Arquivo da tag: Rio de Janerio

Plano Integrado de Saúde nas Favelas do RJ impacta 1,1 milhão de pessoas

Com 146 projetos executados, 175 favelas alcançadas em 33 municípios do estado do Rio de Janeiro e 1,1 milhão de pessoas impactadas, o Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro completa seis anos e se fortalece como uma das mais amplas redes de promoção da saúde territorial do país. Criado durante a crise sanitária provocada pela pandemia de Covid-19, em 2020, a iniciativa nasceu de uma parceria entre a Fiocruz e a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) a partir de uma premissa urgente: a defesa da vida nos territórios populares através da articulação, escuta e construção coletiva.

Para 2027, a agenda inclui novos editais, expansão territorial, cursos de formação, um documentário sobre a trajetória do Plano e o lançamento do portfólio das iniciativas apoiadas. Atualmente, o investimento total soma R$ 23,7 milhões, mobilizados via Alerj (R$ 20 milhões), Fiocruz (R$ 3 milhões) e emendas parlamentares federais (R$ 700 mil).

Rede conecta territórios, ciência e poder público

A estrutura do Plano é incomum. Executado pela Fiocruz a partir de decisões conjuntas com pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a iniciativa criou um modelo de governança compartilhada que transforma a lógica tradicional de como se faz saúde pública. 

“A Fiocruz se sente muito honrada em fazer parte deste trabalho coletivo. Não haverá saúde plena sem um olhar ampliado que inclua as questões sociais e a superação das desigualdades”, afirma o presidente da Fiocruz, Mario Moreira.

Em seis anos, o Plano distribuiu 10 mil toneladas de alimentos em ações de segurança alimentar, realizou quase 450 visitas técnicas presenciais e cerca de 60 reuniões de coordenação. As iniciativas desenvolvidas nas favelas abarcam saúde mental, educação popular, agroecologia, comunicação comunitária, juventudes e tecnologias sociais. 

“É um modelo interinstitucional orientado por princípios de participação social e promoção de saúde coletiva que deve ser ampliado para outros municípios no país”, defende a coordenadora de Relações Institucionais da Presidência da Fiocruz, Zélia Profeta.

Da legislação às favelas

O impacto do Plano se deve, em grande parte, à articulação política e institucional que o sustenta e ao trabalho de quem o opera por dentro: “Mais do que números, o Plano traduz presença, responsabilidade e transformação real na vida das pessoas, reafirmando que a favela produz saúde”, diz representante da Fiotec Brasília, Yonara Silva, responsável pelo monitoramento e prestação de contas dos recursos.

Para o pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Antonio Henrique Neto, a experiência foi também de transformação pessoal: “Pude perceber a potência dos territórios que foi aos poucos me libertando do medo e da angústia. Saúde Comunitária é uma construção de todos — cada vez mais faz parte da minha história de vida”.

A perspectiva é compartilhada pela médica e professora titular da UFRJ, Ligia Bahia: “Saúde nas favelas é um movimento genuíno e potente. Iniciou na pandemia impulsionado por perplexidade e inconformidade com o desprezo perante o adoecimento e as mortes. Segue vibrante, cresceu, adquiriu textura institucional, mas não perdeu um milímetro de compromisso com o direito à saúde e a democracia” define. 

Criado no período crítico de uma pandemia, o Plano prova que foi muito mais do que uma resposta emergencial. “Tornou-se uma experiência coletiva única que nutre encontros e aprendizagens mútuas direcionadas para a reprodução de uma vida saudável nas favelas”, resume a professora da UFRJ, Luciana Correa do Lago. 

“O Plano demonstra que políticas públicas eficazes nascem da escuta ativa e do vínculo comunitário, consolidando um novo paradigma de saúde enraizado na justiça territorial”, acrescenta o coordenador de Promoção da Saúde da Fiocruz, Valber Frutuoso.

O que vem a seguir

A agenda para o segundo semestre de 2026 e o ano de 2027 combina produção de conhecimento, formação e expansão. Está prevista a sistematização das 146 iniciativas apoiadas em um portfólio público, a produção de um documentário sobre a trajetória do Plano e o lançamento de novos editais em 2027. No campo da formação, cursos de atenção básica e comunicação comunitária vão fortalecer capacidades locais. Um segundo diagnóstico externo avaliará o segundo edital de apoio lançado pelo Plano em 2023, e a expansão territorial levará ações a novos municípios do estado. O fio condutor de tudo é o fortalecimento da Rede 146xFavelas, tornando a cooperação entre territórios cada vez mais robusta.

“O desafio agora é consolidar esse patrimônio coletivo, registrar os aprendizados acumulados e ampliar seu alcance”, afirma o coordenador executivo do Plano, Richarlls Martins. “Queremos que o conhecimento construído nos territórios circule, inspire outras experiências e contribua para a formulação de políticas públicas cada vez mais conectadas à realidade da população das favelas”.

Publicado em 10/06/2026 14:24 Leonardo Sodré (Plano Integrado de Saúde nas Favelas RJ

Fiocruz recebe delegação da Alemanha para ampliar cooperação em saúde

A Fiocruz recebeu, nesta segunda-feira (8/6), uma delegação alemã com representantes da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha (AHK) e do governo de Berlim, liderada pela senadora de Assuntos Econômicos, Energia e Empresas Públicas e prefeita da cidade, Franziska Giffey. A visita teve como objetivo ampliar a cooperação em saúde nas áreas de pesquisa e inovação, além do desenvolvimento econômico e do fortalecimento de parcerias estratégicas entre Brasil e Alemanha.

Comitiva da Alemanha visita a Fiocruz para ampliar cooperação em saúde (foto: Pedro Linger)

Recebida pelo presidente da Fiocruz, Mário Moreira, a comitiva participou de reunião sobre temas como insumos estratégicos, terapias avançadas, vigilância epidemiológica, mudanças climáticas e seus impactos na saúde pública. Além disso, foram debatidas oportunidades de cooperação científica entre instituições brasileiras e alemãs nos campos da biotecnologia, da saúde global e da bioeconomia. 

Giffey destacou o interesse da delegação em conhecer mais profundamente a experiência brasileira em saúde pública, pesquisa e inovação. “Estamos muito interessados nas pesquisas em infectologia e biotecnologia desenvolvidas pela Fiocruz”, afirmou a prefeita. “Queremos saber como vocês enfrentam desafios em saúde que podem ser os nossos também”. 

Segundo a dirigente alemã, a visita representa uma oportunidade para ampliar a cooperação entre as instituições dos dois países. “Queremos fortalecer nossas relações e cooperações na pesquisa, no desenvolvimento, na infraestrutura e também na área econômica”, acrescentou ela.

SUS e o papel estratégico da Fiocruz na saúde brasileira

O encontro foi conduzido pela vice-presidente de Saúde Global e Relações Internacionais da Fiocruz, Maria de Lourdes de Oliveira. Também representaram a Fundação o vice-presidente adjunto de Produção e Inovação em Saúde, Marco Nascimento; o vice-presidente adjunto de Saúde Global e Relações Internacionais, Marcello Pelajo; além dos assessores Ramon Lemos Calaça das Neves e Luana Bermudez. A comitiva também foi composta  por representantes do Consulado-Geral da Alemanha no Rio de Janeiro, da Charité – Universitätsmedizin Berlin, da IHK Berlin, da Berlin Partner e da AHK Rio.

Durante o encontro, vice-presidente Maria de Lourdes de Oliveira apresentou a estrutura da Fiocruz e seu papel estratégico no fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), destacando a abrangência e o caráter universal da assistência pública no país. “Nós temos muito orgulho do SUS. É um sistema que funciona de forma fantástica e, mesmo com desafios, garante o direito à saúde para todos que estão em território nacional”, afirmou Oliveira.

Ela também ressaltou os desafios relacionados ao financiamento e à sustentabilidade de um sistema público de saúde de grande escala, além das diferenças de acesso entre os setores público e privado. Oliveira ainda abordou o acesso público à medicamentos e como isso se relaciona com os sistemas de patentes. Para finalizar, enfatizou o papel estratégico da Fiocruz no desenvolvimento social e na soberania sanitária nacional, além de sua atuação em diversas estruturas da saúde global.

Coalizão Global

O vice-presidente adjunto Marco Nascimento destacou a importância da Coalizão Global para Produção Local e Regional, Inovação e Acesso Equitativo, iniciativa liderada pelo Ministério da Saúde do Brasil no âmbito do G20, da qual a Fiocruz atua como Secretaria Executiva. “O Brasil oferece sua experiência para ajudar a construir um cenário global de saúde mais equitativo, baseado na cooperação entre os países e no acesso a vacinas, diagnósticos e tratamentos”, afirmou Nascimento.

A Alemanha integra a Coalizão como membro fundador e também participa de seu comitê consultivo, reforçando o potencial de convergência entre os dois países em agendas voltadas à inovação, produção local de tecnologias em saúde e à redução das desigualdades no acesso a produtos e serviços essenciais.

Publicado em 10/06/2026 14:12 Diego Franco (VPSGRI/Fiocruz)

Sarampo: infectologista alerta para vacinação em viagens para a Copa

Países-sede do Mundial respondem por 70% dos casos nas Américas

O aumento do número de casos de sarampo registrado nos Estados Unidos, México e Canadá – que sediarão jogos da Copa do Mundo 2026 – acende o alerta para a necessidade de vacinação dos turistas brasileiros que viajarão a esses países. Juntos, os três respondem por 70% dos casos nas Américas.

A observação foi feita nesta terça-feira (9) à Agência Brasil pela infectologista Natalie Del Vecchio, do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira, da Fundação Oswaldo Cruz (IFF/Fiocruz).

“O sarampo é uma doença altamente contagiosa”, disse. Isso significa que uma pessoa com o vírus consegue transmiti-lo para muitas outras simultaneamente. “E a gente tem visto a baixa cobertura vacinal nesses países e também no Brasil”, observou Natalie Del Vecchio.

Expansão

No ano passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou para a expansão dos casos, quando o Canadá registrou 5.062 ocorrências, o que levou à perda da certificação de país livre da doença. Em 2026, foram confirmados 124 casos no território canadense.

O México elevou o número de sete casos, notificados em 2024, para 6.152 registros em 2025. Somente em janeiro deste ano, foram 1.190 casos, de acordo com informações preliminares. Nos Estados Unidos, por sua vez, ocorreram 2.144 casos em 2025 e 721 em janeiro de 2026.

Segundo a infectologista do IFF/Fiocruz, o perigo é maior para os brasileiros que viajam para esses países sem estarem com o esquema vacinal contra sarampo completo. A vacinação pode evitar a eventual reintrodução do vírus no Brasil.

Natalie lembrou que, em novembro de 2024, o Brasil recebeu da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) a recertificação de país livre do sarampo. O documento foi entregue ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e à então ministra da Saúde, Nísia Trindade. Em 2016, o Brasil já havia alcançado essa posição de nação livre da circulação endêmica do sarampo mas, em 2018, as baixas coberturas vacinais permitiram a reintrodução do vírus no país.

Risco

“A baixa cobertura vacinal é um risco para o nosso país de reintrodução do vírus no Brasil”, afirmou a infectologista. Em 2025, foram notificados 38 casos no país, todos importados de nações vizinhas. Em janeiro de 2026, foram registrados dois casos de sarampo, de uma mulher de 22 anos. no Rio de Janeiro, e de um bebê de 6 meses, em São Paulo. Os dois não tinham registro de vacinação.

Natalie Del Vecchio recomenda que mesmo as pessoas que não vão viajar para os países-sede da Copa do Mundo devem procurar completar o calendário vacinal. Para aquelas acima de 1 ano de idade até 30 anos, são necessárias duas doses da vacina contra sarampo e, de 30 a 60 anos, uma dose.

“Se a pessoa já tem o calendário dela completo, não precisa tomar uma dose extra da vacina. Se o calendário não estiver completo, os viajantes que se destinam aos países-sede da Copa devem completar o esquema vacinal. Essas pessoas viajarão com tranquilidade, exatamente para não estarem adquirindo o vírus do sarampo, nem trazendo para o nosso país. Para, exatamente, evitar um novo surto e novos casos do sarampo no Brasil”, afirmou a infectologista.

Reforço

O Ministério da Saúde lançou campanha nacional orientando brasileiros que viajarão aos Estados Unidos, México e Canadá para a Copa do Mundo a reforçar a vacinação contra o sarampo. Para crianças de 6 a 11 meses, a recomendação é que tomem a dose zero pelo menos 15 dias antes da viagem. Na faixa de 12 meses a 29 anos, é necessário ter duas doses.

Os adultos de 30 a 59 anos devem ter recebido pelo menos uma dose ao longo da vida. Outra recomendação é que a aplicação da vacina Tríplice Viral (que também protege contra caxumba e rubéola) deve ocorrer pelo menos 15 dias antes da viagem. As doses estão disponíveis gratuitamente nas unidades de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS).

Gravidade

O sarampo é uma doença grave que pode deixar sequelas por toda a vida e até causar a morte. As principais complicações variam de acordo com as fases da vida do paciente. Para crianças, pode causar pneumonia, infecções de ouvido, encefalite aguda (inflamação no encéfalo – parte do sistema nervoso dentro do crânio) e morte. Em adultos, causa pneumonia. E, em gestantes, pode resultar em parto prematuro e bebê com baixo peso.

Altamente contagiosa, a doença se espalha pela tosse, fala ou respiração. Uma pessoa infectada pode contaminar outras antes mesmo de saber que está doente. Os sintomas mais comuns são febre alta, tosse persistente, coriza, irritação nos olhos, e manchas vermelhas que começam no rosto e depois no corpo. Os sintomas costumam aparecer entre sete e 14 dias após o contato com o vírus

Alana Gandra – Repórter da Agência Brasil Publicado em 09/06/2026 – 14:02 Rio de Janeiro

Fiocruz lança série sobre sistemas de saúde na AL e expõe desafios estruturais do SUS

Está no ar a série Sistemas de saúde na América Latina e os desafios do SUS. O conteúdo reúne seis vídeos voltados à divulgação científica de resultados de estudos. Com a participação de pesquisadores e estudantes da Fiocruz e em parceria com instituições de outros países da América Latina, as pesquisas contaram com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).

O primeiro, segundo e terceiro vídeos têm enfoque internacional na região da América Latina, abordando as características histórico-estruturais dos sistemas de saúde, as reformas, as relações público-privadas e os desafios pós-pandemia de Covid-19. O restante do material foca nos desafios do Sistema Único de Saúde, com ênfase na Atenção Primária à Saúde, no financiamento e na regionalização no Brasil e no Estado do Rio de Janeiro. Os resultados foram apresentados em linguagem acessível, com o objetivo de alcançar um público mais amplo para além dos especialistas, incluindo pesquisadores, estudantes de graduação e pós-graduação, gestores de políticas públicas, profissionais da área e demais interessados no tema.

As pesquisas incluem estudos comparativos entre o Brasil e outros países da América Latina, como Argentina, Chile, Colômbia e México. “Apesar das diferenças entre seus sistemas de saúde, esses países apresentam desafios semelhantes em relação a problemas estruturais que precisam enfrentar para fortalecer seus sistemas públicos, como o financiamento insuficiente, o caráter das relações público-privadas em saúde, a dependência tecnológica, entre outros. Em alguns deles, a segmentação e fragmentação do sistema de saúde também é elevada. O enfrentamento desses desafios é fundamental para expandir o acesso, reduzir desigualdades e garantir o direito à saúde”, explica a pesquisadora Cristiani Machado, uma das coordenadoras da série.

Além dos estudos internacionais comparativos, o grupo de pesquisa também busca explorar a diversidade político-territorial na implementação das políticas de saúde, assim como as desigualdades que se apresentam no sistema de saúde nos próprios países. “No caso do Brasil, por exemplo, a questão federativa é de grande importância, havendo diferenças entre estados e municípios que precisam ser exploradas. Nesse sentido, alguns resultados relativos a estudos realizados no estado do Rio de Janeiro são apresentados, tais como as repercussões das mudanças nas regras de alocação de recursos federais no modelo de atenção primária à saúde, as desigualdades regionais e os desafios da gestão do SUS em contextos metropolitanos”, afirma Luciana Dias.

As pesquisadoras destacam ainda que a realização de estudos em múltiplas escalas é fundamental para entender a complexidade das transformações no campo da saúde, suas repercussões e os desafios contemporâneos dos sistemas de saúde.

Os resultados da pesquisa também foram apresentados no seminário internacional Desafios para os sistemas de saúde na América Latina pós-pandemia. Realizado na Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) no ano passado, o encontro abordou temas como os desafios dos sistemas de saúde latino-americanos, as relações público-privadas e o enfrentamento das desigualdades na região. A atividade reuniu convidados nacionais e internacionais, além de pesquisadores e estudantes envolvidos no projeto. Aberto ao público, o seminário contou com cerca de 80 participantes presenciais e mais de 200 na modalidade virtual. Os vídeos do evento somam centenas de visualizações.

Os vídeos são o resultado de estudos desenvolvidos pelo grupo Estado, Proteção Social e Políticas de Saúde, coordenado pelas pesquisadoras Luciana Dias e Cristiani Machado, ambas da Ensp/Fiocruz. A série tem apoio da VideoSaúde.

Assista à série

Série Sistemas de Saúde na América Latina e Desafios do SUS – com legendas em português e janela de libras

Série Sistemas de Saúde na América Latina e Desafios do SUS – com legendas em espanhol

Série Sistemas de Saúde na América Latina e Desafios do SUS – com audiodescrição

Publicado em 02/04/2026 13:52 Danielle Monteiro (Informe Ensp)

Encontro debate eliminação do mercúrio e fortalecimento da saúde ambiental

O evento Futuro sem Mercúrio: Parcerias Globais para a Saúde Ambiental, realizado esta semana no Rio de Janeiro, reuniu representantes da Pure Earth, da Fiocruz e do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), além de gestores públicos, pesquisadores e organizações internacionais. A atividade ocorreu no contexto do Fórum de Líderes Locais, que antecede a COP30, com início na próxima semana em Belém. O encontro promoveu um diálogo sobre os desafios e oportunidades para a eliminação do mercúrio, destacando os impactos da poluição química na saúde humana e nos ecossistemas, contribuindo para os avanços na implementação da Convenção de Minamata, que completa oito anos. As discussões enfatizaram a importância da cooperação entre ciência, políticas públicas e comunidades para reduzir a exposição a contaminantes e proteger populações vulnerabilizadas.

O debate sobre o mercúrio reafirma o papel do Brasil na busca de soluções para a tripla crise planetária e evidencia a importância de alianças entre ciência, Estado e sociedade (Foto: VPAAPS/Fiocruz)

A assessora de Saúde e Ambiente da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS/Fiocruz), Juliana Rulli Villardi, destacou que o enfrentamento à contaminação por mercúrio é uma agenda da saúde global e da justiça ambiental, que ultrapassa o campo técnico e ambiental e se inscreve como questão de direitos humanos e soberania sanitária. “O mercúrio atravessa fronteiras e atinge corpos, ecossistemas e culturas. Seus efeitos recaem principalmente sobre povos indígenas, ribeirinhos, trabalhadores da mineração e populações do campo, das florestas e das águas”, afirmou. Segundo ela, enfrentar o problema requer cooperação institucional, inovação e investimento contínuo.

Juliana ressaltou o papel estratégico da Fiocruz na integração entre ciência, políticas públicas e ação territorial em defesa da vida. Mencionou o Grupo de Trabalho Mercúrio e Saúde como ação institucional estratégica, que articula pesquisadores de diferentes unidades da Fiocruz, na construção de uma agenda de pesquisa cooperada voltada à proteção das populações expostas. Destacou ainda o Centro de Síntese em Saúde para Mudança do Clima, Biodiversidade e Poluição e a criação do Centro de Clima e Saúde em Rondônia como espaços de oportunidade para a articulação e fortalecimento dessa agenda, reforçando a presença e o compromisso da Fiocruz na Amazônia.

O chefe de Gabinete da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima do Rio de Janeiro, Filipe Lopes, ressaltou a importância de incorporar o tema à agenda da cidade e aproximá-lo do cotidiano da população. “As pessoas compreendem melhor o impacto de uma enchente do que o de um contaminante invisível como o mercúrio. É fundamental traduzir esse problema em políticas públicas locais”, afirmou.

O cientista de dados Gabriel Vieira, do Centro de Inteligência Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde, destacou que a integração entre vigilância e dados ambientais é essencial para prevenir agravos e orientar políticas baseadas em evidências. O Centro, pioneiro na América Latina, analisa informações sobre poluição do ar e eventos de calor e pretende incluir o monitoramento de metais pesados em suas análises epidemiológicas.

A experiência internacional foi apresentada pelo diretor de programa da Pure Earth no Peru, Rodrigo Velarde, que relatou iniciativas de vigilância sanitária e atenção a pessoas intoxicadas por mercúrio, além de projetos com mulheres mineradoras formais que adotaram tecnologias livres do metal. Segundo ele, as experiências mostram que é possível reduzir a exposição e manter a produção de forma segura, com apoio técnico e presença do Estado.

Em nome do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Adalberto Maluf Filho destacou que o Brasil vive um momento decisivo no avanço das políticas relacionadas à Convenção de Minamata. Entre os desafios, citou a necessidade de implementação de protocolos clínicos para populações contaminadas, rastreabilidade da cadeia do ouro, destinação segura do mercúrio apreendido e ampliação do inventário nacional de emissões. O secretário enfatizou também a importância da atuação conjunta entre o MMA, o Ministério da Saúde e a Funai na proteção de povos indígenas e comunidades amazônicas.

As falas convergiram em torno da urgência de fortalecer políticas integradas de saúde e ambiente, capazes de transformar evidências científicas em ações públicas. O Plano de Ação Nacional sobre o Mercúrio, em fase de elaboração pelo governo brasileiro, foi apontado como um marco importante nesse processo e será apresentado na Sexta Conferência das Partes da Convenção de Minamata (COP6), de 3 a 7 de novembro, em Genebra (Suíça).

A discussão também dialoga com a agenda climática que ganha força com a realização da COP30, na próxima semana, em Belém. Ao conectar os temas de clima, poluição e biodiversidade, o debate sobre o mercúrio reafirma o papel do Brasil na busca de soluções para a tripla crise planetária e evidencia a importância de alianças entre ciência, Estado e sociedade.

Publicado em 07/11/2025 14:23 Silvia Batalha (VPAAPS)