Pelo menos 12 estados e o DF apresentam tendência de aumento
Boletim da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) divulgado este mês sinaliza situação de alerta, de alto risco ou de risco para casos graves de síndromes gripais em 18 estados brasileiros e no Distrito Federal. Desse total, pelo menos 13 unidades federativas apresentam tendência de aumento nas notificações ao longo das próximas semanas.
Os dados mostram que entre 29 de março e 4 de abril a prevalência entre casos positivos foi de 40,8% para rinovírus, causador da maioria dos resfriados comuns; de 30,7% para Influenza A; e de 19,9% para o vírus sincicial respiratório (VSR), conhecido por causar infecções em vias respiratórias e pulmões de recém-nascidos, mas que também preocupa idosos.
De acordo com o Ministério da Saúde, o vírus sincicial respiratório é um vírus comum que causa infecções em pessoas de todas as idades, com maior impacto em bebês, idosos e pessoas com condições de saúde que comprometem o sistema imunológico.
No Brasil e em outros países, esse vírus circula de forma mais intensa em determinadas épocas do ano, podendo causar desde sintomas leves até quadros respiratórios graves que requerem atendimento hospitalar, como a síndrome respiratória aguda grave (SRAG).
“O VSR é altamente contagioso e infecta o trato respiratório. É uma das principais causas de bronquiolite viral aguda em crianças menores de 2 anos e pode ser responsável por um número expressivo de internações”, alertou a pasta.
No início da semana, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a ampliação do uso da vacina Arexvy, produzida pela Glaxosmithkline Brasil Ltda, para adultos a partir dos 18 anos. O imunizante, disponível na rede privada, é indicado para prevenir a doença do trato respiratório inferior, causada pelo vírus.
Registrada em 2023, a Arexvy foi a primeira vacina para prevenção da doença no país, mas o registro inicial previa a aplicação apenas em adultos com 60 anos ou mais.
“O vírus sincicial respiratório é importante agente etiológico de infecções respiratórias ao longo de toda a vida, podendo causar doenças do trato respiratório inferior, com impacto clínico relevante em adultos, especialmente na presença de comorbidades, além de representar risco aumentado de hospitalização e complicações respiratórias em faixas etárias mais avançadas”, avaliou a Anvisa.
“A ampliação da indicação para adultos a partir de 18 anos foi sustentada por estudos clínicos adicionais de imunogenicidade comparativa, que demonstraram não serem inferiores à resposta imune em adultos mais jovens, em comparação à população com mais de 60 anos”, completou.
O vírus sincicial respiratório é transmitido sobretudo por meio de gotículas respiratórias e pelo contato direto com secreções de pessoa infectada – por exemplo, ao tocar superfícies ou objetos contaminados e depois tocar olhos, nariz ou boca. A transmissão do vírus pode ocorrer:
– quando uma pessoa infectada tosse, espirra ou conversa;
– por contato próximo com pessoas infectadas;
– pelo toque em mãos ou superfícies contaminadas.
Sintomas
Os sintomas causados pelo vírus sincicial respiratório geralmente se assemelham aos de um resfriado comum, mas podem evoluir para quadros respiratórios graves em grupos com maior risco, especialmente em crianças abaixo de 2 anos. Os sinais e sintomas mais comuns são:
– coriza (nariz escorrendo);
– tosse;
– espirros;
– febre;
– congestão nasal;
– chiado no peito.
Já os sinais e sintomas em casos mais graves incluem:
– respiração rápida ou com dificuldade;
– perda do apetite ou dificuldade para se alimentar;
– cianose (pele, lábios ou pontas dos dedos arroxeados ou azulados);
– alteração do estado mental (irritabilidade ou sonolência).
“Em bebês, o VSR pode causar bronquiolite viral aguda, caracterizada pela inflamação dos branquíolos, que são pequenas vias áreas dos pulmões”, destacou o ministério.
Grupos com maior risco
Alguns grupos, segundo a pasta, apresentam maior risco de desenvolver formas graves quando infectados pelo vírus sincicial respiratório. São eles:
– crianças menores de 2 anos, especialmente menores de 6 meses;
– bebês prematuros;
– crianças com doenças cardíacas ou pulmonares crônicas;
– crianças com condições neurológicas, síndrome de Down ou com anomalias de vias aéreas;
– idosos;
– pessoas com condições que comprometem o sistema imunológico.
Diagnóstico
O diagnóstico do vírus sincicial respiratório, na maioria dos casos, é clínico, baseado na avaliação da história clínica e dos sinais e sintomas apresentados pelo paciente.
Em alguns casos, como em pacientes hospitalizados com quadros mais graves, podem ser realizados testes para identificação do vírus em amostras respiratórias por exame de biologia molecular (RT- PCR em tempo real).
Tratamento
O ministério reforça que não existe medicamento específico para o tratamento do vírus sincicial respiratório. O manejo clínico é de suporte e depende da gravidade do quadro.
O tratamento pode incluir:
– hidratação adequada;
– controle da febre;
– lavagem nasal;
– internação hospitalar e uso de oxigênio suplementar em casos mais graves.
Prevenção
A pasta ressalta que algumas medidas simples ajudam a prevenir a infecção e a disseminação do vírus sincicial respiratório, incluindo:
– lavar as mãos com frequência com água e sabão;
– evitar contato próximo com pessoas gripadas ou resfriadas;
– limpar e desinfetar objetos e superfícies de uso comum;
– evitar aglomerações, especialmente para bebês e idosos;
– manter ambientes bem ventilados.
“Para proteger bebês, é importante manter a vacinação e as consultas de rotina em dia, manter o aleitamento materno sempre que possível e evitar a exposição à fumaça de cigarro.”
Vacinação em gestantes
O Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza a vacina contra o VSR para gestantes, com o objetivo de proteger o bebê nos primeiros meses de vida. O imunizante é aplicado em dose única a partir da 28ª semana de gestação.
Após a vacinação, a gestante produz anticorpos que são transferidos para o bebê por meio da placenta, conferindo proteção passiva ao recém-nascido. A estratégia, segundo o ministério, reduz o risco de formas graves da doença e de internações hospitalares por VSR nos primeiros seis meses de vida.
Imunização de bebês
Bebês, sobretudo prematuros e com comorbidades, podem receber ainda, pelo SUS, anticorpos prontos contra o vírus sincicial respiratório, chamados de anticorpos monoclonais, que ajudam a proteger contra formas graves da infecção.
O palivizumabe é aplicado em forma de injeção, uma vez por mês, durante a época do ano em que o vírus circula mais, seguindo critérios definidos pelo ministério. Atualmente, o palivizumabe está passando por processo de substituição por um novo medicamento, chamado nirsevimabe.
O nirsevimabe é um medicamento criado para proteger os bebês contra o VSR por um período mais longo, sendo necessária apenas uma dose para garantir proteção durante toda a época de maior circulação do vírus. A principal vantagem é que a proteção dura mais tempo, evitando a necessidade de várias aplicações.
“No SUS, o nirsevimabe será oferecido para bebês prematuros e crianças com algumas condições de saúde específicas, que têm maior risco de desenvolver formas graves da doença causada pelo VSR, nascidos a partir de fevereiro de 2026”, informou a pasta.
Paula Laboissière – Repórter da Agência Brasil Publicado em 16/04/2026 – 10:02 Brasília
O Ministério da Saúde anunciou R$ 12 milhões para o fortalecimento de ações de vigilância e controle da doença de Chagas em 17 estados brasileiros. Em nota, a pasta informou que o recurso fortalece a capacidade de atuação contínua em 155 municípios considerados prioritários, apoiando ações essenciais como captura e monitoramento de vetores, vigilância e resposta rápida a focos.
No comunicado, o ministério destaca que Anápolis (GO) e Goiânia foram reconhecidos com selo bronze de boas práticas para eliminação da transmissão vertical da doença de Chagas e que a enfermidade ainda representa um desafio importante para a saúde pública, sobretudo em áreas com maior vulnerabilidade social e com a presença de vetores.
“Estamos direcionando recursos com base em critérios técnicos, o que permite maior efetividade das ações e impacto direto na redução da transmissão. Nosso compromisso é ampliar o diagnóstico, garantir o tratamento oportuno e avançar de forma consistente na eliminação da doença como problema de saúde pública no Brasil”, informou a secretária de Vigilância em Saúde e Meio Ambiente da pasta, Mariângela Simão.
Seleção
De acordo com o ministério, a seleção de municípios foi baseada em critérios técnicos que consideram a interação dos insetos vetores com o ambiente e a vulnerabilidade social, com prioridade para cidades classificadas como de risco muito alto em índice composto (presença de vetores e condições socioambientais) e localidades com registro recente do vetor.
Também foram considerados municípios com alta prioridade e muito alta prioridade para a forma crônica da doença de Chagas, concentrados principalmente nas Regiões Nordeste e Sudeste.
Pesquisa
A pasta anunciou ainda, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a fase 2 do projeto Selênio como tratamento na cardiopatia crônica da doença de Chagas, que busca avaliar a eficácia e a segurança do mineral como estratégia terapêutica complementar para pacientes com cardiopatia chagásica crônica. Serão investidos, ao todo, R$ 8,6 milhões.
A expectativa do governo federal é que a pesquisa gere evidências científicas mais robustas e representativas em diferentes perfis de pacientes.
“Os resultados poderão subsidiar a avaliação de tecnologias à base de selênio — substância com ação antioxidante e anti-inflamatória — para proteção cardiovascular, além de apoiar sua possível incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS)”, avaliou o ministério.
Números
O cenário epidemiológico da doença de Chagas no Brasil reforça a urgência de medidas de enfrentamento. Em 2024, foram registrados 3.750 óbitos, com maior concentração no Sudeste. No mesmo período, houve 520 casos agudos, principalmente no Norte, com destaque para o Pará.
Já em 2025, dados preliminares indicam 627 casos agudos (97% no Norte) e 8.106 casos crônicos, concentrados em Minas Gerais, na Bahia e em Goiás, evidenciando a persistência da doença em áreas endêmicas.
Entenda
A doença de Chagas é uma infecção causada por um parasita chamado Trypanosoma cruzi e que pode evoluir em duas fases:
– Fase aguda: acontece logo após a infecção. A pessoa pode apresentar sintomas ou não.
– Fase crônica: pode surgir anos depois. Em muitos casos, a pessoa não apresenta sintomas, mas a doença pode causar problemas no coração e no sistema digestivo.
Os triatomíneos são insetos conhecidos como barbeiro, chupão, procotó ou bicudo. Eles passam pelas fases de ovo, ninfa e adultos. Tanto as ninfas quanto os adultos se alimentam de sangue e, quando estão infectados, podem transmitir o parasita da doença de Chagas.
A transmissão pode acontecer de diversas formas:
– Vetorial: quando as fezes do barbeiro infectado entram em contato com feridas na pele ou mucosas após a picada.
– Oral: pela ingestão de alimentos ou bebidas contaminadas com o parasita.
– Vertical (congênita): da mãe infectada para o bebê durante a gravidez ou o parto.
– Transfusão ou transplante: por sangue ou órgãos de doadores infectados.
– Acidental: contato com material contaminado, geralmente em laboratórios ou durante a manipulação de animais silvestres.
Na fase aguda, os sintomas mais comuns são:
– febre por mais de sete dias e dor de cabeça;
– fraqueza intensa, inchaço no rosto e nas pernas;
– ferida parecida com furúnculo no local da entrada do parasita (em casos de transmissão pelo barbeiro).
Já na fase crônica, logo de início, a pessoa pode não sentir nada. Com o tempo, podem surgir:
– problemas no coração, incluindo insuficiência cardíaca;
– problemas digestivos, como aumento do intestino (megacólon);
– aumento do esôfago (megaesôfago).
A prevenção da doença de Chagas, de acordo com o ministério, está diretamente ligada à forma de transmissão. Uma medida importante é evitar a presença de barbeiros nas casas, com ações feitas pelas equipes de saúde. Também é recomendado:
– Usar telas em portas e janelas ou mosquiteiros.
– Utilizar repelentes e roupas de manga longa, principalmente à noite e em áreas de mata.
Para evitar a transmissão pelos alimentos, a orientação é:
– Lavar bem frutas, verduras e legumes com água potável.
– Observar os alimentos antes de triturar ou bater.
– Manter o local de preparo limpo e protegido.
– Guardar alimentos em recipientes fechados.
– Realizar orientações e treinamentos para quem manipula alimentos.
Paula Laboissière – Repórter da Agência Brasil Publicado em 15/04/2026 – 10:37 Brasília
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) lança nesta sexta-feira (10/4), no Rio de Janeiro, o Cuidar, estratégia do plano Pena Justa voltada ao acesso à saúde no sistema prisional brasileiro. O lançamento será realizado a partir das 17h, no Rio de Janeiro, com a presença do presidente do CNJ, ministro Edson Fachin. A iniciativa, uma parceria com os ministérios da Saúde e da Justiça e Segurança Pública, por meio da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen) e o apoio da Fiocruz, vai garantir cuidados básicos com prevenção e transmissão de doenças entre essa população, em articulação com políticas públicas de saúde já existentes e com foco no bem-estar coletivo, evitando que essas doenças se disseminem dentro e fora dos muros. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, estará presente. Confira a programação do evento.
De acordo com dados da Senappen, mais de 30 mil pessoas privadas de liberdade convivem com doenças transmissíveis – HIV, sífilis e tuberculose são as mais frequentes. “Temos um cenário de alta prevalência de doenças no sistema prisional e o desafio de articular serviços de atenção básica a essa população. O Cuidar vem para fortalecer a atuação coordenada para atendimento desde a porta de entrada até a saída, com impactos na saúde individual e coletiva”, explica o coordenador do Departamento de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e do Sistema de Execução de Medidas Socioeducativas (DMF/CNJ), Luís Lanfredi.
O lançamento será realizado a partir das 17h, em evento para convidados no Largo das Artes, no Rio de Janeiro, com a apresentação da estratégia e a assinatura de acordo de cooperação técnica (ACT) entre o CNJ, o Ministério da Saúde, a Senappen e a Fiocruz. Na sequência, será realizado o Encontro de Perspectivas em Saúde, reunindo representantes de instituições nacionais e internacionais para discutir o acesso à saúde no sistema prisional.
“Garantir o acesso à saúde no sistema prisional é uma medida de proteção coletiva. Ao estruturar fluxos de cuidado desde o ingresso até a saída, o Cuidar fortalece a articulação entre justiça e saúde pública, amplia a capacidade de resposta dos estados e contribui para reduzir a circulação de doenças dentro e fora das unidades prisionais”, afirma a juíza auxiliar da Presidência do CNJ com atuação no DMF, Solange Reimberg.
“O projeto afirma, na prática, que o direito à vida e à dignidade deve ser assegurado a todos. Iniciativas como o Cuidar têm foco no cuidado integral e na prevenção. Ao enfrentar as vulnerabilidades desse contexto, protegemos não apenas quem está privado de liberdade, mas toda a sociedade. Trata-se de um compromisso civilizatório com a saúde como direito e com a democracia”, destaca o presidente da Fiocruz, Mario Moreira.
Cooperação nacional
O ACT vai estabelecer uma agenda conjunta voltada à ampliação e monitoramento de políticas voltadas à saúde no sistema prisional, além da capacitação de profissionais e de iniciativas de educação em saúde. Entre as ações previstas estão o acompanhamento contínuo das condições de saúde das pessoas privadas de liberdade em todo o ciclo penal, em articulação com o Sistema Único de Saúde (SUS) e de acordo com a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade (PNAISP). Prevê ainda o acesso à atenção básica e especializada por meio da telessaúde, dentro dos protocolos do TeleSUS. As iniciativas de cuidado incluem atenção específica para o uso prejudicial de substâncias e o fortalecimento das ações de saúde mental.
No âmbito de gestão, o objetivo da estratégia também é mapear como as políticas de saúde na privação de liberdade são desenvolvidas e monitoradas nos estados, incluindo a investigação de casos graves de saúde e notificações de óbitos. Para apoiar essa governança e facilitar a tomada de decisão, será criado o Comitê Nacional Interinstitucional de Saúde Prisional. A parceria contempla ainda ações voltadas ao enfrentamento de doenças prevalentes, como ampliação da testagem, fortalecimento da vacinação e uso de tecnologias para rastreamento de doenças como a tuberculose.
Participação da Fiocruz
A Fiocruz vai atuar no fortalecimento e ampliação da PNAISP, contribuindo para aprimorar a atenção básica nas unidades prisionais, com integração à rede de saúde externa e apoiando o Poder Judiciário para impulsionar a prevenção, o tratamento de doenças, a assistência farmacêutica e a implementação de políticas voltadas a grupos vulneráveis. A Fundação também atuará na vigilância epidemiológica, fortalecendo o monitoramento contínuo da saúde da população prisional, com diagnósticos periódicos, qualificação dos sistemas de informação, investigação de óbitos e articulação com instituições de referência.
Serviço Lançamento da iniciativa Cuidar – Saúde no Sistema Prisional Data: 10 de abril de 2026 Horário: 17h Local: Largo das Artes Endereço: Rua Luís de Camões 2, sobrado – Centro, Rio de Janeiro
Publicado em 08/04/2026 08:27 CNJ e Agência Fiocruz de Notícias
Está no ar a série Sistemas de saúde na América Latina e os desafios do SUS. O conteúdo reúne seis vídeos voltados à divulgação científica de resultados de estudos. Com a participação de pesquisadores e estudantes da Fiocruz e em parceria com instituições de outros países da América Latina, as pesquisas contaram com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).
O primeiro, segundo e terceiro vídeos têm enfoque internacional na região da América Latina, abordando as características histórico-estruturais dos sistemas de saúde, as reformas, as relações público-privadas e os desafios pós-pandemia de Covid-19. O restante do material foca nos desafios do Sistema Único de Saúde, com ênfase na Atenção Primária à Saúde, no financiamento e na regionalização no Brasil e no Estado do Rio de Janeiro. Os resultados foram apresentados em linguagem acessível, com o objetivo de alcançar um público mais amplo para além dos especialistas, incluindo pesquisadores, estudantes de graduação e pós-graduação, gestores de políticas públicas, profissionais da área e demais interessados no tema.
As pesquisas incluem estudos comparativos entre o Brasil e outros países da América Latina, como Argentina, Chile, Colômbia e México. “Apesar das diferenças entre seus sistemas de saúde, esses países apresentam desafios semelhantes em relação a problemas estruturais que precisam enfrentar para fortalecer seus sistemas públicos, como o financiamento insuficiente, o caráter das relações público-privadas em saúde, a dependência tecnológica, entre outros. Em alguns deles, a segmentação e fragmentação do sistema de saúde também é elevada. O enfrentamento desses desafios é fundamental para expandir o acesso, reduzir desigualdades e garantir o direito à saúde”, explica a pesquisadora Cristiani Machado, uma das coordenadoras da série.
Além dos estudos internacionais comparativos, o grupo de pesquisa também busca explorar a diversidade político-territorial na implementação das políticas de saúde, assim como as desigualdades que se apresentam no sistema de saúde nos próprios países. “No caso do Brasil, por exemplo, a questão federativa é de grande importância, havendo diferenças entre estados e municípios que precisam ser exploradas. Nesse sentido, alguns resultados relativos a estudos realizados no estado do Rio de Janeiro são apresentados, tais como as repercussões das mudanças nas regras de alocação de recursos federais no modelo de atenção primária à saúde, as desigualdades regionais e os desafios da gestão do SUS em contextos metropolitanos”, afirma Luciana Dias.
As pesquisadoras destacam ainda que a realização de estudos em múltiplas escalas é fundamental para entender a complexidade das transformações no campo da saúde, suas repercussões e os desafios contemporâneos dos sistemas de saúde.
Os resultados da pesquisa também foram apresentados no seminário internacional Desafios para os sistemas de saúde na América Latina pós-pandemia. Realizado na Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) no ano passado, o encontro abordou temas como os desafios dos sistemas de saúde latino-americanos, as relações público-privadas e o enfrentamento das desigualdades na região. A atividade reuniu convidados nacionais e internacionais, além de pesquisadores e estudantes envolvidos no projeto. Aberto ao público, o seminário contou com cerca de 80 participantes presenciais e mais de 200 na modalidade virtual. Os vídeos do evento somam centenas de visualizações.
Os vídeos são o resultado de estudos desenvolvidos pelo grupo Estado, Proteção Social e Políticas de Saúde, coordenado pelas pesquisadoras Luciana Dias e Cristiani Machado, ambas da Ensp/Fiocruz. A série tem apoio da VideoSaúde.
Dados constam da nova edição do Boletim InfoGripe da Fiocruz
O número de casos de influenza A permanece em crescimento no Brasil. De acordo com a nova edição do Boletim InfoGripe, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a maior parte dos estados das regiões Norte, Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste está em alerta por causa da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), que representa risco ou alto risco com sinal de crescimento.
O Boletim alerta que a influenza A, vírus sincicial respiratório (VSR) e rinovírus são as causas na maioria dessas ocorrências de SRAG e podem resultar em morte nos casos mais graves.
Conforme os registros do InfoGripe, divulgados nesta quarta-feira (1º), nas quatro últimas semanas epidemiológicas, 27,4% foram casos positivos de influenza A; 1,5% de influenza B; 17,7% de vírus sincicial respiratório; 45,3% de rinovírus; e 7,3% de Sars-CoV-2 (covid-19).
Nas anotações de óbitos em igual período, entre os registros positivos houve a presença destes mesmos vírus com 36,9% de influenza A, de 2,5% influenza B, 5,9% de vírus sincicial respiratório, 30% de rinovírus e 25,6% de Sars-CoV-2 (Covid-19). “O estudo é referente à Semana Epidemiológica 12, período de 22 a 28 de março”, acrescentou a Fiocruz no texto de divulgação do Boletim.
Para os pesquisadores, diante desse quadro, a imunização contra a influenza se torna ainda mais necessária, o que pode ser facilitado pela Campanha Nacional de Vacinação que teve início no sábado passado (28), nessas regiões onde vem sendo registrado o avanço dos casos.
A ação, que é realizada anualmente pelo Ministério da Saúde, com apoio de estados e municípios, continua até 30 de maio e a população pode procurar a imunização gratuita nas Unidades Básicas de Saúde (UBS).
“É fundamental que pessoas dos grupos prioritários como idosos, crianças, pessoas com comorbidades e profissionais da saúde e da educação estejam em dia com a vacina contra a influenza”, afirmou a pesquisadora da Fiocruz Tatiana Portella.
Ela chama atenção ainda para a importância das gestantes a partir da 28ª semana se vacinarem contra o VSR, para garantir proteção aos bebês desde o nascimento.
A pesquisadora recomendou também que as pessoas dos estados onde ocorrem evolução de SRAG usem máscaras em locais fechados e com maior aglomeração, principalmente, as que integram os grupos de risco. Tatiana Portella ressaltou, ainda, a importância de manter a higiene, como lavar sempre as mãos.
“Em caso de sintomas de gripe ou resfriado, o ideal é manter o isolamento. Se isso não for possível, a orientação é sair de casa usando uma máscara de boa qualidade, como PFF2 ou N95”, sugeriu.
Dados preliminares de 2026 apontam aumento na circulação de vírus respiratórios, incluindo a influenza. Até 14 de março foram notificados 14,3 mil casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) no país, com cerca de 840 óbitos. Entre os casos graves, a influenza responde por 28,1% das infecções identificadas. A vacinação é a principal forma de prevenção contra a influenza e contribui para reduzir casos graves, internações e mortes. E a Fiocruz desempenha um importante papel na formulação do imunizante.
A mobilização será realizada nas regiões Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste antes do período de maior circulação do vírus (Foto: Renato Rodrigues)
Mas por que tomar a vacina todo ano?
Com subtipos capazes de infectar células humanas e/ou animais, o vírus influenza se multiplica fazendo cópias de si mesmo dentro do organismo. Durante esse processo podem ocorrer falhas. Em vez de cópias perfeitas, pequenos erros acontecem e modificam características do vírus, incluindo proteínas de superfície, responsáveis pela “aparência” do vírus para o sistema imunológico. É o que chamamos de mutações. Enquanto umas preocupam pouco, outras requerem muito cuidado e atenção redobrada.
É aí que entram cientistas espalhados pelo mundo, muitos deles do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz). Como “detetives”, eles se dedicam a investigar vírus influenza que podem estar “disfarçados” e em livre circulação.
No âmbito do IOC, as atividades são conduzidas pelo Laboratório de Vírus Respiratórios, Exantemáticos, Enterovírus e Emergências Virais, referência nacional na análise de vírus respiratórios. O setor é responsável por identificar, caracterizar geneticamente e monitorar a circulação de diferentes variantes do influenza no país.
À frente do laboratório, que também atua como referência brasileira junto à rede internacional de vigilância da Organização Mundial da Saúde (OMS), está a pesquisadora Marilda Siqueira. Ela e sua equipe monitoram quais “versões” do vírus estão circulando no país.
“Em um grande esforço conjunto com o Ministério da Saúde, o Instituto Evandro Chagas e o Instituto Adolfo Lutz, nós produzimos relatórios que subsidiam recomendações da OMS sobre a composição da vacina para os hemisférios Norte e Sul, a partir de análises virológicas e genômicas de centenas de amostras. No Brasil, essas diretrizes orientam o Ministério na definição da estratégia de imunização e na encomenda das doses”, explica Siqueira.
A mobilização liderada pelo Ministério da Saúde em favor da campanha nacional de vacinação contra a influenza prioriza grupos mais vulneráveis, como idosos, crianças, gestantes e pessoas com comorbidades. A campanha segue até 30 de maio, com vacinação gratuita nas Unidades Básicas de Saúde (UBS)
Ao conectar pesquisa laboratorial, vigilância epidemiológica e cooperação global, o IOC consolida sua posição como um dos principais pilares da resposta brasileira às doenças respiratórias. Esta é a base essencial para a atualização anual da vacina e para a resposta oportuna a cenários epidemiológicos em constante transformação.
Programa vai ao ar nesta segunda-feira (30) às 23h, na TV Brasil
O consumo de ultraprocessados pelos brasileiros mais do que dobrou desde os anos de 1980, passando de 10% para 23% do total de calorias ingeridas na alimentação. Um fenômeno que não acontece apenas no Brasil. Dados internacionais foram publicados em uma série de artigos na revista científica The Lancet por mais de 40 pesquisadores do mundo todo, liderados por cientistas da Universidade de São Paulo (USP).
Foi justamente na USP que o conceito de ultraprocessados foi criado. Naquele momento, em 2009, o pesquisador Carlos Monteiro, do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens), estava preocupado com o aumento de obesidade, sobrepeso e doenças crônicas associadas ao consumo de alimentos com alto nível de processamento.
O pesquisador e sua equipe, então, desenvolveram a classificação NOVA, que organiza os alimentos em quatro grupos: (1) alimentos in natura ou minimamente processados, como frutas, arroz ensacado, feijão ensacado; (2) ingredientes culinários processados, como azeite, manteiga, sal; (3) alimentos processados, a exemplo de milho em lata, sardinha em lata, pão de padaria; e (4) alimentos e bebidas ultraprocessados, como bolachas recheadas, achocolatados de caixinha, refrigerantes e bebidas açucaradas.
De acordo com Carlos Monteiro, antes da classificação NOVA, as explicações para o aumento de obesidade, sobrepeso e doenças crônicas eram muito relacionadas à escolha individual das pessoas. Segundo ele, era como se as pessoas comessem muito açúcar, sal e muita gordura por um “defeito de força de vontade”.
“Não existe uma epidemia de falta de força de vontade, as pessoas são as mesmas. O que mudou foi o sistema alimentar. O sistema alimentar hoje é muito não saudável e acaba estimulando as pessoas a quase compulsoriamente consumir alimentos ultraprocessados”, afirma o pesquisador.
O programa Caminhos da Reportagem exibe o episódio Ultraprocessados na Mesa dos Brasileiros nesta segunda-feira (30), a partir das 23h, na TV Brasil. O programa apresenta como e por que foi criado o conceito de ultraprocessado, explica como identificar se um produto é resultado de alto nível de processamento e discute as consequências sociais e para a saúde do consumo desses produtos.
Também serão apresentados exemplos de quem mudou hábitos alimentares com foco em diminuir o consumo desses produtos e de uma escola em Águas Lindas de Goiás que investe em comida de verdade e em educação, como parte do Programa Nacional de Alimentação Escolar, uma política pública mundialmente reconhecida.
Um levantamento conduzido pela Fiocruz Brasília e pelo Nupens indica que o consumo de produtos ultraprocessados é responsável por um custo de mais de R$ 10 bilhões à saúde e à economia no Brasil. Segundo o pesquisador Eduardo Nilson, da Fiocruz Brasília, estudos mostraram que até 57 mil mortes ao ano poderiam ser evitadas se o consumo de ultraprocessados fosse eliminado.
Estudos como esse são um alerta e preocupam cientistas brasileiros, organizações da sociedade civil e todos que defendem “comida de verdade” e reivindicam uma política fiscal mais agressiva para os produtos ultraprocessados. A última reforma tributária foi publicada em dezembro de 2023, mas a transição começou neste ano de 2026 e vai até 2033.
Os produtos ultraprocessados ficaram de fora do imposto seletivo e não estarão sujeitos à cobrança criada para desestimular o consumo de itens nocivos à saúde ou ao meio ambiente. Apenas as bebidas açucaradas, como os refrigerantes, receberam a taxa extra na reforma.
A coordenadora-geral de Alimentação e Nutrição na Secretaria de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde, Kelly Santos, explica que, no novo desenho fiscal do Brasil, um conjunto importante de alimentos saudáveis terá alíquotas zero de imposto, e os alimentos considerados não saudáveis terão alíquotas de imposto maior.
Sobre as bebidas açucaradas, a coordenadora explica que o país precisa ainda aprovar uma lei complementar para definir a alíquota de imposto que tornará o refrigerante mais caro. “É uma medida já aplicada em outros países, como México e Chile, que nos inspiram a desenvolvê-la aqui no Brasil também”, diz.
Outras medidas para tentar frear o crescimento do consumo de ultraprocessados são educação e estratégias regulatórias de publicidade. A diretora executiva da organização ACT Promoção da Saúde, Paula Johns, lembra que impor limites na publicidade do cigarro foi uma estratégia bem-sucedida.
“Você vê aqueles biscoitos recheados com várias alegações de que eles têm vitaminas. Então, tem todo um contexto de promoção desses alimentos que cria uma impressão de que eles são muito bons”, afirma. “É mais importante você ter um marcador que indique que aquilo é um alimento ultraprocessado”, defende.
A chefe da área de Saúde e Nutrição do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) no Brasil, Luciana Phebo, ressalta que o problema é ainda maior na vida de uma criança, que está em pleno desenvolvimento.
“Desenvolvimento do sistema nervoso, do sistema imunológico, do sistema digestivo, enfim, de todo o corpo, das suas dinâmicas. Ser desde cedo afetado por ultraprocessado vai levar esse corpo a muitas outras doenças crônicas”, alerta Luciana.
O estudante Luan Bernardo Marques Gama tem 13 anos. Por conviver com asma, ele faz acompanhamento no Hospital da Criança em Brasília. Há dois anos, Luan desenvolveu pré-diabetes e foi encaminhado ao Programa de Atenção à Criança e ao Adolescente com Sobrepeso ou Obesidade do hospital.
“Eu era tipo uma formiga. Era bala, chocolate, presunto, suco de caixinha, refrigerante, aqueles biscoitos.” A mãe de Luan, Cecília Marques, conta que ficou em alerta quando ele desenvolveu pré-diabetes, ela se sentiu mal com hipertensão e o pai do adolescente quase teve um infarto. Cecília conseguiu ficar mais tempo em casa para cuidar da alimentação da família e contou com a ajuda da nutricionista do Hospital da Criança.
“As compras são um processo dessa educação nutricional, leitura de rótulo, ver também que a criança consegue fazer esporte. O Luan aderiu supercerto. Ele demorou apenas um ano dentro do programa e recebeu alta”, conta a nutricionista Ana Rosa da Costa.
A nova edição do Boletim InfoGripe da Fiocruz, divulgada nesta quinta-feira (26/3), sinaliza, a médio e longo prazos, aumento do número de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Este cenário tem sido impulsionado pelo incremento das hospitalizações por influenza A, rinovírus e vírus sincicial respiratório (VSR). A análise mostra que todas as unidades da Federação (UF) apresentam sinal de crescimento do número de casos de SRAG na tendência de longo prazo (últimas seis semanas) até a Semana Epidemiológica 11, período de 15 a 21 de março.
Entre as UF, 22 estão com nível de atividade de SRAG em alerta, risco ou alto risco (últimas duas semanas): Rio de Janeiro, Acre, Amazonas, Pará, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Distrito Federal, Maranhão, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Piauí, Sergipe, Alagoas, Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo. O estudo destaca que o rinovírus tem impulsionado o aumento dos casos de SRAG em grande parte desses estados, especialmente entre crianças e adolescentes de 2 a 14 anos.
Em nível nacional, o cenário atual sugere que a situação aponta sinal de aumento nas tendências de longo prazo (últimas seis semanas) e de curto prazo (últimas três semanas). Em 2026 já foram notificados 24.281 casos de SRAG, sendo 9.443 (38,9%) com resultado laboratorial positivo para algum vírus respiratório, 9.951 (41%) negativos e cerca de 3.085 (12,7%) aguardando resultado laboratorial.
A pesquisadora do InfoGripe Tatiana Portella, do Programa de Computação Científica da Fiocruz, chama atenção que é essencial que as pessoas de maior risco, como idosos, imunocomprometidos e crianças, tomem a vacina da influenza assim que ela chegar aos postos de saúde, para frear o crescimento acelerado das hospitalizações pelo vírus em diversos estados do país. Para quem mora em regiões com alta de SRAG, Portella também recomenda o uso de máscara em locais fechados e com maior aglomeração de pessoas, especialmente para os grupos de risco. “Além disso, em caso de sintomas de gripe ou resfriado, o ideal é fazer isolamento dentro de casa, mas se não for possível, recomendamos sair usando uma boa máscara, como PFF2 ou N95, para evitar transmitir o vírus para outras pessoas”, recomenda.
Estados e capitais
Quanto aos casos de SRAG associados ao vírus influenza A, a atualização mostra indícios de interrupção do crescimento no Pará, Ceará e Pernambuco. No entanto, continuam aumentando na maioria dos estados do Nordeste (Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas, Sergipe e Bahia) e em alguns do Norte (Amapá, Rondônia) e Sudeste (Rio de Janeiro, Espírito Santo) e no Mato Grosso.
Em relação ao VSR, o vírus segue contribuindo para o crescimento de SRAG em crianças menores de 2 anos no Norte (Acre, Amazonas, Pará, Roraima e Rondônia), Nordeste (Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe), além do Centro-Oeste (Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal). Por outro lado, o metapneumovírus tem impulsionado o aumento de SRAG em crianças pequenas no Distrito Federal e em Minas Gerais.
Observa-se que 22 das 27 capitais apresentam nível de atividade de SRAG em alerta, risco ou alto risco (últimas duas semanas) com sinal de crescimento na tendência de longo prazo (últimas 6 semanas) até a Semana 11: Aracaju (SE), Belém (PA), Belo Horizonte (MG), Boa Vista (RR), Brasília (DF), Campo Grande (MS), Cuiabá (MT), Fortaleza (CE), Goiânia (GO), João Pessoa (PB), Macapá (AP), Maceió (AL), Manaus (AM), Natal (RN), Palmas (TO), Porto Velho (RO), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA), São Luís (MA), Teresina (PI) e Vitória (ES).
Prevalência de casos e óbitos
Nas quatro últimas semanas epidemiológicas, a prevalência entre os casos positivos foi de 45% de rinovírus, 27,8% de influenza A, 14,6% de vírus sincicial respiratório, 9,1% de Sars-CoV-2 (Covid-19) e 1,4% de influenza B. Entre os óbitos, a presença destes mesmos vírus entre os positivos e no mesmo recorte temporal foi de 35,9% de influenza A 29,1% de Sars-CoV-2 (Covid-19), 27,2% de rinovírus, 5,8% de vírus sincicial respiratório e 2,9% de influenza B.
Dados epidemiológicos
Os dados referentes aos resultados laboratoriais por faixa etária mostram que o aumento de SRAG em crianças e adolescentes tem sido impulsionado principalmente pelo rinovírus, enquanto entre jovens, adultos e idosos a principal causa tem sido a influenza A. O VSR também tem contribuído para o aumento de casos de SRAG em crianças pequenas.
A incidência e a mortalidade semanais médias, nas últimas oito semanas epidemiológicas, mantêm o padrão característico de maior impacto nos extremos das faixas etárias analisadas. A incidência de SRAG é mais elevada nas crianças pequenas e está associada principalmente ao VSR e ao rinovírus. Já a mortalidade é maior entre os idosos, tendo a Covid-19 e a influenza A como principais causas. Além disso, a incidência de Covid-19 também é maior em crianças pequenas e idosos, enquanto a de influenza A se concentra principalmente nas crianças de até 4 anos e nos idosos.
O Boletim InfoGripe é uma estratégia do Sistema Único de Saúde (SUS) voltada ao monitoramento de casos de SRAG no país. A iniciativa oferece suporte às vigilâncias em saúde na identificação de locais prioritários para ações, preparações e resposta a eventos em saúde pública.
Em março de 1986, enquanto o Brasil se despedia de 21 anos de ditadura militar e vivia um momento de expectativa por mudanças, representantes de diferentes regiões do país chegavam de ônibus a Brasília para a 8ª Conferência Nacional de Saúde. Em um ginásio esportivo, eles se juntariam aos delegados oficiais em um encontro marcado por um ambiente muito diferente das sete conferências anteriores.
A 8ª Conferência Nacional de Saúde reuniu mais de 4 mil participantes (foto: Álvaro Pedreira, Acervo Fiocruz)
Realizada entre 17 e 21 de março, a 8ª Conferência reuniu mais de 4 mil participantes, ajudando a lançar as bases do Sistema Único de Saúde (SUS). Presidida pelo sanitarista Sérgio Arouca, concentrou suas discussões em torno de três eixos: a saúde como responsabilidade do Estado e direito do cidadão, a reformulação do Sistema Nacional de Saúde e o financiamento do setor, em sintonia com as propostas da Reforma Sanitária.
Quarenta anos depois, quatro sanitaristas da Fiocruz que participaram da conferência — Arlindo Fabio Gomez de Sousa, Ary Carvalho de Miranda, Francisco Eduardo de Campos e Paulo Marchiori Buss — relembram o contexto político da época, a força da participação popular, as tensões e os bastidores de um dos momentos mais emblemáticos da história da democracia e da saúde pública no país.
Saúde como direito
O encontro de 1986 e a posterior criação do SUS só podem ser compreendidos à luz de um processo histórico mais amplo. Naquele momento, a redemocratização do país se articulava à crítica a um sistema de saúde excludente e à expectativa de mudança social, como lembra Ary Carvalho de Miranda, então chefe de Gabinete de Sérgio Arouca, presidente da Fiocruz. “Vivíamos um momento político de sepultar a ditadura, de criar uma nova Constituinte e novas leis que orientassem esse país pra outro caminho, e a saúde estava no bojo desse processo também”.
Votação na 8a Conferência Nacional de Saúde (foto: Álvaro Pedreira, Acervo Fiocruz)
Para o pesquisador da Fiocruz Brasília, Francisco Eduardo de Campos, aquele período era marcado pela convicção de que o país podia construir um sistema de saúde diferente, mais justo e mais humano. Buss, então professor da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), destaca o intenso trabalho de articulação que antecedeu o evento. Convocada ainda em 1985, a conferência mobilizou um grupo que percorreu o país. O sanitarista viajou do interior do Maranhão ao Rio Grande do Sul, apresentando a proposta da conferência, suas etapas e como se daria a escolha dos delegados.
“Na 8ª Conferência, assumiu-se a tarefa de levar à Constituinte as sugestões sobre a reforma do sistema de saúde. Os elementos constitutivos da área da saúde na Constituição de 1988 tiveram origem ali. Por isso, ela foi decisiva”, afirma Buss.
Sociedade em cena
A grande novidade da 8ª Conferência foi a ampla participação da sociedade civil, com a presença de sindicatos, associações, universidades, movimentos sociais e entidades profissionais. Mesmo sem direito a voto, os participantes puderam acompanhar e participar das discussões.
Ary Miranda de Carvalho, Paulo Buss, Francisco Eduardo de Campos e Arlindo Fabio Gomez de Sousa (Arte: Antonia Yunes e Vitor Vogel)
Para Miranda, foi justamente o vigor dessa mobilização que deu sustentação real à conferência e, mais tarde, fortaleceu a defesa das propostas na Assembleia Constituinte. Na memória de Francisco, o que mais ficou daquele momento foi a energia coletiva e a sensação de que a conferência abria uma possibilidade concreta de intervir no rumo do país.
O tamanho da mobilização surpreendeu a própria organização, como lembra Arlindo Fabio Gomez de Sousa, então vice-presidente de Desenvolvimento da Fiocruz: “Não parava de chegar ônibus em Brasília com milhares de pessoas que queriam participar da conferência. Aquilo não era nenhum movimento artificial. Era o fervor do momento”.
Segundo ele, essa presença transformou completamente o ambiente da conferência: “Havia pessoas vestidas com roupas regionais. Ali havia uma representação deste país. A atmosfera era diferente. Não era aquele comportamento burocrático tradicional das conferências”.
José Sarney e Sérgio Arouca (foto: Álvaro Pedreira, Acervo Fiocruz)
Sousa também recorda que, em busca de divulgar o encontro, ele e Theresa Christina de Aguiar Tavares, assessora de comunicação da conferência, foram à TV Globo, o que resultou em uma inserção na novela Roque Santeiro, de Dias Gomes e Aguinaldo Silva, uma das maiores audiências da televisão brasileira. O chamado à participação na conferência apareceu na novela na voz do padre progressista interpretado por Cláudio Cavalcanti.
Impasse sobre o papel do setor privado
A maior tensão do encontro foi decidir se o novo sistema de saúde deveria ser totalmente estatizado ou não, de forma imediata ou progressiva, como lembram os quatro pesquisadores. O relatório final registra que a proposta de estatização imediata foi rejeitada, embora houvesse consenso quanto à necessidade de fortalecer e expandir o setor público. A participação do setor privado permaneceu prevista em caráter complementar, sob as normas do Direito Público.
Representantes do setor privado de saúde chegaram a ser convidados para participar da conferência, mas recusaram, como conta Miranda. Ele lembra ainda que o confronto foi particularmente intenso na plenária final. “Tinha um grupo grande que achava que não devia entrar no texto a participação da iniciativa privada, que o sistema tinha que ser eminentemente público. E tinha outro setor que entendia que, naquele momento, nós não tínhamos força política para excluí-lo”.
Campos recorda que a votação do tema foi dramática: “Eu estava na contagem dos votos para decidir se os serviços de saúde seriam exclusivamente públicos ou não. E foi muito acirrado”. Segundo ele, uma solução intermediária se apresentava, naquele momento, como a alternativa politicamente mais viável.
Apesar das divergências, Buss enfatiza que a sensação maior era de unidade: “Todos queríamos construir uma proposta com o máximo de consenso possível, embora o dissenso fosse aceito e respeitado, para que pudéssemos alimentar a Constituição”.
Discursos que marcaram a conferência
O pronunciamento de Sérgio Arouca foi um dos pontos altos da 8ª Conferência. Miranda chama a atenção, especialmente, para a passagem em que o sanitarista apresenta um conceito ampliado de saúde, não mais restrito à ausência de doença, mas também entendido como bem-estar físico, mental e social. “A fala trazia a discussão da determinação social da saúde como referência. O conceito não é apenas uma abstração. É um vetor que orienta a prática”.
Outro ponto forte, na memória de Buss, foi o discurso de Sônia Fleury, em sintonia com a formulação de Arouca sobre a estreita relação entre democracia e saúde. Então vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Sônia representava, ali, a sociedade civil.
Sousa destaca a fala de abertura do presidente José Sarney, escrita por Eleutério Rodrigues Neto, um dos grandes defensores da Reforma Sanitária, já indicando que as discussões da conferência entrariam no debate da nova Constituição.
Publicado em 26/03/2026 08:59 Vivian Mannheimer (COC/Fiocruz)
A nova etapa do Fórum Oswaldo Cruz começou na quarta-feira (4/3), com a realização do seminário Determinação social do processo saúde-doença numa perspectiva interseccional. O evento reuniu pesquisadores e especialistas das diferentes unidades da Fundação e marcou o ponto de partida para a troca de experiências entre os grupos responsáveis pela formulação do documento estratégico.
Plano de Desenvolvimento Institucional da Pesquisa permitirá à Fundação enfrentar desafios sanitários nacionais e globais Foto: Peter Ilicciev)
“Pesquisa e educação andam juntas. Coordenar ações na área de pesquisa por meio do Plano de Desenvolvimento Institucional da Pesquisa da Fiocruz (2026-2030) resultará numa iniciativa inédita”, afirmou a vice-presidente de Pesquisa e Coleções Biológicas (VPPCB/Fiocruz), Alda Maria da Cruz, apontando o horizonte de trabalho dos próximos meses. Além de Alda Cruz, participaram da abertura o presidente Mario Moreira e a vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação (Vpeic/Fiocruz), Marly Cruz.
Marly destacou a experiência com o Plano de Desenvolvimento Institucional da Educação da Fiocruz, construído por um grupo técnico da Vpeic, com contribuições da Subcâmara Técnica de Ensino. A iniciativa foi concebida para fortalecer a formação necessária para atender às necessidades da saúde pública e ampliar as capacidades do SUS. Segundo ela, essa experiência ajuda a orientar o movimento que agora inicia na área de pesquisa da Fundação. “O Plano para a pesquisa busca fortalecer o SUS e mobilizar a comunidade científica”, destacou.
Ela também anunciou as novas iniciativas vinculadas ao Fórum. Entre elas está o lançamento de uma enquete na plataforma RedCap, já disponível para participação de trabalhadores e estudantes da Fiocruz e pensada para integrar as ações de construção coletiva do Plano. Também foram anunciados o Guia de orientação para os grupos de formulação do Plano; a constituição dos embaixadores do Fórum, especialistas responsáveis pelas atividades de pesquisas nas unidades e que atuarão na organização dos grupos de formulação; e a plataforma Quem somos na Fiocruz, voltada para mapear pesquisadores e suas produções científicas e tecnológicas.
A vice-presidente Marly Cruz destacou que o Plano para a pesquisa busca fortalecer o SUS (Foto: Peter Ilicciev)
Ao iniciar sua participação, Mario Moreira lembrou que cerca de 2 mil pessoas atuam direta ou indiretamente na área de pesquisa da Fundação. A instituição conta atualmente com 48 programas de pós-graduação, responsáveis por formar quadros estratégicos para o SUS. “Com os pés fincados na tradição e os olhos voltados para o futuro, nos tornamos uma instituição modelo no mundo, uma instituição pasteuriana”, afirmou ao evocar a tradição do Instituto Pasteur, na França, para destacar o caráter plural e diverso da Fiocruz.
Para o presidente, o Plano de Desenvolvimento Institucional da Pesquisa permitirá à Fundação enfrentar desafios sanitários nacionais e globais em um cenário internacional marcado pelo questionamento do multilateralismo, pela desqualificação de organismos como a OMS, além das pressões geradas pelas migrações e pelas mudanças climáticas. “São necessários novos mecanismos para que o mundo não fique vulnerável a pandemias, e a Fiocruz precisa se organizar para isso. O Fórum é o espaço para discutir os desafios atuais e futuros”, sublinhou.
Ainda na parte da manhã, pelo canal de transmissão do seminário, também foi divulgada a página do Fórum Oswaldo Cruz, que reúne as informações sobre todo o processo e funciona como espaço de disponibilização dos novos documentos de trabalho e memória dos seminários promovidos.
O presidente Mario Moreira afirmou que “são necessários novos mecanismos para que o mundo não fique vulnerável a pandemias” (Foto: Peter Ilicciev)
A questão da determinação social e da interseccionalidade
A primeira mesa-redonda que atribui título ao seminário, Determinação social do processo saúde-doença numa perspectiva interseccional, reuniu especialistas para discutir os limites e as possibilidades de algumas abordagens na compreensão das desigualdades em saúde. O debate foi mediado pela coordenadora de Comunicação Social da Fiocruz, Raquel Aguiar, e contou com a participação de Paulo Sabroza, do Departamento de Endemias Samuel Pessoa da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz); Gulnar Azevedo, da Uerj; Paulo Buss, do Centro de Relações Internacionais em Saúde (Cris/Fiocruz); e Naomar de Almeida Filho, do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA.
Ao refletir sobre a possibilidade de um método científico eficiente, Paulo Sabroza discutiu os conceitos de casualidade e determinação no campo da saúde. Segundo ele, a tradição científica consolidada no século XIX – que acompanhou o surgimento da epidemiologia moderna – privilegiou uma abordagem centrada na casualidade das doenças. Para o pesquisador, embora o método analítico tenha contribuições, ele se mostra insuficiente para compreender problemas de saúde. Sabroza defendeu uma abordagem mais ampla, capaz de articular diferentes formas de conhecimento e de superar visões reducionistas da saúde pública.
Nessa direção, a epidemiologista e reitora da Uerj, Gulnar Azevedo, reforçou a necessidade de pensar a ciência para além da cura de doenças, incorporando fatores sociais, econômicos e territoriais que interferem no processo saúde-doença. Com base em dados estatísticos nacionais, ela mostrou como diferenças regionais, de classe social e de raça influenciam o acesso ao tratamento, as chances de cura e até mesmo as estratégias de prevenção de doenças crônicas – como o câncer, uma das principais causas de morte neste do século. Para Gulnar, considerar categorias como interseccionalidade e determinantes sociais é fundamental para garantir que todas as pessoas tenham acesso aos recursos de prevenção e tratamento.
Naomar de Almeida Filho trouxe ao debate a pergunta: determinantes sociais das doenças ou determinação social da saúde? O professor chamou atenção para a importância da linguagem e da semântica na construção das análises e defendeu a necessidade de ir além das formulações tradicionais. Como alternativa, propôs uma abordagem baseada na categoria determinação eco-etno-social (DEES), que articula dimensões ecológicas, étnico-culturais e sociais para compreender as iniquidades em saúde. Na avaliação de Naomar, as categorias “determinação social” e “interseccionalidade”, embora importantes, apresentam limites analíticos. Por isso, sugeriu ampliar o debate com a noção de “sobredeterminação”, entendida como uma categoria mais abrangente para analisar os processos que produzem desigualdades em saúde. Essa perspectiva considera trajetórias múltiplas de determinação social. “A discussão conceitual precisa avançar e incorporar também a colonialidade epistêmica”, observou.
Na sequência, o ex-presidente da Fiocruz Paulo Buss apresentou um panorama do debate global sobre os determinantes sociais da saúde. Ele enfatizou o papel histórico dos sistemas de saúde pública e da própria Fundação, criada com uma vocação para doenças infecciosas e para enfrentar problemas sanitários. “Por isso, precisou fazer pesquisa e formar recursos humanos”, lembrou. Segundo Buss, as condições de saúde das populações resultam de um conjunto amplo de fatores interligados – entre eles desigualdades sociais, decisões político-econômicas e mudanças ambientais. Diante desse cenário complexo, afirmou, cabe à comunidade científica repensar as estratégias de pesquisa e de formulação de políticas públicas. Ele também ressaltou o caráter inevitavelmente político das agendas de saúde.
“Tudo tem natureza política – das decisões de governo à vida acadêmica, passando por questões sociais, ambientais e econômicas”, afirmou. Nesse sentido, acrescentou, a agenda da Fiocruz – incluindo o debate sobre determinação social – é também uma agenda política e social. “Saúde é o resultado de um conjunto de políticas sociais e econômicas”, frisou. Ao comentar os desafios globais contemporâneos — como crises ambientais, desigualdades e conflitos geopolíticos — que impactam diretamente as condições de saúde, Buss defendeu que a produção científica contribua de forma mais ativa para orientar políticas públicas e agendas de pesquisa.
Agenda de pesquisa
A programação da tarde contou com a mesa-redonda Experiências de Elaboração de Plano de Desenvolvimento da Pesquisa na Fiocruz, composta pelas pesquisadoras Luzia Carvalho, do Instituto René Rachou (Fiocruz Minas); Luciana Dias, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz); e Flávia Elias, da Fiocruz Brasília. A moderação foi conduzida por Tania Fonseca, da Coordenação de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência, instância que integra o grupo da Presidência nos trabalhos do Fórum Oswaldo Cruz.
Para a vice-presidente Alda Cruz, as unidades vão auxiliar na formação da matriz que é necessária para a elaboração da agenda de pesquisa da Fiocruz (Foto: Peter Ilicciev)
Ao abrir a sessão, a vice-presidente Alda Cruz destacou a importância de o processo institucional se apoiar nas experiências acumuladas pelas unidades. “Estamos neste encontro bebendo da experiência que as unidades já estão construindo com relação às suas agendas de pesquisa. São elas que vão nos auxiliar na formação dessa matriz densa que é necessária para a elaboração da agenda de pesquisa da Fiocruz”, afirmou.
Na mediação, Tania Fonseca ressaltou a diversidade institucional e o papel articulador da coordenação. “A Coordenação de Vigilância tem uma característica muito singular, porque trabalha em rede com todas as unidades da Fiocruz. Isso nos dá uma oportunidade enorme de interação, seja com grupos de pesquisa, seja com as referências propriamente ditas. Com isso, temos um panorama do país, uma vez que a Fiocruz está presente — como costumamos dizer — em todas as regiões, em todos os biomas e em diferentes organizações”, observou.
Citando a fala do professor Paulo Sabroza na mesa-redonda da manhã, Tania reforçou que a Fiocruz nasceu com uma visão estratégica de Estado. “É uma instituição do Estado brasileiro, voltada para resolver problemas desse Estado. Em nossas andanças, percebemos que os projetos de pesquisa refletem isso: os territórios, as interações, as intervenções e as possibilidades de cada área. Formar uma mesa com essa diversidade remete à metáfora utilizada mais cedo, a do aquário e do lugar que ocupamos nele. O Fórum Oswaldo Cruz pretende ser esse aquário, onde diferentes áreas, regiões e grupos possam se ver refletidos e, ao mesmo tempo, reconhecidos como parte desse grande aquário multicolorido e diverso que é a Fiocruz”, destacou.
Experiências das unidades
Ao iniciar sua apresentação, Luzia Carvalho relatou a experiência da Fiocruz Minas na construção de sua agenda estratégica de pesquisa, destacando o papel das câmaras técnicas abertas como espaço permanente de debate institucional. “Neste processo de construção coletiva, fomos levados a definir os principais temas estratégicos de pesquisa da unidade. Isso foi possível por meio de câmaras técnicas abertas e encontros institucionais, que culminaram na definição de quatro grandes temas e de temas transversais. Não criamos uma agenda de pesquisa de uma hora para a outra — foi um processo longo, com muitas etapas”, explicou.
Segundo a pesquisadora, a agenda foi construída a partir do mapeamento das competências institucionais e do fortalecimento de um “ecossistema da pesquisa”, envolvendo gestão, ensino, laboratórios e comunicação. Os temas estratégicos definidos incluíram respostas a emergências e desastres, redução de doenças socialmente determinadas, desafios do perfil demográfico e epidemiológico da população brasileira e questões relacionadas à saúde, ambiente e vulnerabilidade social. Entre os temas transversais estão clima e saúde, vigilância, ciência de base e comunicação ativa.
Luciana Dias apresentou a experiência da Ensp/Fiocruz no fortalecimento da gestão estratégica da pesquisa entre 2021 e 2025. Segundo ela, o planejamento foi adotado como instrumento participativo de definição de prioridades e organização institucional. Isso foi crucial para definir a direção e as prioridades com construção coletiva, apoiar a tomada de decisão, com transformação de diretrizes em ações concretas, fortalecer a governança institucional e permitir monitoramento contínuo, avaliação e aprendizado institucional. A Escola reúne atualmente 262 servidores dedicados à pesquisa e conta com 66 grupos certificados pelo CNPq. A diversidade também marca a formação do corpo técnico, composto por profissionais de cerca de 40 áreas acadêmicas. Inserida no campo da saúde coletiva — que articula epidemiologia, ciências sociais e humanas em saúde e política e gestão em saúde —, a Ensp/Fiocruz mantém forte compromisso com a produção científica voltada saúde pública e à justiça social.
Durante a gestão, o planejamento da pesquisa foi estruturado a partir de um Programa Vivo, que definiu eixos estratégicos orientados pelas diretrizes aprovadas no Congresso Interno da Fiocruz. O primeiro eixo foi o fortalecimento da articulação interna e externa, ampliando o diálogo com outras unidades da instituição e com parceiros governamentais e movimentos sociais. O segundo concentrou-se no fomento ao desenvolvimento científico e tecnológico aplicado à saúde pública e à saúde coletiva, incluindo um programa específico de financiamento à pesquisa com apoio da Presidência da Fiocruz. O terceiro eixo priorizou o fortalecimento da comunicação institucional e da divulgação científica.
A experiência também trouxe aprendizados para a gestão. Entre eles, a compreensão de que o planejamento deve funcionar como um guia de alinhamento de propósitos, e não como instrumento de controle. A participação institucional foi apontada como elemento central para garantir legitimidade às decisões e reduzir resistências internas, ainda que processos participativos também revelem conflitos que exigem mediação institucional. Luciana destacou ainda desafios importantes, como a dificuldade de priorização em ambientes de grande diversidade temática, a fragmentação entre pesquisa, ensino e gestão e a dependência crescente de financiamento externo. Nesse cenário, a liberação de recursos institucionais para editais internos foi considerada fundamental para estimular a colaboração e reduzir a competição entre pesquisadores.
Planejamento e redes de colaboração
Na apresentação final da mesa, Flávia Elias compartilhou a experiência da Fiocruz Brasília na elaboração de seu plano de ação para a área de pesquisa. O trabalho vem sendo desenvolvido por um grupo responsável por estruturar o planejamento de forma participativa, com reuniões regulares envolvendo pesquisadores, profissionais que atuam em atividades de pesquisa e bolsistas vinculados a projetos.
Atualmente, a unidade conta com 11 grupos de pesquisa formalizados, muitos deles fortemente vinculados à formulação e avaliação de políticas públicas em áreas como soberania alimentar, saúde do trabalhador, saúde mental e avaliação de tecnologias em saúde. Parte dessa atuação ocorre por meio de assessorias técnicas a órgãos governamentais e participação em comitês e conselhos ligados à formulação de políticas públicas. Como estratégia de integração entre os grupos, foram criados coletivos temáticos voltados a pautas transversais, como equidade étnico-racial e de gênero, acessibilidade e inclusão de pessoas com deficiência e envelhecimento e longevidade. Também está em desenvolvimento um coletivo dedicado à saúde da mulher.
A Ensp/Fiocruz mantém ainda parcerias com diferentes instituições, incluindo outras unidades da Fiocruz, órgãos do governo federal e universidades brasileiras e internacionais. Essas colaborações se concretizam por meio de instrumentos como Termos de Execução Descentralizada (TED), convênios, acordos de cooperação técnica e projetos financiados por emendas parlamentares. Entre as iniciativas recentes está uma chamada pública para projetos de pesquisa qualitativa que financiou 18 propostas, das quais 15 foram concluídas, apesar dos impactos da pandemia. Os projetos geraram produtos técnicos, metodologias, modelos de gestão e artigos científicos, além de iniciativas de formação acadêmica associadas à pesquisa.
Com base nessa trajetória, a unidade trabalha agora na consolidação de um plano estruturado de gestão e fomento à pesquisa. “O objetivo é organizar iniciativas já existentes em uma estratégia mais integrada e sustentável, voltada ao fortalecimento da pesquisa aplicada às necessidades do SUS, às demandas das políticas públicas e às realidades dos territórios. A proposta busca ampliar o impacto social da produção científica e consolidar a instituição como um polo robusto de desenvolvimento de soluções para desafios de saúde pública”, afirmou Flavia.
Entre os objetivos do plano estão o fortalecimento da governança da pesquisa, a integração entre grupos por meio de linhas temáticas transversais, a ampliação de mecanismos de financiamento e o fortalecimento da relação com os territórios. Também fazem parte das metas a democratização do acesso ao conhecimento científico e o aprimoramento da gestão do conhecimento institucional.
Encerramento
Ao encerrar o debate, a mediadora Tania Fonseca destacou que as apresentações refletiram a diversidade de trajetórias das unidades da Fiocruz, mas também revelaram pontos de convergência importantes. “A necessidade de agendas transversais, o trabalho em equipe, o estímulo aos grupos de pesquisa e aos jovens pesquisadores apareceram em todas as falas”, observou. Ela também ressaltou a importância de ampliar os espaços de diálogo institucional, retomando um ponto levantado anteriormente pelo professor Paulo Sabroza sobre a necessidade de fortalecer as conversas internas. “Cada uma das exposições trouxe novas questões e possibilidades que devem alimentar as discussões do Fórum nos próximos meses, contribuindo para aprofundar o debate até a consolidação das propostas previstas para agosto”, concluiu Tania.
Publicado em 06/03/2026 14:42 Elisandra Galvão (VPPCB/Fiocruz), Isabelle Resende (VPPCB/Fiocruz) e Simone Intrator (VPEIC/Fiocruz)