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Fiocruz lança série sobre sistemas de saúde na AL e expõe desafios estruturais do SUS

Está no ar a série Sistemas de saúde na América Latina e os desafios do SUS. O conteúdo reúne seis vídeos voltados à divulgação científica de resultados de estudos. Com a participação de pesquisadores e estudantes da Fiocruz e em parceria com instituições de outros países da América Latina, as pesquisas contaram com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).

O primeiro, segundo e terceiro vídeos têm enfoque internacional na região da América Latina, abordando as características histórico-estruturais dos sistemas de saúde, as reformas, as relações público-privadas e os desafios pós-pandemia de Covid-19. O restante do material foca nos desafios do Sistema Único de Saúde, com ênfase na Atenção Primária à Saúde, no financiamento e na regionalização no Brasil e no Estado do Rio de Janeiro. Os resultados foram apresentados em linguagem acessível, com o objetivo de alcançar um público mais amplo para além dos especialistas, incluindo pesquisadores, estudantes de graduação e pós-graduação, gestores de políticas públicas, profissionais da área e demais interessados no tema.

As pesquisas incluem estudos comparativos entre o Brasil e outros países da América Latina, como Argentina, Chile, Colômbia e México. “Apesar das diferenças entre seus sistemas de saúde, esses países apresentam desafios semelhantes em relação a problemas estruturais que precisam enfrentar para fortalecer seus sistemas públicos, como o financiamento insuficiente, o caráter das relações público-privadas em saúde, a dependência tecnológica, entre outros. Em alguns deles, a segmentação e fragmentação do sistema de saúde também é elevada. O enfrentamento desses desafios é fundamental para expandir o acesso, reduzir desigualdades e garantir o direito à saúde”, explica a pesquisadora Cristiani Machado, uma das coordenadoras da série.

Além dos estudos internacionais comparativos, o grupo de pesquisa também busca explorar a diversidade político-territorial na implementação das políticas de saúde, assim como as desigualdades que se apresentam no sistema de saúde nos próprios países. “No caso do Brasil, por exemplo, a questão federativa é de grande importância, havendo diferenças entre estados e municípios que precisam ser exploradas. Nesse sentido, alguns resultados relativos a estudos realizados no estado do Rio de Janeiro são apresentados, tais como as repercussões das mudanças nas regras de alocação de recursos federais no modelo de atenção primária à saúde, as desigualdades regionais e os desafios da gestão do SUS em contextos metropolitanos”, afirma Luciana Dias.

As pesquisadoras destacam ainda que a realização de estudos em múltiplas escalas é fundamental para entender a complexidade das transformações no campo da saúde, suas repercussões e os desafios contemporâneos dos sistemas de saúde.

Os resultados da pesquisa também foram apresentados no seminário internacional Desafios para os sistemas de saúde na América Latina pós-pandemia. Realizado na Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) no ano passado, o encontro abordou temas como os desafios dos sistemas de saúde latino-americanos, as relações público-privadas e o enfrentamento das desigualdades na região. A atividade reuniu convidados nacionais e internacionais, além de pesquisadores e estudantes envolvidos no projeto. Aberto ao público, o seminário contou com cerca de 80 participantes presenciais e mais de 200 na modalidade virtual. Os vídeos do evento somam centenas de visualizações.

Os vídeos são o resultado de estudos desenvolvidos pelo grupo Estado, Proteção Social e Políticas de Saúde, coordenado pelas pesquisadoras Luciana Dias e Cristiani Machado, ambas da Ensp/Fiocruz. A série tem apoio da VideoSaúde.

Assista à série

Série Sistemas de Saúde na América Latina e Desafios do SUS – com legendas em português e janela de libras

Série Sistemas de Saúde na América Latina e Desafios do SUS – com legendas em espanhol

Série Sistemas de Saúde na América Latina e Desafios do SUS – com audiodescrição

Publicado em 02/04/2026 13:52 Danielle Monteiro (Informe Ensp)

Encontro debate eliminação do mercúrio e fortalecimento da saúde ambiental

O evento Futuro sem Mercúrio: Parcerias Globais para a Saúde Ambiental, realizado esta semana no Rio de Janeiro, reuniu representantes da Pure Earth, da Fiocruz e do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), além de gestores públicos, pesquisadores e organizações internacionais. A atividade ocorreu no contexto do Fórum de Líderes Locais, que antecede a COP30, com início na próxima semana em Belém. O encontro promoveu um diálogo sobre os desafios e oportunidades para a eliminação do mercúrio, destacando os impactos da poluição química na saúde humana e nos ecossistemas, contribuindo para os avanços na implementação da Convenção de Minamata, que completa oito anos. As discussões enfatizaram a importância da cooperação entre ciência, políticas públicas e comunidades para reduzir a exposição a contaminantes e proteger populações vulnerabilizadas.

O debate sobre o mercúrio reafirma o papel do Brasil na busca de soluções para a tripla crise planetária e evidencia a importância de alianças entre ciência, Estado e sociedade (Foto: VPAAPS/Fiocruz)

A assessora de Saúde e Ambiente da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS/Fiocruz), Juliana Rulli Villardi, destacou que o enfrentamento à contaminação por mercúrio é uma agenda da saúde global e da justiça ambiental, que ultrapassa o campo técnico e ambiental e se inscreve como questão de direitos humanos e soberania sanitária. “O mercúrio atravessa fronteiras e atinge corpos, ecossistemas e culturas. Seus efeitos recaem principalmente sobre povos indígenas, ribeirinhos, trabalhadores da mineração e populações do campo, das florestas e das águas”, afirmou. Segundo ela, enfrentar o problema requer cooperação institucional, inovação e investimento contínuo.

Juliana ressaltou o papel estratégico da Fiocruz na integração entre ciência, políticas públicas e ação territorial em defesa da vida. Mencionou o Grupo de Trabalho Mercúrio e Saúde como ação institucional estratégica, que articula pesquisadores de diferentes unidades da Fiocruz, na construção de uma agenda de pesquisa cooperada voltada à proteção das populações expostas. Destacou ainda o Centro de Síntese em Saúde para Mudança do Clima, Biodiversidade e Poluição e a criação do Centro de Clima e Saúde em Rondônia como espaços de oportunidade para a articulação e fortalecimento dessa agenda, reforçando a presença e o compromisso da Fiocruz na Amazônia.

O chefe de Gabinete da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima do Rio de Janeiro, Filipe Lopes, ressaltou a importância de incorporar o tema à agenda da cidade e aproximá-lo do cotidiano da população. “As pessoas compreendem melhor o impacto de uma enchente do que o de um contaminante invisível como o mercúrio. É fundamental traduzir esse problema em políticas públicas locais”, afirmou.

O cientista de dados Gabriel Vieira, do Centro de Inteligência Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde, destacou que a integração entre vigilância e dados ambientais é essencial para prevenir agravos e orientar políticas baseadas em evidências. O Centro, pioneiro na América Latina, analisa informações sobre poluição do ar e eventos de calor e pretende incluir o monitoramento de metais pesados em suas análises epidemiológicas.

A experiência internacional foi apresentada pelo diretor de programa da Pure Earth no Peru, Rodrigo Velarde, que relatou iniciativas de vigilância sanitária e atenção a pessoas intoxicadas por mercúrio, além de projetos com mulheres mineradoras formais que adotaram tecnologias livres do metal. Segundo ele, as experiências mostram que é possível reduzir a exposição e manter a produção de forma segura, com apoio técnico e presença do Estado.

Em nome do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Adalberto Maluf Filho destacou que o Brasil vive um momento decisivo no avanço das políticas relacionadas à Convenção de Minamata. Entre os desafios, citou a necessidade de implementação de protocolos clínicos para populações contaminadas, rastreabilidade da cadeia do ouro, destinação segura do mercúrio apreendido e ampliação do inventário nacional de emissões. O secretário enfatizou também a importância da atuação conjunta entre o MMA, o Ministério da Saúde e a Funai na proteção de povos indígenas e comunidades amazônicas.

As falas convergiram em torno da urgência de fortalecer políticas integradas de saúde e ambiente, capazes de transformar evidências científicas em ações públicas. O Plano de Ação Nacional sobre o Mercúrio, em fase de elaboração pelo governo brasileiro, foi apontado como um marco importante nesse processo e será apresentado na Sexta Conferência das Partes da Convenção de Minamata (COP6), de 3 a 7 de novembro, em Genebra (Suíça).

A discussão também dialoga com a agenda climática que ganha força com a realização da COP30, na próxima semana, em Belém. Ao conectar os temas de clima, poluição e biodiversidade, o debate sobre o mercúrio reafirma o papel do Brasil na busca de soluções para a tripla crise planetária e evidencia a importância de alianças entre ciência, Estado e sociedade.

Publicado em 07/11/2025 14:23 Silvia Batalha (VPAAPS)