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Colaboração científica investiga altas taxas de cesariana e riscos à saúde de mães e bebês

Uma colaboração científica entre a Fiocruz e a Universidade Stanford, na Califórnia, avança para investigar desafios que afetam a saúde de mulheres e recém-nascidos no Brasil e nos Estados Unidos. As duas instituições vão unir esforços para analisar fatores como as elevadas taxas de cesariana, a morbidade materna grave, as desigualdades em saúde e os efeitos dessas condições para mães e bebês.

A parceria foi ampliada durante a visita à universidade americana das pesquisadoras da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) Maria do Carmo Leal, coordenadora do estudo Nascer no Brasil, e Ana Paula Esteves-Pereira, epidemiologista e gestora de dados da segunda edição da pesquisa. “O principal objetivo é promover o intercâmbio de experiências em pesquisa no campo da saúde materna e perinatal e conhecer a experiência bem-sucedida da Califórnia na redução de cesarianas. Entre os resultados esperados estão a troca de conhecimento e o desenvolvimento de investigações conjuntas, além da mobilidade de estudantes entre as duas instituições”, destaca Maria do Carmo. Ela conta que o interesse da universidade americana na colaboração científica surgiu devido à alta frequência de cesarianas no Brasil, o que torna o país um importante campo para o estudo dos efeitos do procedimento em populações obstétricas.

A colaboração científica prevê a análise de dados preliminares da pesquisa Nascer no Brasil 2 e de estudos desenvolvidos pela Stanford. Além do intercâmbio científico e da produção conjunta de conhecimento, a parceria inclui o fortalecimento de redes internacionais voltadas à melhoria da qualidade do cuidado. Também serão realizadas análises comparativas entre Brasil e Estados Unidos, além da elaboração de um plano de cooperação para futuras iniciativas internacionais, incluindo propostas de pesquisa e publicações conjuntas. Segundo Maria do Carmo, ao unir diferentes experiências e contextos, a parceria reafirma o compromisso das instituições com a produção de evidências capazes de subsidiar políticas públicas, reduzir iniquidades e promover resultados mais eficazes para mães e bebês no Brasil e no mundo.

A reunião na Universidade Stanford teve como tema central a cesariana anteparto (cesárea eletiva agendada e realizada antes do início do trabalho de parto), especialmente entre mulheres de baixo risco, e suas repercussões para a morbidade materna grave e os desfechos neonatais. Durante o encontro, também foram analisadas as desigualdades raciais e sociais relacionadas à saúde materna nos dois países, além das diferenças entre os sistemas público e privado de atendimento.

Maria do Carmo destaca que o Brasil tem uma das maiores taxas de cesariana do mundo, muitas delas realizadas antes do início do trabalho de parto. Segundo a pesquisadora, esse cenário também reflete desigualdades sociais e diferenças entre os modelos de atendimento público e privado, além de práticas já consolidadas na assistência ao parto. Por outro lado, os Estados Unidos, que enfrentavam altas taxas de cesariana em determinados contextos, além de fortes desigualdades nos casos de complicações graves relacionadas à saúde materna, conseguiram, principalmente na Califórnia, reduzir esses índices para abaixo de 25%, por meio de políticas públicas.

No Brasil, o excesso de cesarianas agendadas em gestações de baixo risco aumenta os riscos para mães e bebês, com mais chances de complicações graves, partos antecipados, problemas respiratórios nos recém-nascidos e internações em UTIs neonatais”, conforme mostrado pela Nascer no Brasil”, alerta Maria do Carmo.

A pesquisadora também chama atenção para a hemorragia pós-parto, considerada hoje uma das principais preocupações no Brasil: “Estudos mostram que mulheres submetidas à cesariana têm um risco de morte após o parto cerca de três vezes maior do que aquelas que tiveram parto vaginal, principalmente por hemorragias e complicações relacionadas à anestesia”.

Como próximo passo da colaboração científica, Maria do Carmo cita o fortalecimento da parceria com as futuras visitas à Ensp/Fiocruz da enfermeira e PhD em Saúde Pública Marina Magalhães e de Suzan Carmichael, professora de Pediatria, Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina de Stanford. “Posteriormente, eu e Ana Paula iremos novamente à universidade americana. Para que nossa visita fosse concretizada, no período em que estivemos em Stanford desenhamos uma proposta de financiamento e um projeto-semente para o apoio financeiro dessa nova etapa. Ao longo deste ano, estruturaremos um projeto de pesquisa conjunto para o financiamento de uma investigação de maior porte, duração e resultados”, complementa a pesquisadora.

A colaboração científica entre a Ensp/Fiocruz e a Universidade Stanford teve início em 2024, com a realização de reuniões virtuais para discussão de interesses de pesquisa em comum. Em 2025, a professora Suzan Carmichael e a enfermeira Marina Magalhães realizaram visitas à Escola para dar continuidade às discussões. Os encontros resultaram na ida das pesquisadoras Maria do Carmo Leal e Ana Paula Esteves-Pereira à universidade americana para aprofundar a parceria.

Publicado em 09/06/2026 14:16 Danielle Monteiro (Informe Ensp)

Fiocruz lança série sobre sistemas de saúde na AL e expõe desafios estruturais do SUS

Está no ar a série Sistemas de saúde na América Latina e os desafios do SUS. O conteúdo reúne seis vídeos voltados à divulgação científica de resultados de estudos. Com a participação de pesquisadores e estudantes da Fiocruz e em parceria com instituições de outros países da América Latina, as pesquisas contaram com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).

O primeiro, segundo e terceiro vídeos têm enfoque internacional na região da América Latina, abordando as características histórico-estruturais dos sistemas de saúde, as reformas, as relações público-privadas e os desafios pós-pandemia de Covid-19. O restante do material foca nos desafios do Sistema Único de Saúde, com ênfase na Atenção Primária à Saúde, no financiamento e na regionalização no Brasil e no Estado do Rio de Janeiro. Os resultados foram apresentados em linguagem acessível, com o objetivo de alcançar um público mais amplo para além dos especialistas, incluindo pesquisadores, estudantes de graduação e pós-graduação, gestores de políticas públicas, profissionais da área e demais interessados no tema.

As pesquisas incluem estudos comparativos entre o Brasil e outros países da América Latina, como Argentina, Chile, Colômbia e México. “Apesar das diferenças entre seus sistemas de saúde, esses países apresentam desafios semelhantes em relação a problemas estruturais que precisam enfrentar para fortalecer seus sistemas públicos, como o financiamento insuficiente, o caráter das relações público-privadas em saúde, a dependência tecnológica, entre outros. Em alguns deles, a segmentação e fragmentação do sistema de saúde também é elevada. O enfrentamento desses desafios é fundamental para expandir o acesso, reduzir desigualdades e garantir o direito à saúde”, explica a pesquisadora Cristiani Machado, uma das coordenadoras da série.

Além dos estudos internacionais comparativos, o grupo de pesquisa também busca explorar a diversidade político-territorial na implementação das políticas de saúde, assim como as desigualdades que se apresentam no sistema de saúde nos próprios países. “No caso do Brasil, por exemplo, a questão federativa é de grande importância, havendo diferenças entre estados e municípios que precisam ser exploradas. Nesse sentido, alguns resultados relativos a estudos realizados no estado do Rio de Janeiro são apresentados, tais como as repercussões das mudanças nas regras de alocação de recursos federais no modelo de atenção primária à saúde, as desigualdades regionais e os desafios da gestão do SUS em contextos metropolitanos”, afirma Luciana Dias.

As pesquisadoras destacam ainda que a realização de estudos em múltiplas escalas é fundamental para entender a complexidade das transformações no campo da saúde, suas repercussões e os desafios contemporâneos dos sistemas de saúde.

Os resultados da pesquisa também foram apresentados no seminário internacional Desafios para os sistemas de saúde na América Latina pós-pandemia. Realizado na Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) no ano passado, o encontro abordou temas como os desafios dos sistemas de saúde latino-americanos, as relações público-privadas e o enfrentamento das desigualdades na região. A atividade reuniu convidados nacionais e internacionais, além de pesquisadores e estudantes envolvidos no projeto. Aberto ao público, o seminário contou com cerca de 80 participantes presenciais e mais de 200 na modalidade virtual. Os vídeos do evento somam centenas de visualizações.

Os vídeos são o resultado de estudos desenvolvidos pelo grupo Estado, Proteção Social e Políticas de Saúde, coordenado pelas pesquisadoras Luciana Dias e Cristiani Machado, ambas da Ensp/Fiocruz. A série tem apoio da VideoSaúde.

Assista à série

Série Sistemas de Saúde na América Latina e Desafios do SUS – com legendas em português e janela de libras

Série Sistemas de Saúde na América Latina e Desafios do SUS – com legendas em espanhol

Série Sistemas de Saúde na América Latina e Desafios do SUS – com audiodescrição

Publicado em 02/04/2026 13:52 Danielle Monteiro (Informe Ensp)