardíacas que levam a lesões no órgão.

Segundo o estudo, as operações para os pacientes com Chagas exigem normalmente o acesso à camada externa do coração, que é mais difícil. Isso se dá em quase 80% dos casos. Numa comparação, portadores de cardiopatia isquêmica, outra doença relevante, precisam desse tipo de intervenção em 15% dos casos. Como a intervenção é mais difícil, aumentam consideravelmente os riscos de complicações durante a operação e de instabilidade clínica, e por isso a mortalidade aumenta.

Os detalhes do estudo, que acompanhou 378 procedimentos cirúrgicos em 288 pacientes, ocorridos no Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) entre 2011 e 2020, foram publicados na revista The Lancet Regional Health – Americas.

Os pesquisadores destacaram ainda que o estudo tem limites relacionados à própria estrutura do hospital: não foi possível realizar um número de acompanhamentos capaz de garantir fidelidade estatística em associações modestas, ou seja, não “enxerga”  situações específicas para esses pacientes; alguns exames, como o mapeamento eletroanatômico, não foram realizados em todos os pacientes, por restrições orçamentárias; não houve  acompanhamento da rotina de medicamentos dos pacientes ao longo da pesquisa, que durou cerca de oito anos para cada paciente. O protocolo de acompanhamento após as cirurgias também variou entre os casos, por fatores além do clínico.

“A retenção no período pós-alta foi alta em todos os grupos; no entanto, a duração do acompanhamento variou, o que reduz a precisão em momentos posteriores e pode subestimar a detecção de eventos tardios, principalmente entre pacientes de regiões remotas que enfrentam barreiras socioeconômicas e logísticas para o cuidado a longo prazo”, pondera o estudo, em tradução livre.

Doença de Chagas ainda atinge milhões

Atualmente, a estimativa é de que 7 milhões de pessoas tenham a doença de Chagas e de que outras 100 milhões residam em áreas de risco. Há de 30 a 40 mil novos casos por ano e menos de 10% dos infectados foram diagnosticados, normalmente aqueles que têm as versões mais agressivas do mal, presente em 21 países da América Latina e, de forma pontual, na América do Norte, Europa, Japão e Austrália.

Guilherme Jeronymo – Repórter da Agência Brasil Publicado em 28/05/2026 – 07:28 São Paulo

Anvisa aprova primeira caneta análoga ao Ozempic para diabetes

Ozivy foi aprovado em teste de eficácia, segurança e qualidade

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou nesta terça-feira (26) o registro do medicamento Ozivy. O produto é a primeira caneta de semaglutida sintética análoga ao produto biológico liberado para comercialização no Brasil.

O composto usa o mesmo princípio ativo do Ozempic, que teve a patente expirada em 20 de março.

O pedido de registro do medicamento, em nome da fabricante EMS/SA, chegou em 2023 e passou pelo processo técnico de comprovação de eficácia, segurança e qualidade feita por meio do registro na Anvisa.

>> Siga o canal da Agência Brasil no WhatsApp

Indicação aprovada

Ozivy poderá ser usado para o tratamento de adultos com diabetes tipo 2, como adjuvante a dieta e exercícios.

O produto será apresentado como solução injetável, em caneta preenchida para uso semanal. A forma de conservação do novo produto é diferente do medicamento originador (Ozempic). Ele deve ficar armazenado em geladeira antes e depois de iniciado o tratamento.

O Ozivy não é um medicamento genérico, pois não há genérico de produtos biológicos conforme regulação brasileira. O composto é classificado como medicamento novo, sendo um análogo sintético de produto biológico.

Próximas etapas

Após o registro na Anvisa, o medicamento pode ser comercializado após a aprovação do preço máximo pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (Cmed). A empresa que detém o registro, porém, é que decide quando o medicamento será colocado à venda.

Para que o produto esteja disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), ele precisa ser avaliado e recomendado pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) e aprovado pelo Ministério da Saúde. Nem todos os medicamentos registrados na Anvisa passam pela avaliação da Conitec ou são incorporados ao SUS.

Agência Brasil Publicado em 26/05/2026 – 11:50 Brasília