A violência interpessoal é um problema de saúde pública multifatorial que abrange uma ampla gama de contextos e manifestações relacionadas, caracterizada por ser contra outra pessoa ou grupo/comunidade. A influência desse tipo de violência na vida de quem a sofre despertou o interesse de pesquisadores do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia), em parceria com a Universidade de Harvard. O estudo realizado pelo grupo indica que o recebimento do Programa Bolsa Família tem poder de mitigar o risco de morte para seus beneficiários que foram vítimas de violência interpessoal. Os resultados foram publicados na PLOS Medicine.
Indivíduos que sofrerem esse tipo de violência após serem inseridos no programa foram os mais beneficiados, com redução para morte de causas naturais. Já foi mostrado em estudos anteriores que esse tipo de violência pode aumentar o risco de suicídio em jovens, principalmente indígenas, assim como outros estudos mostraram que programas de transferência de renda têm sido associados com a queda no risco de suicídio de quem sofreu violência.
Baseado nesses achados anteriores que mostram o risco aumentado para aqueles que sofrem esse tipo de violência, a pesquisa utilizou dados da Coorte dos 100 Milhões de Brasileiros do Cidacs/Fiocruz Bahia, vinculados a dados administrativos de saúde derivados do Sistema de Internação Hospitalar (SIH), Sistema de Notificação de Agravos de Notificação (Sinan) e Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM).
Foram incluídos todos os indivíduos com histórico de violência interpessoal após registro no Cadastro Único (CadÚnico), sistema que permite a integração do cidadão aos programas sociais, durante o período do estudo.
Redução da mortalidade
O Bolsa Família reduziu em 18% a mortalidade geral, em 66% a mortalidade por causas naturais e em 10% as causas não naturais, ainda que esta última não tenha apresentado uma diferença estatisticamente significante. A análise estratificada por sexo mostrou que o programa reduziu a mortalidade principalmente entre as mulheres, incluindo tanto a mortalidade por todas as causas (58%), quanto a mortalidade por causas naturais (39%), enquanto entre os homens, a redução foi observada apenas para causas naturais (31%).
Verificou-se que a associação entre a participação no Programa Bolsa Família e redução da mortalidade, especialmente por causas naturais, entre vítimas de violência interpessoal, destacando que esses programas podem estar associados à redução da pobreza, à melhora dos desfechos em saúde e ao aumento da sobrevida em populações vulneráveis.
A hipótese levantada pelo estudo foi de que a redução da mortalidade poderia ocorrer por meio da melhoria do acesso aos serviços de saúde e da mitigação das respostas fisiológicas ao estresse decorrente da violência, bem como pela facilitação do encaminhamento a outros programas de proteção social, promovendo a inclusão social, melhores condições de vida e melhoria da saúde física e mental, de acordo com a pesquisadora associada do Cidacs/Fiocruz Bahia que liderou estudo, Camila Bonfim.
“Nossos achados revelaram a potencial contribuição que um programa como o Bolsa Família como uma política pública para prevenir consequências negativas à saúde relacionadas à violência interpessoal, em uma população específica com maior vulnerabilidade devido à condição de pobreza e à vitimização por violência”, afirmou Bonfim.
Publicado em 18/06/2026 12:11 Jéssica Guanabara (Cidacs/Fiocruz Bahia)
Uma pesquisa liderada pela Fiocruz, destacada na capa da revista científica internacional ACS Infectious Diseases, aponta caminhos para desenvolver novos fármacos ativos contra o verme Schistosoma mansoni, causador da esquistossomose. Popularmente conhecida como “xistose”, “barriga d’água” ou “doença dos caramujos”, a infecção é considerada uma doença negligenciada e está ligada à falta de saneamento.
A análise de imagens de microscopia do verme ‘Schistosoma mansoni’ foi um dos métodos utilizados para avaliar efeitos de compostos sobre suas formas juvenis (foto: Rudson Amorim, IOC/Fiocruz)
No Brasil, cerca de 1,5 milhão de pessoas vivem em áreas com transmissão da doença, segundo o Ministério da Saúde. No mundo, a população sob risco chega a 700 milhões, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). O estudo liderado pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) investiga a atividade de moléculas derivadas do praziquantel, remédio atualmente indicado no tratamento da esquistossomose.
Em uso há cerca de 40 anos, o praziquantel é eficaz, mas o tamanho grande do tablete e o sabor amargo dificultam sua administração, especialmente para crianças. Além disso, em condições experimentais, cientistas já observaram vermes que desenvolveram resistência ao fármaco, embora casos desse tipo nunca tenham sido identificados a partir de trabalhos de campo de forma a serem considerados um problema de saúde pública.
“É importante buscar alternativas ao praziquantel. Nosso objetivo é chegar a medicamentos que possam ser otimizados do ponto de vista farmacológico, facilitando a administração e garantindo uma opção na eventualidade de resistência”, afirma o chefe do Laboratório de Bioquímica Experimental e Computacional de Fármacos do IOC/Fiocruz e primeiro autor do estudo, Floriano Paes.
Através de ensaios em laboratório e análises computacionais, os cientistas identificaram três moléculas com atividade contra o verme da esquistossomose, em níveis semelhantes ao medicamento de referência. Além disso, a pesquisa revelou uma característica inesperada, relacionada ao mecanismo de ação dos compostos, que pode orientar a criação de novos fármacos.
“Dados de diversos trabalhos indicavam que o praziquantel se liga quase perfeitamente a uma proteína do parasito, que atua como um receptor. Porém, nós observamos que este receptor tem plasticidade, ou seja, ele consegue abrir espaço para ligação com moléculas um pouco diferentes. Isso abre possibilidade de explorar novos caminhos para desenhar compostos que superem deficiências do praziquantel”, explica Floriano.
A pesquisa foi realizada em parceria com Faculdade de Medicina de Wisconsin, nos Estados Unidos; Universidade Aberystwyth, no Reino Unido; e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Desenho racional de fármacos
As oito moléculas testadas no estudo possuem estrutura química semelhante ao praziquantel com pequenas modificações realizadas pelos cientistas. Nos experimentos, três compostos se destacaram por apresentarem atividade contra os diferentes estágios do ciclo de vida do S. mansoni presentes no ser humano: vermes adultos, formas juvenis e larvas (que são chamadas de esquistossômulos).
As oito moléculas testadas no estudo possuem estrutura química semelhante ao praziquantel com pequenas modificações realizadas pelos cientistas (foto: Rudson Amorim, IOC/Fiocruz)
Os testes também demonstraram que estas substâncias atuam de forma semelhante ao medicamento de referência, por meio da ligação à proteína do verme conhecida pela sigla TRPM. Segundo os pesquisadores, as substâncias não se mostraram mais potentes que o praziquantel contra vermes adultos, mas características observadas as tornam interessantes para otimização estrutural.
“Com base nos resultados, podemos propor modificações mais racionais na estrutura desses compostos para atuar na forma como eles se ligam ao receptor, aumentando a afinidade”, declara Floriano, acrescentando que a pesquisa também deve seguir com ensaios experimentais in vivo.
“No modelo de infecção em roedores, queremos investigar como essas moléculas se comportam no organismo em comparação ao praziquantel e verificar se é possível melhorar aspectos farmacológicos”, diz o pesquisador.
Publicado em 11/06/2026 10:26 Maíra Menezes (IOC/Fiocruz)
Com 146 projetos executados, 175 favelas alcançadas em 33 municípios do estado do Rio de Janeiro e 1,1 milhão de pessoas impactadas, o Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro completa seis anos e se fortalece como uma das mais amplas redes de promoção da saúde territorial do país. Criado durante a crise sanitária provocada pela pandemia de Covid-19, em 2020, a iniciativa nasceu de uma parceria entre a Fiocruz e a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) a partir de uma premissa urgente: a defesa da vida nos territórios populares através da articulação, escuta e construção coletiva.
Para 2027, a agenda inclui novos editais, expansão territorial, cursos de formação, um documentário sobre a trajetória do Plano e o lançamento do portfólio das iniciativas apoiadas. Atualmente, o investimento total soma R$ 23,7 milhões, mobilizados via Alerj (R$ 20 milhões), Fiocruz (R$ 3 milhões) e emendas parlamentares federais (R$ 700 mil).
Rede conecta territórios, ciência e poder público
A estrutura do Plano é incomum. Executado pela Fiocruz a partir de decisões conjuntas com pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a iniciativa criou um modelo de governança compartilhada que transforma a lógica tradicional de como se faz saúde pública.
“A Fiocruz se sente muito honrada em fazer parte deste trabalho coletivo. Não haverá saúde plena sem um olhar ampliado que inclua as questões sociais e a superação das desigualdades”, afirma o presidente da Fiocruz, Mario Moreira.
Em seis anos, o Plano distribuiu 10 mil toneladas de alimentos em ações de segurança alimentar, realizou quase 450 visitas técnicas presenciais e cerca de 60 reuniões de coordenação. As iniciativas desenvolvidas nas favelas abarcam saúde mental, educação popular, agroecologia, comunicação comunitária, juventudes e tecnologias sociais.
“É um modelo interinstitucional orientado por princípios de participação social e promoção de saúde coletiva que deve ser ampliado para outros municípios no país”, defende a coordenadora de Relações Institucionais da Presidência da Fiocruz, Zélia Profeta.
Da legislação às favelas
O impacto do Plano se deve, em grande parte, à articulação política e institucional que o sustenta e ao trabalho de quem o opera por dentro: “Mais do que números, o Plano traduz presença, responsabilidade e transformação real na vida das pessoas, reafirmando que a favela produz saúde”, diz representante da Fiotec Brasília, Yonara Silva, responsável pelo monitoramento e prestação de contas dos recursos.
Para o pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Antonio Henrique Neto, a experiência foi também de transformação pessoal: “Pude perceber a potência dos territórios que foi aos poucos me libertando do medo e da angústia. Saúde Comunitária é uma construção de todos — cada vez mais faz parte da minha história de vida”.
A perspectiva é compartilhada pela médica e professora titular da UFRJ, Ligia Bahia: “Saúde nas favelas é um movimento genuíno e potente. Iniciou na pandemia impulsionado por perplexidade e inconformidade com o desprezo perante o adoecimento e as mortes. Segue vibrante, cresceu, adquiriu textura institucional, mas não perdeu um milímetro de compromisso com o direito à saúde e a democracia” define.
Criado no período crítico de uma pandemia, o Plano prova que foi muito mais do que uma resposta emergencial. “Tornou-se uma experiência coletiva única que nutre encontros e aprendizagens mútuas direcionadas para a reprodução de uma vida saudável nas favelas”, resume a professora da UFRJ, Luciana Correa do Lago.
“O Plano demonstra que políticas públicas eficazes nascem da escuta ativa e do vínculo comunitário, consolidando um novo paradigma de saúde enraizado na justiça territorial”, acrescenta o coordenador de Promoção da Saúde da Fiocruz, Valber Frutuoso.
O que vem a seguir
A agenda para o segundo semestre de 2026 e o ano de 2027 combina produção de conhecimento, formação e expansão. Está prevista a sistematização das 146 iniciativas apoiadas em um portfólio público, a produção de um documentário sobre a trajetória do Plano e o lançamento de novos editais em 2027. No campo da formação, cursos de atenção básica e comunicação comunitária vão fortalecer capacidades locais. Um segundo diagnóstico externo avaliará o segundo edital de apoio lançado pelo Plano em 2023, e a expansão territorial levará ações a novos municípios do estado. O fio condutor de tudo é o fortalecimento da Rede 146xFavelas, tornando a cooperação entre territórios cada vez mais robusta.
“O desafio agora é consolidar esse patrimônio coletivo, registrar os aprendizados acumulados e ampliar seu alcance”, afirma o coordenador executivo do Plano, Richarlls Martins. “Queremos que o conhecimento construído nos territórios circule, inspire outras experiências e contribua para a formulação de políticas públicas cada vez mais conectadas à realidade da população das favelas”.
Publicado em 10/06/2026 14:24 Leonardo Sodré (Plano Integrado de Saúde nas Favelas RJ
A Fiocruz recebeu, nesta segunda-feira (8/6), uma delegação alemã com representantes da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha (AHK) e do governo de Berlim, liderada pela senadora de Assuntos Econômicos, Energia e Empresas Públicas e prefeita da cidade, Franziska Giffey. A visita teve como objetivo ampliar a cooperação em saúde nas áreas de pesquisa e inovação, além do desenvolvimento econômico e do fortalecimento de parcerias estratégicas entre Brasil e Alemanha.
Comitiva da Alemanha visita a Fiocruz para ampliar cooperação em saúde (foto: Pedro Linger)
Recebida pelo presidente da Fiocruz, Mário Moreira, a comitiva participou de reunião sobre temas como insumos estratégicos, terapias avançadas, vigilância epidemiológica, mudanças climáticas e seus impactos na saúde pública. Além disso, foram debatidas oportunidades de cooperação científica entre instituições brasileiras e alemãs nos campos da biotecnologia, da saúde global e da bioeconomia.
Giffey destacou o interesse da delegação em conhecer mais profundamente a experiência brasileira em saúde pública, pesquisa e inovação. “Estamos muito interessados nas pesquisas em infectologia e biotecnologia desenvolvidas pela Fiocruz”, afirmou a prefeita. “Queremos saber como vocês enfrentam desafios em saúde que podem ser os nossos também”.
Segundo a dirigente alemã, a visita representa uma oportunidade para ampliar a cooperação entre as instituições dos dois países. “Queremos fortalecer nossas relações e cooperações na pesquisa, no desenvolvimento, na infraestrutura e também na área econômica”, acrescentou ela.
SUS e o papel estratégico da Fiocruz na saúde brasileira
O encontro foi conduzido pela vice-presidente de Saúde Global e Relações Internacionais da Fiocruz, Maria de Lourdes de Oliveira. Também representaram a Fundação o vice-presidente adjunto de Produção e Inovação em Saúde, Marco Nascimento; o vice-presidente adjunto de Saúde Global e Relações Internacionais, Marcello Pelajo; além dos assessores Ramon Lemos Calaça das Neves e Luana Bermudez. A comitiva também foi composta por representantes do Consulado-Geral da Alemanha no Rio de Janeiro, da Charité – Universitätsmedizin Berlin, da IHK Berlin, da Berlin Partner e da AHK Rio.
Durante o encontro, vice-presidente Maria de Lourdes de Oliveira apresentou a estrutura da Fiocruz e seu papel estratégico no fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), destacando a abrangência e o caráter universal da assistência pública no país. “Nós temos muito orgulho do SUS. É um sistema que funciona de forma fantástica e, mesmo com desafios, garante o direito à saúde para todos que estão em território nacional”, afirmou Oliveira.
Ela também ressaltou os desafios relacionados ao financiamento e à sustentabilidade de um sistema público de saúde de grande escala, além das diferenças de acesso entre os setores público e privado. Oliveira ainda abordou o acesso público à medicamentos e como isso se relaciona com os sistemas de patentes. Para finalizar, enfatizou o papel estratégico da Fiocruz no desenvolvimento social e na soberania sanitária nacional, além de sua atuação em diversas estruturas da saúde global.
Coalizão Global
O vice-presidente adjunto Marco Nascimento destacou a importância da Coalizão Global para Produção Local e Regional, Inovação e Acesso Equitativo, iniciativa liderada pelo Ministério da Saúde do Brasil no âmbito do G20, da qual a Fiocruz atua como Secretaria Executiva. “O Brasil oferece sua experiência para ajudar a construir um cenário global de saúde mais equitativo, baseado na cooperação entre os países e no acesso a vacinas, diagnósticos e tratamentos”, afirmou Nascimento.
A Alemanha integra a Coalizão como membro fundador e também participa de seu comitê consultivo, reforçando o potencial de convergência entre os dois países em agendas voltadas à inovação, produção local de tecnologias em saúde e à redução das desigualdades no acesso a produtos e serviços essenciais.
Publicado em 10/06/2026 14:12 Diego Franco (VPSGRI/Fiocruz)
Uma colaboração científica entre a Fiocruz e a Universidade Stanford, na Califórnia, avança para investigar desafios que afetam a saúde de mulheres e recém-nascidos no Brasil e nos Estados Unidos. As duas instituições vão unir esforços para analisar fatores como as elevadas taxas de cesariana, a morbidade materna grave, as desigualdades em saúde e os efeitos dessas condições para mães e bebês.
A parceria foi ampliada durante a visita à universidade americana das pesquisadoras da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) Maria do Carmo Leal, coordenadora do estudo Nascer no Brasil, e Ana Paula Esteves-Pereira, epidemiologista e gestora de dados da segunda edição da pesquisa. “O principal objetivo é promover o intercâmbio de experiências em pesquisa no campo da saúde materna e perinatal e conhecer a experiência bem-sucedida da Califórnia na redução de cesarianas. Entre os resultados esperados estão a troca de conhecimento e o desenvolvimento de investigações conjuntas, além da mobilidade de estudantes entre as duas instituições”, destaca Maria do Carmo. Ela conta que o interesse da universidade americana na colaboração científica surgiu devido à alta frequência de cesarianas no Brasil, o que torna o país um importante campo para o estudo dos efeitos do procedimento em populações obstétricas.
A colaboração científica prevê a análise de dados preliminares da pesquisa Nascer no Brasil 2 e de estudos desenvolvidos pela Stanford. Além do intercâmbio científico e da produção conjunta de conhecimento, a parceria inclui o fortalecimento de redes internacionais voltadas à melhoria da qualidade do cuidado. Também serão realizadas análises comparativas entre Brasil e Estados Unidos, além da elaboração de um plano de cooperação para futuras iniciativas internacionais, incluindo propostas de pesquisa e publicações conjuntas. Segundo Maria do Carmo, ao unir diferentes experiências e contextos, a parceria reafirma o compromisso das instituições com a produção de evidências capazes de subsidiar políticas públicas, reduzir iniquidades e promover resultados mais eficazes para mães e bebês no Brasil e no mundo.
A reunião na Universidade Stanford teve como tema central a cesariana anteparto (cesárea eletiva agendada e realizada antes do início do trabalho de parto), especialmente entre mulheres de baixo risco, e suas repercussões para a morbidade materna grave e os desfechos neonatais. Durante o encontro, também foram analisadas as desigualdades raciais e sociais relacionadas à saúde materna nos dois países, além das diferenças entre os sistemas público e privado de atendimento.
Maria do Carmo destaca que o Brasil tem uma das maiores taxas de cesariana do mundo, muitas delas realizadas antes do início do trabalho de parto. Segundo a pesquisadora, esse cenário também reflete desigualdades sociais e diferenças entre os modelos de atendimento público e privado, além de práticas já consolidadas na assistência ao parto. Por outro lado, os Estados Unidos, que enfrentavam altas taxas de cesariana em determinados contextos, além de fortes desigualdades nos casos de complicações graves relacionadas à saúde materna, conseguiram, principalmente na Califórnia, reduzir esses índices para abaixo de 25%, por meio de políticas públicas.
A pesquisadora também chama atenção para a hemorragia pós-parto, considerada hoje uma das principais preocupações no Brasil: “Estudos mostram que mulheres submetidas à cesariana têm um risco de morte após o parto cerca de três vezes maior do que aquelas que tiveram parto vaginal, principalmente por hemorragias e complicações relacionadas à anestesia”.
Como próximo passo da colaboração científica, Maria do Carmo cita o fortalecimento da parceria com as futuras visitas à Ensp/Fiocruz da enfermeira e PhD em Saúde Pública Marina Magalhães e de Suzan Carmichael, professora de Pediatria, Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina de Stanford. “Posteriormente, eu e Ana Paula iremos novamente à universidade americana. Para que nossa visita fosse concretizada, no período em que estivemos em Stanford desenhamos uma proposta de financiamento e um projeto-semente para o apoio financeiro dessa nova etapa. Ao longo deste ano, estruturaremos um projeto de pesquisa conjunto para o financiamento de uma investigação de maior porte, duração e resultados”, complementa a pesquisadora.
A colaboração científica entre a Ensp/Fiocruz e a Universidade Stanford teve início em 2024, com a realização de reuniões virtuais para discussão de interesses de pesquisa em comum. Em 2025, a professora Suzan Carmichael e a enfermeira Marina Magalhães realizaram visitas à Escola para dar continuidade às discussões. Os encontros resultaram na ida das pesquisadoras Maria do Carmo Leal e Ana Paula Esteves-Pereira à universidade americana para aprofundar a parceria.
Publicado em 09/06/2026 14:16 Danielle Monteiro (Informe Ensp)
Durante décadas, uma das mensagens de saúde pública mais difundidas foi a de que fumar mata. Mas outro hábito cotidiano, muito menos dramático e muito mais aceito socialmente, também pode estar prejudicando nossa saúde: ficar sentado por longos períodos.
Muitas pessoas passam até dez horas por dia sentadas diante da mesa de trabalho, em reuniões ou em frente a telas.
Pode parecer inofensivo — e até inevitável —, mas há cada vez mais evidências sugerindo que passar tempo demais sentado está associado a graves riscos à saúde, como doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e morte prematura.
Frequentemente, recomenda-se que as pessoas protejam sua saúde praticando mais exercícios e melhorando a alimentação. Esse conselho é importante, mas deixa de lado algo fundamental.
Mesmo quem cumpre as metas recomendadas de atividade física pode enfrentar riscos à saúde se passar a maior parte do dia sentado.
Isso acontece porque sedentarismo e inatividade física não são a mesma coisa.
A inatividade física significa não praticar exercícios moderados ou intensos em quantidade suficiente. As diretrizes de saúde pública recomendam pelo menos 150 minutos de atividade moderada por semana, como caminhada em ritmo acelerado ou ciclismo, ou 75 minutos de atividade intensa, como corrida.
Já o sedentarismo se refere a longos períodos sentado ou deitado, com gasto energético muito baixo — seja diante de uma mesa de trabalho, da televisão ou durante um longo trajeto até o trabalho.
O encerramento do curso Desenvolvimento e Produção de Kits Diagnósticos: da Pesquisa à Aplicação na América Latina reuniu cerca de 40 participantes de 18 países latino-americanos na Fiocruz, para uma programação presencial, nos dias 26 e 27 de maio. O programa, que teve início em 2 de março, buscou aproximar profissionais latino-americanos para fortalecer a cooperação Sul-Sul em prol da saúde pública e na preparação para crises sanitárias.
Alunos integraram uma dinâmica de trabalho em grupo voltada para promover o intercâmbio de experiências e identificar oportunidades de fortalecimento das capacidades regionais na pesquisa (Foto: André Rocha)
A iniciativa foi organizada pela Fiocruz, em parceria com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), a Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (Aecid) e a Fundação Estatal Saúde, Infância e Bem-Estar Social (CSAI), do Ministério da Saúde da Espanha. “É tradição na Fiocruz compartilhar conhecimento, a capacidade de formação de profissionais da Fundação vai além do nosso território”, explicou a vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde, Priscila Ferraz, durante uma cerimônia que abriu os trabalhos.
A vice-presidente de Saúde Global e Relações Internacionais, Lourdes Oliveira, destacou a importância geopolítica da iniciativa: “No mundo atual enfrentamos problemas complexos que ultrapassam as fronteiras. É fundamental ampliar a capacidade de produção e inovação local”. A formação foi pensada de maneira a possibilitar outras temáticas no futuro, como lembrou a vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação, Marly Cruz. “Temos um modelo inovador de internacionalização na educação na Fiocruz, procuramos criar processos formativos que respondam às necessidades de saúde global e este curso é um exemplo disso”.
Ao abordar a importância da cooperação internacional, o cônsul-geral da Espanha no Rio de Janeiro, Fernando Fernández-Arias Minuesa, afirmou que iniciativas como o curso contribuem para ampliar a preparação dos países diante de futuras crises sanitárias. Já para a diretora da CSAI, Irene Bernal, o ponto de destaque do projeto foi “o fortalecimento da produção local e, desta maneira, da América Latina”.
Dois dias de troca de experiências
O programa teve a coordenação técnica da pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Marilda Siqueira, e do vice-diretor de Reativos para Diagnóstico do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz), Antonio Gomes Ferreira, que destacou que a produção de produtos de saúde deve ser uma prioridade para os países envolvidos na iniciativa. “Estamos totalmente abertos para estabelecer cooperações em prol da saúde pública no Brasil e na América Latina”, afirmou Ferreira.
No primeiro dia foram realizadas visitas técnicas às unidades de produção de Bio-Manguinhos, à Unidade de Apoio ao Diagnóstico da Fiocruz (Unadig) e ao Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC). Os alunos também puderam conhecer o Castelo Mourisco, símbolo da Fiocruz, além de participar de palestras. “Fico grata pelo aprendizado, queremos implementar algumas tecnologias que conhecemos no curso na Colômbia. Acho importante esse fortalecimento da aliança latino-americana”, disse Alexandra Garcia, do Instituto Nacional de Saúde da Colômbia, uma das participantes da formação.
No último dia do evento, os alunos integraram uma dinâmica de trabalho em grupo voltada para promover o intercâmbio de experiências e identificar oportunidades de fortalecimento das capacidades regionais na pesquisa, desenvolvimento e produção de kits diagnósticos com impacto na saúde pública. Com base nos conteúdos teóricos apresentados ao longo do curso, os participantes foram divididos em grupos para debater três eixos centrais.
O primeiro era denominado Fortalezas e Medidas Estratégicas, voltado para o mapeamento das capacidades instaladas e experiências de sucesso na América Latina e Caribe. O debate abordou a infraestrutura local, o talento humano especializado, marcos regulatórios de qualidade e a necessária articulação entre saúde, ciência, indústria e academia. O segundo eixo abordava os Desafios e Barreiras Críticas, dedicado a analisar os principais gargalos para a inovação e o escalonamento produtivo na região, com ênfase na dependência de insumos importados, sustentabilidade econômica, transferência de tecnologia e acesso a financiamento.
O terceiro foi referente à Cooperação Regional e Alianças Internacionais, focado na construção de mecanismos práticos de colaboração, como a criação de redes regionais de investigação, compras conjuntas, plataformas compartilhadas de validação e o fortalecimento da cooperação Sul-Sul e triangular. Ao final das discussões, cada equipe apresentou suas conclusões e recomendações em uma sessão plenária, consolidando propostas integradas para responder às demandas sanitárias do continente.
Se depender dos alunos, o curso foi apenas o início de muito trabalho, como afirmou Marcelo Rodriguez, da Argentina, um dos mais participativos durante as aulas, de acordo com os organizadores do curso. “Foi uma honra poder participar. A integração na área de diagnósticos, e de uma forma geral para nós, profissionais, é fundamental para o ampliar o acesso à saúde em nossos países”, disse Rodriguez.
O Brasil ainda perde centenas de mulheres por ano durante a gestação ou em um período de 42 dias após o fim da gravidez.
A razão de mortalidade materna no país é de 56,4 a cada 100 mil nascidos vivos, segundo os últimos dados disponíveis, de 2024. Isso significa que, apenas neste ano, foram registrados 1.347 óbitos. A meta do país é chegar a 30 mortes a cada 100 mil nascidos vivos até 2030.
Os dados são do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM-Datasus), consultados no Observatório da Saúde Pública. A maioria dessas mortes, nove em cada dez, é evitável, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas)
O dia 28 de maio é o Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna, data que tem como objetivo reforçar a importância de ações sobre a saúde das mulheres em sua integralidade e de reforçar os direitos da gestante e puérpera.
A chefe da Unidade da Saúde da Mulher da Maternidade Escola Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Maria Isabel Peixoto, reforça que um atendimento de qualidade oferece mais segurança à gestante.
A chefe da Unidade da Saúde da Mulher da Maternidade-Escola UFRJ, Maria Isabel Peixoto, destaca importância do pré-natal bem feito – Foto Tomaz Silva/Agência Brasil
“A gente sabe que com um pré-natal bem feito, de qualidade, de preferência o mais precoce possível para pegar todas as variáveis, conseguimos, na grande maioria das vezes, entregar uma paciente pronta para um parto monitorizado num local com boa assistência e com um desfecho favorável”, diz.
A unidade é referência no atendimento principalmente de casos de alto risco. “Aqui na maternidade a gente consegue fazer um trabalho de boa qualidade para perpetuar o conhecimento e dar boa assistência aos pacientes”, reforça.
As quatro principais causas de morte materna no Brasil, entre as obstétricas diretas, são as síndromes hipertensivas, hemorragias, infecções puerperais e complicações do aborto. As causas obstétricas diretas são responsáveis por 66% das mortes maternas no país.
A técnica de enfermagem Fernanda Lopes de Almeida, 41 anos, é uma das pacientes da maternidade. Grávida de 18 semanas, ela é acompanhada por causa de um quadro de hipertensão e pelo histórico de diabetes gestacional em gravidez anterior.
Fernanda Lopes de Almeida é acompanhada na Maternidade-Escola UFRJ – Foto Tomaz Silva/Agência Brasil
Na maternidade, foi orientada a mudar os hábitos de alimentação, fez exames e faz acompanhamento constante. “Sou muito bem atendida, me sinto segura”, diz. “Foi difícil essa adaptação [da alimentação] e até a conscientização. Agora, acho que estou curtindo bem melhor a gestação, uma fase mais tranquila”.
Equipe múltipla
Além dos médicos, uma equipe de diferentes profissionais é importante para garantir o atendimento adequado às mulheres, defende o enfermeiro obstétrico Renné Costa, membro do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen).
“A gente precisa acreditar muito na multidisciplinaridade das profissões. Cada uma no seu quadrado, cada uma fazendo o seu papel, mas todo mundo centrado nos objetivos que, nesse caso , são a mãe e o bebê”.
Renné Costa diz que tem assistido e participado de muitas experiências positivas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).
Como enfermeiro obstétrico, Renné Costa já fez mais de 5 mil partos desde 2009, a maioria no Hospital Municipal de Viçosa, em Alagoas. Com pouco mais de 26 mil habitantes, Viçosa é referência nessa área para mais nove municípios alagoanos.
Para Renné Costa, formação de enfermeiros contribui para redução da mortandade materna – Foto Renné Costa/Arquivo Pessoal
Quando ele chegou ao Hospital Municipal de Viçosa, eram realizados no local entre 80 e 90 partos por ano. “Depois do meu trabalho lá, a gente passou a fazer 600 partos por ano”. O enfermeiro atribui essa expansão à autonomia dada à enfermagem, ao enfermeiro obstétrico, que pode assistir ao parto de baixo risco amparado pela Lei 7.498 de 1986, a lei do exercício profissional da enfermagem.
Ele defendeu que experiências como essa deveriam ser multiplicadas pelo Brasil. Nos mais de 5 mil partos que realizou, Renné Costa não perdeu nenhuma criança e nenhuma mulher.
Acompanhamento após o parto
A médica Inessa Bonomi lembra que a fase pós-parto, chamada puerpério, é muito importante na questão da mortalidade materna – Foto PlayP/Divulgação
A ginecologista e obstetra Inessa Beraldo de Andrade Bonomi, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Gestação de Alto Risco da Federação Brasileira das Associaçaões de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), ressalta que o acompanhamento após o parto é também chave para a redução da mortalidade materna.
“A mulher vai para casa e, muitas vezes, ela acaba sendo menos olhada pelos serviços da rede de saúde e também pela família”, diz.
O olhar um pouco menos atento para essa mãe pode fazer com que sinais de risco sejam percebidos tardiamente. Essas complicações que surgem no período do puerpério muitas vezes se agravam, se complicam.
A ginecologista e obstetra assegura que os sinais de alerta no pós-parto, no puerpério, não podem ser naturalizados. Entre esses sinais estão sangramento vaginal além do habitual, febre, falta de ar, dor no peito, dor de cabeça intensa e que não passa com o uso de analgésico, alteração visual (escotomas ou pontinhos de luz que a paciente passa a enxergar), pressão que permanece alta e se mantém com picos hipertensivos.
A recomendação da especialista é que essas pacientes voltem mais precocemente para a consulta puerperal. Nos primeiros sete dias e, no máximo, dez, elas devem retornar ao centro de saúde ou ao consultório do ginecologista e obstetra para que sejam avaliadas e se consiga fazer um acompanhamento das condições clínicas pré-existentes que elas têm.
A Febrasgo ressalta que um ponto que não pode ficar fora do acompanhamento puerperal é a saúde mental. O sofrimento psíquico no pós-parto pode se manifestar de várias formas: com tristeza intensa, ansiedade, insônia, medo de cuidar do bebê, sensação de incapacidade, exaustão extrema e dificuldade de vínculo com o recém-nascido.
Em casos mais graves, podem surgir ideias de autoagressão, risco de violência contra si mesma ou contra o bebê e sintomas psicóticos, situações que exigem atenção imediata. Segundo Inessa Bonomi, olhar para a saúde mental é essencial para prevenir desfechos graves no puerpério.
Rede Alyne
No âmbito federal, em 2024, o governo federal lançou programa para reduzir a mortalidade materna em 25% até 2027. Em relação a mulheres pretas, a intenção é reduzir a mortalidade em 50% no mesmo período. Chamado de Rede Alyne, a iniciativa é uma reestruturação da antiga Rede Cegonha, de cuidados a gestantes e bebês na rede pública.
A iniciativa homenageia a jovem negra Alyne Pimentel, que morreu aos 28 anos, grávida de seis meses, por falta de atendimento adequado na rede pública de saúde do município de Belford Roxo (RJ), em 2002. Alyne também era mãe de uma criança de 5 anos.
Alyne Pimentel morreu aos 28 anos, grávida de seis meses, por negligência médica – Foto Reprodução/Centro Brasileiro de Estudos da Saúde
A meta da Rede Alyne é beneficiar mulheres com cuidado humanizado e integral, observando as desigualdades étnico-raciais e regionais
Mariana Tokarnia, Alana Gandra e Tâmara Freire Publicado em 28/05/2026 – 08:13 Rio de Janeiro
Informações estão em relatório publicado nesta quarta-feira
Doenças não transmissíveis (DNTs) estão remodelando sociedades. Doenças cardíacas, câncer, diabetes e doenças pulmonares crônicas afetam atualmente milhões de pessoas a mais do que na geração anterior e a tendência é que esse cenário continue a piorar.
As informações integram relatório publicado nesta quarta-feira (15) pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O documento alerta que, na atual geração, mais pessoas vivem mais tempo, mas frequentemente o fazem com múltiplas doenças crônicas.
“As DNTs encurtam vidas, afetam a qualidade de vida das pessoas e reduzem sua capacidade de trabalho. Isso aumenta os gastos com saúde e reduz a produtividade dos trabalhadores e o retorno econômico”, destacou o documento.
“No entanto, muitos desses impactos são evitáveis, por meio de ações sobre os fatores de risco à saúde, diagnóstico precoce de doenças e tratamento aprimorado”, completou a OCDE.
A análise mostra que a prevenção de doenças traz benefícios sociais e econômicos muito maiores do que o tratamento tardio e que países que conseguem reduzir as taxas de condições que figuram como principais riscos à saúde, como obesidade e tabagismo, podem não apenas salvar vidas, mas aliviar a pressão sobre os orçamentos da saúde.
O relatório ressalta que, apesar de décadas de esforços, as DNTs continuam a aumentar. Entre 1990 e 2023, a prevalência de câncer e de doença pulmonar obstrutiva crônica aumentou 36% e 49%, respectivamente, enquanto a prevalência de doenças cardiovasculares aumentou mais de 27%.
Os dados mostram ainda que, em 2023, uma em cada dez pessoas que viviam em países-membros da OCDE tinha diabetes e uma em cada oito vivia com doença cardiovascular.
Para a OCDE, existem três razões principais para o aumento contínuo da prevalência de DCNTs no mundo:
– Embora tenha havido progresso na redução de certos fatores de risco, como poluição do ar, tabagismo, consumo nocivo de álcool e inatividade física, esse progresso foi prejudicado pelo aumento acentuado da obesidade.
– A melhoria nas taxas de sobrevivência, um inegável sucesso em saúde pública, significa que mais pessoas vivem por períodos mais longos com doenças crônicas, aumentando a demanda por cuidados e a complexidade dos serviços.
– O envelhecimento populacional significa que mais pessoas estão atingindo as faixas etárias em que as DCNTs são mais comuns.
“Mesmo que a prevalência dos fatores de risco, as taxas de sobrevivência e o tamanho da população permaneçam constantes, o número de novos casos de DCNT deverá crescer 31% na OCDE entre 2026 e 2050, apenas devido ao envelhecimento populacional”, alertou relatório.
“Prevê-se que a prevalência de multimorbidade [combinação de doenças crônicas ou agudas] aumente 75% na OCDE (70% na União Europeia) e que a despesa anual per capita com saúde relacionada com doenças não transmissíveis cresça mais de 50% na OCDE”, concluiu a organização.
Paula Laboissière – Repórter da Agência Brasil Publicado em 15/04/2026 – 13:19 Brasília
O Ministério da Saúde anunciou R$ 12 milhões para o fortalecimento de ações de vigilância e controle da doença de Chagas em 17 estados brasileiros. Em nota, a pasta informou que o recurso fortalece a capacidade de atuação contínua em 155 municípios considerados prioritários, apoiando ações essenciais como captura e monitoramento de vetores, vigilância e resposta rápida a focos.
No comunicado, o ministério destaca que Anápolis (GO) e Goiânia foram reconhecidos com selo bronze de boas práticas para eliminação da transmissão vertical da doença de Chagas e que a enfermidade ainda representa um desafio importante para a saúde pública, sobretudo em áreas com maior vulnerabilidade social e com a presença de vetores.
“Estamos direcionando recursos com base em critérios técnicos, o que permite maior efetividade das ações e impacto direto na redução da transmissão. Nosso compromisso é ampliar o diagnóstico, garantir o tratamento oportuno e avançar de forma consistente na eliminação da doença como problema de saúde pública no Brasil”, informou a secretária de Vigilância em Saúde e Meio Ambiente da pasta, Mariângela Simão.
Seleção
De acordo com o ministério, a seleção de municípios foi baseada em critérios técnicos que consideram a interação dos insetos vetores com o ambiente e a vulnerabilidade social, com prioridade para cidades classificadas como de risco muito alto em índice composto (presença de vetores e condições socioambientais) e localidades com registro recente do vetor.
Também foram considerados municípios com alta prioridade e muito alta prioridade para a forma crônica da doença de Chagas, concentrados principalmente nas Regiões Nordeste e Sudeste.
Pesquisa
A pasta anunciou ainda, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a fase 2 do projeto Selênio como tratamento na cardiopatia crônica da doença de Chagas, que busca avaliar a eficácia e a segurança do mineral como estratégia terapêutica complementar para pacientes com cardiopatia chagásica crônica. Serão investidos, ao todo, R$ 8,6 milhões.
A expectativa do governo federal é que a pesquisa gere evidências científicas mais robustas e representativas em diferentes perfis de pacientes.
“Os resultados poderão subsidiar a avaliação de tecnologias à base de selênio — substância com ação antioxidante e anti-inflamatória — para proteção cardiovascular, além de apoiar sua possível incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS)”, avaliou o ministério.
Números
O cenário epidemiológico da doença de Chagas no Brasil reforça a urgência de medidas de enfrentamento. Em 2024, foram registrados 3.750 óbitos, com maior concentração no Sudeste. No mesmo período, houve 520 casos agudos, principalmente no Norte, com destaque para o Pará.
Já em 2025, dados preliminares indicam 627 casos agudos (97% no Norte) e 8.106 casos crônicos, concentrados em Minas Gerais, na Bahia e em Goiás, evidenciando a persistência da doença em áreas endêmicas.
Entenda
A doença de Chagas é uma infecção causada por um parasita chamado Trypanosoma cruzi e que pode evoluir em duas fases:
– Fase aguda: acontece logo após a infecção. A pessoa pode apresentar sintomas ou não.
– Fase crônica: pode surgir anos depois. Em muitos casos, a pessoa não apresenta sintomas, mas a doença pode causar problemas no coração e no sistema digestivo.
Os triatomíneos são insetos conhecidos como barbeiro, chupão, procotó ou bicudo. Eles passam pelas fases de ovo, ninfa e adultos. Tanto as ninfas quanto os adultos se alimentam de sangue e, quando estão infectados, podem transmitir o parasita da doença de Chagas.
A transmissão pode acontecer de diversas formas:
– Vetorial: quando as fezes do barbeiro infectado entram em contato com feridas na pele ou mucosas após a picada.
– Oral: pela ingestão de alimentos ou bebidas contaminadas com o parasita.
– Vertical (congênita): da mãe infectada para o bebê durante a gravidez ou o parto.
– Transfusão ou transplante: por sangue ou órgãos de doadores infectados.
– Acidental: contato com material contaminado, geralmente em laboratórios ou durante a manipulação de animais silvestres.
Na fase aguda, os sintomas mais comuns são:
– febre por mais de sete dias e dor de cabeça;
– fraqueza intensa, inchaço no rosto e nas pernas;
– ferida parecida com furúnculo no local da entrada do parasita (em casos de transmissão pelo barbeiro).
Já na fase crônica, logo de início, a pessoa pode não sentir nada. Com o tempo, podem surgir:
– problemas no coração, incluindo insuficiência cardíaca;
– problemas digestivos, como aumento do intestino (megacólon);
– aumento do esôfago (megaesôfago).
A prevenção da doença de Chagas, de acordo com o ministério, está diretamente ligada à forma de transmissão. Uma medida importante é evitar a presença de barbeiros nas casas, com ações feitas pelas equipes de saúde. Também é recomendado:
– Usar telas em portas e janelas ou mosquiteiros.
– Utilizar repelentes e roupas de manga longa, principalmente à noite e em áreas de mata.
Para evitar a transmissão pelos alimentos, a orientação é:
– Lavar bem frutas, verduras e legumes com água potável.
– Observar os alimentos antes de triturar ou bater.
– Manter o local de preparo limpo e protegido.
– Guardar alimentos em recipientes fechados.
– Realizar orientações e treinamentos para quem manipula alimentos.
Paula Laboissière – Repórter da Agência Brasil Publicado em 15/04/2026 – 10:37 Brasília