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Especialistas alertam para o impacto da crise climática na epidemiologia da hantavirose

O surto recente de hantavirose em um navio de cruzeiro que saiu da Argentina foi o mote do Encontros do Conhecimento, promovido pela Fiocruz. Com o tema Hantavírus – panorama atual, vigilância e preparação para ameaças emergentes, o evento discutiu possibilidade de tratamentos, desenvolvimento de vacinas e epidemiologia do hantavírus.

As mudanças climáticas foram o ponto de destaque durante o encontro. A chefe do Laboratório de Hantaviroses e Rickettsioses do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Renata Oliveira, relembrou que no início dos anos 90 foi um El Niño que levou à primeira emergência sanitária causada por hantavírus nos EUA. “O evento climático causou muita chuva em uma região do país e houve aumento na população de roedores, que são os vetores do hantavírus”, explicou a pesquisadora.

Até então, o vírus era conhecido por causar febre hemorrágica com síndrome renal em países da Europa, Ásia e África. O surto nos EUA, localizado em uma região entre os estados do Arizona, Colorado e Novo México, levou à descoberta de uma nova doença causada pelo organismo, a síndrome pulmonar por hantavírus, de alta letalidade. Oliveira alertou para o El Niño já confirmado para este ano por especialistas, que vêm chamando a atenção para uma possível incidência extrema do fenômeno climático.

A médica infectologista do Departamento de Assuntos Médicos, Estudos Clínicos e Vigilância Pós-Registro (Deame) do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz) Clarisse Vianna, destacou a emergência climática mundial como fator que pode levar à expansão da incidência das doenças causadas pelo vírus no mundo. Tanto o aumento das temperaturas, quanto os eventos extremos – secas e chuvas – favorecem situações em que os roedores buscam novas regiões em busca de comida e, assim, há maior proximidade entre os animais e as pessoas.

“As mudanças climáticas não criam novos hantavírus, mas podem aumentar a abundância dos reservatórios, expandir sua distribuição geográfica e elevar o risco de transmissão para humanos”, afirmou a infectologista, que ressaltou o fato de que a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu o vírus no rol de priorização de patógenos com alto risco para novas pandemias. “A família do hantavírus está no radar da OMS desde a Covid-19 e o surto no navio acendeu um alerta. Hoje não temos contramedidas, vacinas ou tratamentos específicos, embora haja algumas iniciativas em estudo”.

Vigilância é a prioridade atual

A dificuldade de desenvolver imunizantes vem da baixa incidência da doença. No Brasil, os casos são, em sua grande maioria, restritos a áreas rurais, com transmissão roedor-pessoa. No final de 2025, a Anvisa concedeu o registro a um teste rápido de hantavirose desenvolvido em parceria entre Bio-Manguinhos, IOC e UFRJ, capaz de detectar a doença em até 20 minutos, com apenas uma gota de sangue. A iniciativa facilita o diagnóstico precoce, fundamental para que os pacientes recebam assistência adequada, além de ampliar a vigilância, especialmente em áreas remotas. “O teste validado no Brasil é importante para o contexto latino-americano. Um surto local bem investigado leva a mais conhecimento sobre esta família de vírus, que é global”, disse Renata Oliveira.

As enfermidades causadas pela família do hantavírus são consideradas graves, a síndrome pulmonar, incidente nas Américas, tem alta letalidade. O diagnóstico tardio é um dos principais problemas, já que os pacientes, de início, apresentam sintomas comuns a muitas viroses, como febre, tosse seca e dor de cabeça. A transmissão entre pessoas é considerada rara, a principal forma é pelo contato com urina, saliva e fezes de roedores silvestres infectados, especialmente pela inalação de partículas presentes no ambiente contaminado.

Publicado em 18/06/2026 15:37 Daniela Rangel (Bio-Manguinhos/Fiocruz)

Pesquisa busca novo tratamento para esquistossomose

Uma pesquisa liderada pela Fiocruz, destacada na capa da revista científica internacional ACS Infectious Diseases, aponta caminhos para desenvolver novos fármacos ativos contra o verme Schistosoma mansoni, causador da esquistossomose. Popularmente conhecida como “xistose”, “barriga d’água” ou “doença dos caramujos”, a infecção é considerada uma doença negligenciada e está ligada à falta de saneamento.

A análise de imagens de microscopia do verme ‘Schistosoma mansoni’ foi um dos métodos utilizados para avaliar efeitos de compostos sobre suas formas juvenis (foto: Rudson Amorim, IOC/Fiocruz)

No Brasil, cerca de 1,5 milhão de pessoas vivem em áreas com transmissão da doença, segundo o Ministério da Saúde. No mundo, a população sob risco chega a 700 milhões, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). O estudo liderado pelo  Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) investiga a atividade de moléculas derivadas do praziquantel, remédio atualmente indicado no tratamento da esquistossomose.

Em uso há cerca de 40 anos, o praziquantel é eficaz, mas o tamanho grande do tablete e o sabor amargo dificultam sua administração, especialmente para crianças. Além disso, em condições experimentais, cientistas já observaram vermes que desenvolveram resistência ao fármaco, embora casos desse tipo nunca tenham sido identificados a partir de trabalhos de campo de forma a serem considerados um problema de saúde pública.

“É importante buscar alternativas ao praziquantel. Nosso objetivo é chegar a medicamentos que possam ser otimizados do ponto de vista farmacológico, facilitando a administração e garantindo uma opção na eventualidade de resistência”, afirma o chefe do Laboratório de Bioquímica Experimental e Computacional de Fármacos do IOC/Fiocruz e primeiro autor do estudo, Floriano Paes.

Através de ensaios em laboratório e análises computacionais, os cientistas identificaram três moléculas com atividade contra o verme da esquistossomose, em níveis semelhantes ao medicamento de referência. Além disso, a pesquisa revelou uma característica inesperada, relacionada ao mecanismo de ação dos compostos, que pode orientar a criação de novos fármacos. 

“Dados de diversos trabalhos indicavam que o praziquantel se liga quase perfeitamente a uma proteína do parasito, que atua como um receptor. Porém, nós observamos que este receptor tem plasticidade, ou seja, ele consegue abrir espaço para ligação com moléculas um pouco diferentes. Isso abre possibilidade de explorar novos caminhos para desenhar compostos que superem deficiências do praziquantel”, explica Floriano.

A pesquisa foi realizada em parceria com Faculdade de Medicina de Wisconsin, nos Estados Unidos; Universidade Aberystwyth, no Reino Unido; e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Desenho racional de fármacos

As oito moléculas testadas no estudo possuem estrutura química semelhante ao praziquantel com pequenas modificações realizadas pelos cientistas.  Nos experimentos, três compostos se destacaram por apresentarem atividade contra os diferentes estágios do ciclo de vida do S. mansoni presentes no ser humano: vermes adultos, formas juvenis e larvas (que são chamadas de esquistossômulos).

Análise.

As oito moléculas testadas no estudo possuem estrutura química semelhante ao praziquantel com pequenas modificações realizadas pelos cientistas (foto: Rudson Amorim, IOC/Fiocruz)

Os testes também demonstraram que estas substâncias atuam de forma semelhante ao medicamento de referência, por meio da ligação à proteína do verme conhecida pela sigla TRPM. Segundo os pesquisadores, as substâncias não se mostraram mais potentes que o praziquantel contra vermes adultos, mas características observadas as tornam interessantes para otimização estrutural.

“Com base nos resultados, podemos propor modificações mais racionais na estrutura desses compostos para atuar na forma como eles se ligam ao receptor, aumentando a afinidade”, declara Floriano, acrescentando que a pesquisa também deve seguir com ensaios experimentais in vivo.

“No modelo de infecção em roedores, queremos investigar como essas moléculas se comportam no organismo em comparação ao praziquantel e verificar se é possível melhorar aspectos farmacológicos”, diz o pesquisador.

Publicado em 11/06/2026 10:26 Maíra Menezes (IOC/Fiocruz)

Exames descartam ebola em imigrante da República Democrática do Congo

Homem de 37 anos testou positivo para meningite meningocócica

A Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo informou na manhã desta segunda-feira (1º) que o homem de 37 anos internado no Emílio Ribas, na capital paulista, não está contaminado com ebola. Exames feitos no paciente não detectaram material genético do vírus na amostra coletada.

O paciente é imigrante da República Democrática do Congo, esteve recentemente por no país de origem e apresentou sintomas compatíveis com a doença. Exames já haviam detectado quadro de meningite meningocócica.

Ao chegar ao Emílio Ribas, o homem estava em estado grave, com diarreia, desorientação e piorando rapidamente, o que exigiu intubação. O paciente está internado em isolamento na unidade de referência, seguindo os protocolos de biossegurança previstos para esse tipo de ocorrência.

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Casos suspeitos

Representantes do Ministério da Saúde, da Secretaria Estadual da Saúde e do Emílio Ribas estão analisando caso. O Ministério informou que foi notificado, neste sábado (30), sobre dois casos suspeitos de ebola, um em São Paulo e o outro no Rio de Janeiro.

No Rio de Janeiro, o caso é de um viajante que veio de Uganda, estava hospedado no bairro de Vila Isabel, e apresentou quadro de calafrios, tosse e diarreia. Os exames foram feitos no Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e confirmaram resultado positivo para malária.

Ele está sob cuidados do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), unidade de referência para doenças infecciosas, aguardando resultado definitivo sobre a infecção por ebola. 

Risco

De acordo com o Ministério da Saúde, o risco de transmissão do ebola no Brasil e na América do Sul é considerado baixo. “O país dispõe de protocolos de vigilância, assistência e resposta para a identificação, investigação e manejo oportuno de casos suspeitos”, diz a pasta em nota..

A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou, no dia 17 de julho de 2019, Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) por ebola na República Democrática do Congo, medida prevista no Regulamento Sanitário Internacional. Neste momento, a OMS considera o risco elevado apenas no país afetado e nos que fazem fronteira.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), no surto atual de ebola na República Democrática do Congo e em Uganda, são 18 mortes confirmadas em 134 casos confirmados, com uma taxa de 13% de mortalidade. Esse número está bem abaixo da média histórica.

Outras 223 mortes e 906 casos estão em investigação. Há 15 dias, a OMS declarou surto de ebola nos dois países.

Saiba mais no Repórter Brasil Tarde, da TV Brasil

https://youtube.com/watch?v=GiSWJT69PQI%3Fsi%3D5QQbJ9UbjydEEWyr%26start%3D444

Doença

A Doença pelo Vírus Ebola (DVE) é grave, com taxa de letalidade que pode chegar até os 90%. Afeta os seres humanos e os primatas não-humanos, como macacos, gorilas e chimpanzés.

Alguns dos sintomas da ebola envolvem febre alta, dor de cabeça intensa, dores musculares, fadiga, náuseas, vômitos, diarreia e dor abdominal, indica a secretaria.

A transmissão acontece por meio de contato direto com fluidos corporais de pessoas infectadas, especialmente nas fases mais avançadas da doença. O infectado só transmite o vírus na fase aguda, com apresentação de sintomas severos.

Democrática do Congo

Homem de 37 anos testou positivo para meningite meningocócica Flávia Albuquerque – Repórter da Agência Brasil Publicado em 01/06/2026 – 13:05 São Paulo

Entenda o papel da Fiocruz na definição da formulação da vacina contra influenza

Dados preliminares de 2026 apontam aumento na circulação de vírus respiratórios, incluindo a influenza. Até 14 de março foram notificados 14,3 mil casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) no país, com cerca de 840 óbitos. Entre os casos graves, a influenza responde por 28,1% das infecções identificadas. A vacinação é a principal forma de prevenção contra a influenza e contribui para reduzir casos graves, internações e mortes. E a Fiocruz desempenha um importante papel na formulação do imunizante.

A mobilização será realizada nas regiões Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste antes do período de maior circulação do vírus (Foto: Renato Rodrigues)

Mas por que tomar a vacina todo ano?  

Com subtipos capazes de infectar células humanas e/ou animais, o vírus influenza se multiplica fazendo cópias de si mesmo dentro do organismo. Durante esse processo podem ocorrer falhas. Em vez de cópias perfeitas, pequenos erros acontecem e modificam características do vírus, incluindo proteínas de superfície, responsáveis pela “aparência” do vírus para o sistema imunológico. É o que chamamos de mutações. Enquanto umas preocupam pouco, outras requerem muito cuidado e atenção redobrada.

É aí que entram cientistas espalhados pelo mundo, muitos deles do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz). Como “detetives”, eles se dedicam a investigar vírus influenza que podem estar “disfarçados” e em livre circulação.

No âmbito do IOC, as atividades são conduzidas pelo Laboratório de Vírus Respiratórios, Exantemáticos, Enterovírus e Emergências Virais, referência nacional na análise de vírus respiratórios. O setor é responsável por identificar, caracterizar geneticamente e monitorar a circulação de diferentes variantes do influenza no país.

À frente do laboratório, que também atua como referência brasileira junto à rede internacional de vigilância da Organização Mundial da Saúde (OMS), está a pesquisadora Marilda Siqueira. Ela e sua equipe monitoram quais “versões” do vírus estão circulando no país.

“Em um grande esforço conjunto com o Ministério da Saúde, o Instituto Evandro Chagas e o Instituto Adolfo Lutz, nós produzimos relatórios que subsidiam recomendações da OMS sobre a composição da vacina para os hemisférios Norte e Sul, a partir de análises virológicas e genômicas de centenas de amostras. No Brasil, essas diretrizes orientam o Ministério na definição da estratégia de imunização e na encomenda das doses”, explica Siqueira.  

A mobilização liderada pelo Ministério da Saúde em favor da campanha nacional de vacinação contra a influenza prioriza grupos mais vulneráveis, como idosos, crianças, gestantes e pessoas com comorbidades. A campanha segue até 30 de maio, com vacinação gratuita nas Unidades Básicas de Saúde (UBS)

Ao conectar pesquisa laboratorial, vigilância epidemiológica e cooperação global, o IOC consolida sua posição como um dos principais pilares da resposta brasileira às doenças respiratórias. Esta é a base essencial para a atualização anual da vacina e para a resposta oportuna a cenários epidemiológicos em constante transformação.