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Inscrições para o programa Mais Médicos terminam nesta quarta-feira

Escolhidos vão atuar em distritos indígenas, consultório na rua e SUS

O prazo para os interessados em se inscrever para o 45º ciclo do projeto Mais Médicos para o Brasil (PMMB) termina às 23 horas e 59 minutos desta quarta-feira (8).

O projeto coordenado pelo Ministério da Saúde é voltado à atuação na Atenção Primária à Saúde (APS) do Sistema Único de Saúde (SUS), em regiões prioritárias, remotas, de difícil acesso e de alto índice de vulnerabilidade, incluindo territórios indígenas, onde há escassez ou ausência de médicos

Os profissionais interessados em participar devem se inscrever por meio da Plataforma de Gerenciamento de Programas de Provimento, com login da conta do portal Gov.br.

Para a participação no chamamento público, é indispensável a comprovação prévia da habilitação para o exercício da medicina, com o devido registro no Conselho Regional de Medicina. Os profissionais selecionados atuarão por até 48 meses, combinando atendimento direto à população com formação continuada.

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Vagas

Neste novo edital (nº 24/2026), o Ministério da Saúde abriu 1.524 vagas.

São 1.351 vagas para equipes de Saúde da Família (eSF), 75 para equipes de consultório na rua e 98 para Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI).

O documento esclarece que as vagas disponíveis foram distribuídas conforme estudos de demografia médica e sobre vulnerabilidade social.

Todos os médicos poderão participar; no entanto, os profissionais formados em instituições de educação superior brasileiras ou com diploma revalidado no Brasil terão prioridade na seleção e ocupação das vagas ofertadas pelo Mais Médicos.

O edital contempla três perfis principais:

perfil 1: médicos formados no Brasil ou com diploma revalidado, com registro ativo no Conselho Federal de Medicina (CRM);

perfil 2: médicos brasileiros formados no exterior (intercambistas);

perfil 3: médicos estrangeiros com habilitação para atuar no exterior.

Os profissionais selecionados atuarão por 48 meses.

Bolsa-formação

O programa oferece uma bolsa-formação de R$ 14.121,63 para os médicos matriculados e com situação regular quanto às atividades educacionais previstas no projeto.

O médico participante deverá cumprir semanalmente com a carga horária de 44 horas de atividades que envolvem ensino, pesquisa e extensão, com componente assistencial, nas unidades de saúde no município ou distrito em que for alocado.

No caso de o médico comprovar a necessidade de mudança de domicílio em razão da alocação em município diferente do seu domicílio, o Ministério da Saúde poderá conceder ajuda de custo, que não poderá exceder ao valor de três bolsas-formação.

Mais Médicos

Lançado em 2013 para suprir a falta de profissionais em regiões remotas e fixá-los nesta áreas prioritárias, atualmente, o Programa Mais Médicos para o Brasil conta com mais de 26 mil médicos em atuação em todo o país.

O Ministério da Saúde orienta os candidatos a acompanharem regularmente a página eletrônica do Programa Mais Médicos para se informar oficialmente de todas as etapas relacionadas à adesão ao Projeto Mais Médicos para o Brasil – PMMB.

Daniella Almeida – Repórter da Agência Brasil Publicado em 08/04/2026 – 11:05 Brasília

Medicamentos podem ter reajuste de até 3,81% a partir desta terça

Anvisa destaca que os aumentos não são automáticos

Medicamentos vendidos no Brasil podem ter o preço reajustado em até 3,81% a partir desta terça-feira (31), conforme estabelecido em resolução publicada pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (Cmed).

O texto prevê três níveis máximos de reajuste aplicáveis a diferentes grupos de medicamentos, conforme a competitividade de cada categoria:

  • 3,81% para medicamentos com concorrência;
  • 2,47% para medicamentos de média concorrência;
  • 1,13% para medicamentos de pouca ou nenhuma concorrência.

Algumas categorias não se encaixam nesses critérios, como fitoterápicos, homeopáticos e determinados medicamentos isentos de prescrição com alta concorrência no mercado, que possuem regras específicas dentro do sistema de regulação de preços.

Em nota, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) destacou que o reajuste médio permitido por lei ficará em até 2,47%, o menor dos últimos 20 anos e abaixo da inflação acumulada dos últimos 12 meses, de 3,81%.

“A redução consecutiva do índice desde 2023 é fruto da política de combate à inflação e reforça a importância da regulação para proteger o consumidor de preços abusivos. Nos anos anteriores, houve um aumento expressivo do percentual, ultrapassando 10%.”

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A Anvisa destaca que os aumentos não são automáticos. “Na prática, fabricantes e farmácias podem aplicar reajustes inferiores ou até manter os preços atuais, dependendo das condições do setor e do nível de concorrência entre as empresas”.

“A regulação econômica dos medicamentos no Brasil garante a proteção do consumidor e, ao mesmo tempo, busca a sustentabilidade do setor para a continuidade do fornecimento de medicamentos no país.”

Entenda

O reajuste dos preços de medicamentos é feito uma vez ao ano e segue uma fórmula regulatória que parte da inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e desconta o ganho de produtividade da indústria.

A Cmed é o órgão federal responsável pela regulação econômica do mercado farmacêutico no Brasil e estabelece critérios para a fixação e o reajuste dos preços de medicamentos, com o objetivo de estimular a concorrência e garantir o acesso da população aos produtos.

A câmara de regulação é composta pelo Ministério da Saúde, pela Casa Civil e pelos Ministérios da Justiça e Segurança Pública, da Fazenda e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. A Anvisa, por sua vez, exerce a função de secretaria executiva, fornecendo suporte técnico às decisões.

Paula Laboissière – Repórter da Agência Brasil Publicado em 31/03/2026 – 10:28 Brasília

Caminhos da Reportagem aborda riscos do consumo de ultraprocessados

Programa vai ao ar nesta segunda-feira (30) às 23h, na TV Brasil

O consumo de ultraprocessados pelos brasileiros mais do que dobrou desde os anos de 1980, passando de 10% para 23% do total de calorias ingeridas na alimentação. Um fenômeno que não acontece apenas no Brasil. Dados internacionais foram publicados em uma série de artigos na revista científica The Lancet por mais de 40 pesquisadores do mundo todo, liderados por cientistas da Universidade de São Paulo (USP).

Foi justamente na USP que o conceito de ultraprocessados foi criado. Naquele momento, em 2009, o pesquisador Carlos Monteiro, do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens), estava preocupado com o aumento de obesidade, sobrepeso e doenças crônicas associadas ao consumo de alimentos com alto nível de processamento.

O pesquisador e sua equipe, então, desenvolveram a classificação NOVA, que organiza os alimentos em quatro grupos: (1) alimentos in natura ou minimamente processados, como frutas, arroz ensacado, feijão ensacado; (2) ingredientes culinários processados, como azeite, manteiga, sal; (3) alimentos processados, a exemplo de milho em lata, sardinha em lata, pão de padaria; e (4) alimentos e bebidas ultraprocessados, como bolachas recheadas, achocolatados de caixinha, refrigerantes e bebidas açucaradas.

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De acordo com Carlos Monteiro, antes da classificação NOVA, as explicações para o aumento de obesidade, sobrepeso e doenças crônicas eram muito relacionadas à escolha individual das pessoas. Segundo ele, era como se as pessoas comessem muito açúcar, sal e muita gordura por um “defeito de força de vontade”.

“Não existe uma epidemia de falta de força de vontade, as pessoas são as mesmas. O que mudou foi o sistema alimentar. O sistema alimentar hoje é muito não saudável e acaba estimulando as pessoas a quase compulsoriamente consumir alimentos ultraprocessados”, afirma o pesquisador.

O programa Caminhos da Reportagem exibe o episódio Ultraprocessados na Mesa dos Brasileiros nesta segunda-feira (30), a partir das 23h, na TV Brasil. O programa apresenta como e por que foi criado o conceito de ultraprocessado, explica como identificar se um produto é resultado de alto nível de processamento e discute as consequências sociais e para a saúde do consumo desses produtos.

Também serão apresentados exemplos de quem mudou hábitos alimentares com foco em diminuir o consumo desses produtos e de uma escola em Águas Lindas de Goiás que investe em comida de verdade e em educação, como parte do Programa Nacional de Alimentação Escolar, uma política pública mundialmente reconhecida.

Um levantamento conduzido pela Fiocruz Brasília e pelo Nupens indica que o consumo de produtos ultraprocessados é responsável por um custo de mais de R$ 10 bilhões à saúde e à economia no Brasil. Segundo o pesquisador Eduardo Nilson, da Fiocruz Brasília, estudos mostraram que até 57 mil mortes ao ano poderiam ser evitadas se o consumo de ultraprocessados fosse eliminado.

Estudos como esse são um alerta e preocupam cientistas brasileiros, organizações da sociedade civil e todos que defendem “comida de verdade” e reivindicam uma política fiscal mais agressiva para os produtos ultraprocessados. A última reforma tributária foi publicada em dezembro de 2023, mas a transição começou neste ano de 2026 e vai até 2033.

Os produtos ultraprocessados ficaram de fora do imposto seletivo e não estarão sujeitos à cobrança criada para desestimular o consumo de itens nocivos à saúde ou ao meio ambiente. Apenas as bebidas açucaradas, como os refrigerantes, receberam a taxa extra na reforma.

A coordenadora-geral de Alimentação e Nutrição na Secretaria de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde, Kelly Santos, explica que, no novo desenho fiscal do Brasil, um conjunto importante de alimentos saudáveis terá alíquotas zero de imposto, e os alimentos considerados não saudáveis terão alíquotas de imposto maior.

Sobre as bebidas açucaradas, a coordenadora explica que o país precisa ainda aprovar uma lei complementar para definir a alíquota de imposto que tornará o refrigerante mais caro. “É uma medida já aplicada em outros países, como México e Chile, que nos inspiram a desenvolvê-la aqui no Brasil também”, diz.

Outras medidas para tentar frear o crescimento do consumo de ultraprocessados são educação e estratégias regulatórias de publicidade. A diretora executiva da organização ACT Promoção da Saúde, Paula Johns, lembra que impor limites na publicidade do cigarro foi uma estratégia bem-sucedida.

“Você vê aqueles biscoitos recheados com várias alegações de que eles têm vitaminas. Então, tem todo um contexto de promoção desses alimentos que cria uma impressão de que eles são muito bons”, afirma. “É mais importante você ter um marcador que indique que aquilo é um alimento ultraprocessado”, defende.

A chefe da área de Saúde e Nutrição do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) no Brasil, Luciana Phebo, ressalta que o problema é ainda maior na vida de uma criança, que está em pleno desenvolvimento.

“Desenvolvimento do sistema nervoso, do sistema imunológico, do sistema digestivo, enfim, de todo o corpo, das suas dinâmicas. Ser desde cedo afetado por ultraprocessado vai levar esse corpo a muitas outras doenças crônicas”, alerta Luciana.

O estudante Luan Bernardo Marques Gama tem 13 anos. Por conviver com asma, ele faz acompanhamento no Hospital da Criança em Brasília. Há dois anos, Luan desenvolveu pré-diabetes e foi encaminhado ao Programa de Atenção à Criança e ao Adolescente com Sobrepeso ou Obesidade do hospital.

“Eu era tipo uma formiga. Era bala, chocolate, presunto, suco de caixinha, refrigerante, aqueles biscoitos.” A mãe de Luan, Cecília Marques, conta que ficou em alerta quando ele desenvolveu pré-diabetes, ela se sentiu mal com hipertensão e o pai do adolescente quase teve um infarto. Cecília conseguiu ficar mais tempo em casa para cuidar da alimentação da família e contou com a ajuda da nutricionista do Hospital da Criança.

“As compras são um processo dessa educação nutricional, leitura de rótulo, ver também que a criança consegue fazer esporte. O Luan aderiu supercerto. Ele demorou apenas um ano dentro do programa e recebeu alta”, conta a nutricionista Ana Rosa da Costa.

EBC Publicado em 30/03/2026 – 07:32 Brasília

Sanitaristas da Fiocruz celebram os 40 anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde

Em março de 1986, enquanto o Brasil se despedia de 21 anos de ditadura militar e vivia um momento de expectativa por mudanças, representantes de diferentes regiões do país chegavam de ônibus a Brasília para a 8ª Conferência Nacional de Saúde. Em um ginásio esportivo, eles se juntariam aos delegados oficiais em um encontro marcado por um ambiente muito diferente das sete conferências anteriores.

A 8ª Conferência Nacional de Saúde reuniu mais de 4 mil participantes (foto: Álvaro Pedreira, Acervo Fiocruz)

Realizada entre 17 e 21 de março, a 8ª Conferência reuniu mais de 4 mil participantes, ajudando a lançar as bases do Sistema Único de Saúde (SUS). Presidida pelo sanitarista Sérgio Arouca, concentrou suas discussões em torno de três eixos: a saúde como responsabilidade do Estado e direito do cidadão, a reformulação do Sistema Nacional de Saúde e o financiamento do setor, em sintonia com as propostas da Reforma Sanitária.

Quarenta anos depois, quatro sanitaristas da Fiocruz que participaram da conferência — Arlindo Fabio Gomez de Sousa, Ary Carvalho de Miranda, Francisco Eduardo de Campos e Paulo Marchiori Buss — relembram o contexto político da época, a força da participação popular, as tensões e os bastidores de um dos momentos mais emblemáticos da história da democracia e da saúde pública no país.

Saúde como direito

O encontro de 1986 e a posterior criação do SUS só podem ser compreendidos à luz de um processo histórico mais amplo. Naquele momento, a redemocratização do país se articulava à crítica a um sistema de saúde excludente e à expectativa de mudança social, como lembra Ary Carvalho de Miranda, então chefe de Gabinete de Sérgio Arouca, presidente da Fiocruz. “Vivíamos um momento político de sepultar a ditadura, de criar uma nova Constituinte e novas leis que orientassem esse país pra outro caminho, e a saúde estava no bojo desse processo também”.

Votação.

Votação na 8a Conferência Nacional de Saúde (foto: Álvaro Pedreira, Acervo Fiocruz)


Para o pesquisador da Fiocruz Brasília, Francisco Eduardo de Campos, aquele período era marcado pela convicção de que o país podia construir um sistema de saúde diferente, mais justo e mais humano. Buss, então professor da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), destaca o intenso trabalho de articulação que antecedeu o evento. Convocada ainda em 1985, a conferência mobilizou um grupo que percorreu o país. O sanitarista viajou do interior do Maranhão ao Rio Grande do Sul, apresentando a proposta da conferência, suas etapas e como se daria a escolha dos delegados.

“Na 8ª Conferência, assumiu-se a tarefa de levar à Constituinte as sugestões sobre a reforma do sistema de saúde. Os elementos constitutivos da área da saúde na Constituição de 1988 tiveram origem ali. Por isso, ela foi decisiva”, afirma Buss.

Sociedade em cena

A grande novidade da 8ª Conferência foi a ampla participação da sociedade civil, com a presença de sindicatos, associações, universidades, movimentos sociais e entidades profissionais. Mesmo sem direito a voto, os participantes puderam acompanhar e participar das discussões.

Sanitaristas.

Ary Miranda de Carvalho, Paulo Buss, Francisco Eduardo de Campos e Arlindo Fabio Gomez de Sousa (Arte: Antonia Yunes e Vitor Vogel)


Para Miranda, foi justamente o vigor dessa mobilização que deu sustentação real à conferência e, mais tarde, fortaleceu a defesa das propostas na Assembleia Constituinte. Na memória de Francisco, o que mais ficou daquele momento foi a energia coletiva e a sensação de que a conferência abria uma possibilidade concreta de intervir no rumo do país.

O tamanho da mobilização surpreendeu a própria organização, como lembra Arlindo Fabio Gomez de Sousa, então vice-presidente de Desenvolvimento da Fiocruz: “Não parava de chegar ônibus em Brasília com milhares de pessoas que queriam participar da conferência. Aquilo não era nenhum movimento artificial. Era o fervor do momento”.

Segundo ele, essa presença transformou completamente o ambiente da conferência: “Havia pessoas vestidas com roupas regionais. Ali havia uma representação deste país. A atmosfera era diferente. Não era aquele comportamento burocrático tradicional das conferências”.

Arouca e Sarney.

José Sarney e Sérgio Arouca (foto: Álvaro Pedreira, Acervo Fiocruz)


Sousa também recorda que, em busca de divulgar o encontro, ele e Theresa Christina de Aguiar Tavares, assessora de comunicação da conferência, foram à TV Globo, o que resultou em uma inserção na novela Roque Santeiro, de Dias Gomes e Aguinaldo Silva, uma das maiores audiências da televisão brasileira. O chamado à participação na conferência apareceu na novela na voz do padre progressista interpretado por Cláudio Cavalcanti.

Impasse sobre o papel do setor privado

A maior tensão do encontro foi decidir se o novo sistema de saúde deveria ser totalmente estatizado ou não, de forma imediata ou progressiva, como lembram os quatro pesquisadores. O relatório final registra que a proposta de estatização imediata foi rejeitada, embora houvesse consenso quanto à necessidade de fortalecer e expandir o setor público. A participação do setor privado permaneceu prevista em caráter complementar, sob as normas do Direito Público.

Representantes do setor privado de saúde chegaram a ser convidados para participar da conferência, mas recusaram, como conta Miranda. Ele lembra ainda que o confronto foi particularmente intenso na plenária final. “Tinha um grupo grande que achava que não devia entrar no texto a participação da iniciativa privada, que o sistema tinha que ser eminentemente público. E tinha outro setor que entendia que, naquele momento, nós não tínhamos força política para excluí-lo”.

Campos recorda que a votação do tema foi dramática: “Eu estava na contagem dos votos para decidir se os serviços de saúde seriam exclusivamente públicos ou não. E foi muito acirrado”. Segundo ele, uma solução intermediária se apresentava, naquele momento, como a alternativa politicamente mais viável.

Apesar das divergências, Buss enfatiza que a sensação maior era de unidade: “Todos queríamos construir uma proposta com o máximo de consenso possível, embora o dissenso fosse aceito e respeitado, para que pudéssemos alimentar a Constituição”.

Discursos que marcaram a conferência

O pronunciamento de Sérgio Arouca foi um dos pontos altos da 8ª Conferência. Miranda chama a atenção, especialmente, para a passagem em que o sanitarista apresenta um conceito ampliado de saúde, não mais restrito à ausência de doença, mas também entendido como bem-estar físico, mental e social. “A fala trazia a discussão da determinação social da saúde como referência. O conceito não é apenas uma abstração. É um vetor que orienta a prática”.

Outro ponto forte, na memória de Buss, foi o discurso de Sônia Fleury, em sintonia com a formulação de Arouca sobre a estreita relação entre democracia e saúde. Então vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Sônia representava, ali, a sociedade civil.

Sousa destaca a fala de abertura do presidente José Sarney, escrita por Eleutério Rodrigues Neto, um dos grandes defensores da Reforma Sanitária, já indicando que as discussões da conferência entrariam no debate da nova Constituição.

Publicado em 26/03/2026 08:59 Vivian Mannheimer (COC/Fiocruz)

Um quarto das estudantes adolescentes já foi alvo de violência sexual

Pesquisa entrevistou quase 120 mil alunas de 13 a 17 anos em 2024

Um quarto das estudantes adolescentes do Brasil já sofreu alguma situação de violência sexual, incluindo toques, beijos ou exposição de partes íntimas sem consentimento.

O alerta faz parte da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSe), divulgada nesta quarta-feira (25) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foram entrevistados 118.099 adolescentes de 13 a 17 anos, que frequentavam 4.167 escolas públicas e privadas de todo o Brasil em 2024.

Em relação a 2019, último ano em que a pesquisa foi feita, o percentual de meninas que relataram essas violências nas respostas aumentou 5,9 pontos percentuais.

O IBGE destaca ainda que 11,7% das estudantes entrevistadas contaram que foram forçadas ou intimidadas para se submeterem a relações sexuais. Nesse caso, o aumento em relação a 2019 foi de 2,9 pontos percentuais.

Apesar da proporção de meninas violentadas ser, em média, o dobro da de meninos, estudantes de ambos os gêneros relataram situações de abuso, somando mais de 2,2 milhões de vítimas de assédio e 1,1 milhão de relações forçadas

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Apesar de ações enquadradas nas duas categorias serem tipificadas como estupro pela lei brasileira, o IBGE optou por dividi-las em duas perguntas para facilitar a compreensão dos adolescentes durante as entrevistas. 

“Esse tipo de violência nem sempre é identificado pela vítima, seja por falta de conhecimento em razão da idade, no caso de menores, seja por aspectos sociais e culturais. Nesse sentido, a identificação dos diversos atos que caracterizam a violência sexual, por um lado, consiste numa estratégia metodológica que facilita a identificação da violência; por outro, possibilita a caracterização da violência em escalas de gravidade”

Idade

Outro destaque da pesquisa diz respeito à idade das vítimas no momento do crime. Enquanto as situações de assédio sexual foram mais reportadas por adolescentes com 16 e 17 anos, entre aqueles forçados à relação sexual, a maioria (66,2%) tinha 13 anos ou menos quando sofreu a violência.

A violência foi mais frequente entre os estudantes de escola pública: 9,3% dos adolescentes dessas instituições relataram já terem sido intimidados ou forçados a uma relação sexual, contra 5,7% dos alunos da rede privada.

Já nos casos de assédio sexual, a proporção entre as duas redes é semelhante. 

Quem foram os agressores

O instituto também pediu aos estudantes que apontassem o autor das violências. No caso daqueles que foram submetidos a uma relação forçada, a grande maioria foi violentada por pessoas do seu círculo íntimo

  • 8,9% por pai, padrasto, mãe ou madrasta;
  • 26,6% por outros familiares;
  • 22,6% por namorados ou ex-namorados;
  • 16,2% por amigos. 

Já nos casos de toque não consentido, beijo forçado ou exposição de partes íntimas, a categoria mais mencionada foi “outro conhecido” (24,6%), seguido por outros familiares (24,4%) e desconhecidos (24%). 

Em ambos os casos, os estudantes podiam escolher mais de uma opção, e o somatório das respostas nas duas questões foi superior a 100%, o que indica que muitos estudantes sofreram esse tipo de violência mais de uma vez, ou de pessoas diferentes. 

>> IBGE alerta para quadro preocupante na saúde mental de adolescentes

>> Quatro em cada dez adolescentes já sofreram bullying na escola

Gravidez precoce

A pesquisa também identificou que cerca de 121 mil meninas de 13 a 17 anos de idade já engravidaram alguma vez, o que representou 7,3% daquelas que disseram ter iniciado a vida sexual. Desse total, 98,7% eram de escolas da rede pública.

Em cinco estados do Brasil, o índice de gravidez precoce ultrapassa 10% das estudantes: Paraíba, Ceará, Pará, Maranhão e Amazonas, onde a situação chega a 14,2% das estudantes. 

Outros dados sobre a iniciação sexual dos adolescentes, de forma consentida, levantam preocupações com a prevenção dessas gestações e contra infecções sexualmente transmissíveis.

Somente 61,7% dos estudantes usaram camisinha na primeira relação sexual, proporção que cai para 57,2% no caso da relação mais recente.

Para o IBGE, isso indica que não só os adolescentes não estão se protegendo desde o começo da vida sexual, como esse uso vai caindo com o passar o tempo.

Já entre aqueles que optaram por outros métodos contraceptivos, 51,1% dos estudantes utilizam pílula anticoncepcional e 11,7% usam pílula do dia seguinte, uma opção de emergência, que só deve ser tomada em situações excepcionais.

Apesar disso, quatro em cada dez meninas já tomou esse tipo de pílula pelo menos uma vez na vida. 

Início da vida sexual

Em comparação com a pesquisa anterior, os dados de 2024 também apontam para um início mais tardio da vida sexual: 30,4% dos estudantes de 13 a 17 anos já tinham vivenciado ao menos uma relação, 5 pontos percentuais a menos do que em 2019.

A proporção cai para 20,7% entre os alunos de 13 a 15 anos, e sobe para 47,5% entre aqueles com 16 e 17 anos.

Por outro lado, considerando apenas aqueles que já iniciaram a vida sexual, 36,8% tiveram a primeira relação com 13 anos de idade ou menos. 

No Brasil, a idade mínima para o consentimento legal é 14 anos, e qualquer relação com pessoa menor do que essa idade pode configurar estupro de vulnerável. Entretanto, os dados da pesquisa apontam que a idade média da iniciação sexual foi de 13,3 anos, entre os meninos, e de 14,3 anos, entre as meninas

Tâmara Freire – Repórter da Agência Brasil Publicado em 25/03/2026 – 10:05 Rio de Janeiro

IBGE alerta para quadro preocupante na saúde mental de adolescentes

Pesquisa ouviu quase 120 mil estudantes de escolas públicas e privadas

Três em cada dez estudantes de 13 a 17 anos afirmaram que se sentem tristes sempre ou na maioria das vezes na Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSe), divulgada nesta quarta-feira (25) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Uma proporção semelhante também revelou que já teve vontade de se machucar de propósito.

O IBGE entrevistou 118.099 adolescentes que frequentavam 4.167 escolas públicas e privadas de todo o Brasil em 2024, e a amostra é considerada representativa do universo de estudantes do país.

O quadro preocupante sobre a saúde mental dessa população inclui ainda 42,9% dos alunos que responderam que se sentem “irritados, nervosos ou mal-humorados por qualquer coisa” e 18,5% que pensam sempre, ou na maioria das vezes, que “a vida não vale a pena ser vivida”.

Onde buscar ajuda

Adolescentes e seus responsáveis ou quaisquer pessoas com pensamentos e sentimentos de querer acabar com a própria vida devem buscar acolhimento em sua rede de apoio, como familiares, amigos, educadores e também em serviços de saúde.

De acordo com o Ministério da Saúde, é muito importante conversar com alguém de confiança e não hesitar em pedir ajuda, inclusive para buscar serviços de saúde.

Serviços de saúde que podem ser procurados para atendimento: 

  • Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e Unidades Básicas de Saúde (Saúde da família, Postos e Centros de Saúde);
  • UPA 24H, SAMU 192, Pronto Socorro; Hospitais;
  • Centro de Valorização da Vida – 188 (ligação gratuita).

O Centro de Valorização da Vida (CVV) realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone (188), e-mail, chat e voip 24 horas todos os dias.

Desamparo

Apesar da gravidade dos números, menos da metade dos alunos frequentava uma escola que oferecia algum tipo de suporte psicológico, proporção que sobe para 58,2% na rede privada e cai para 45,8% na pública.

A presença de profissional de saúde mental no quadro de funcionários da escola era ainda mais rara, sendo disponível a apenas 34,1% dos estudantes. 

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A pesquisa também traz informações sobre a relação desses adolescentes com suas famílias e comunidades, e 26,1% dos estudantes disseram sentir constantemente que “ninguém se preocupa” com eles

Pouco mais de um terço dos alunos também achava que os pais ou responsáveis não entendiam seus problemas e preocupações e 20% contaram que foram agredidos fisicamente pelo pai, mãe ou responsável, pelo menos uma vez, nos 12 meses anteriores à pesquisa.

Saúde mental e gênero

Em todos os indicadores, os resultados entre as meninas são mais alarmantes do que entre os meninos.

RespostaMeninasMeninos
“Sentem-se tristes sempre ou na maiorias das vezes”41%16,7%
“Já tiveram vontade de se machucar de propósito”43,4%20,5%
“Se sentem irritados, nervosos ou mal-humorados por qualquer coisa”58,1%27,6%
“Pensam sempre, ou na maioria das vezes, que a vida não vale a pena ser vivida”25%12%
“Acham que os pais ou responsáveis não entendem suas preocupações”39,7%33,5%
“Acreditam que ninguém se preocupa com eles”33%19%

Autoagressões

A partir da amostra, o IBGE calculou que cerca de 100 mil estudantes brasileiros tiveram alguma lesão autoprovocada nos 12 meses anteriores à pesquisa, o que equivale a 4,7% de todos que sofreram algum acidente ou lesão no período analisado. 

Entre eles, todos os indicadores são consideravelmente mais altos:

  • 73% se sentem tristes de forma constante;
  • 67,6% ficam irritados ou nervosos por qualquer razão;
  • 62% não veem sentido na vida; 
  • 69,2% já sofreram bullying. 

>> Quatro em cada dez adolescentes já sofreram bullying na escola

As meninas também apresentam maior proporção de lesões autoprovocadas. Entre aquelas que sofreram algum ferimento, 6,8% se machucaram de propósito, contra 3% entre os meninos.  

“A criação de políticas públicas que contemplem essas diferenças entre os sexos é importante e urgente, para que as mulheres do país possam manter seu bem-estar e sua capacidade inegável de contribuição para a economia, para a sociedade e para o Estado brasileiro”, defendem os pesquisadores. 

Imagem corporal

O nível de satisfação com a própria imagem corporal caiu para todos os estudantes desde a última edição da pesquisa, em 2019, de 66,5% para 58%. A situação é pior entre as alunas. 

Mais de um terço delas se disse insatisfeita com a própria aparência, contra menos de um quinto dos meninos.

Além disso, apesar de 21% das alunas se considerarem gordas ou muito gordas, mais de 31% revelaram que estavam tentando perder peso. Ambas as proporções foram maiores entre o gênero feminino.

Tâmara Freire – Repórter da Agência Brasil Publicado em 25/03/2026 – Rio de Janeiro

Ao lado de Lula, Eduardo Paes anuncia Ozempic na rede pública do Rio

Prefeito pede que medicamento seja incorporado em todo SUS

O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, disse nesta sexta-feira (13) que vai incorporar o medicamento Ozempic à rede pública do município a partir da próxima semana. O anúncio foi feito durante agenda com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Rio de Janeiro.

“Na terça-feira que vem – a gente está esperando o anúncio do [ministro da Saúde, Alexandre] Padilha, então, está saindo cara essa conta –, nós introduzimos o Ozempic na rede pública de saúde da cidade do Rio de Janeiro, no super centro da Zona Oeste”, disse Paes, ao lado de Lula e do próprio Padilha.

Durante o evento, Paes pediu que o governo federal incorpore o medicamento em todo o Sistema Único de Saúde (SUS).

“O povo quer Ozempic, presidente. Bota pilha no Padilha. Acelera com o Padilha. O senhor tem que colocar Ozempic na rede pública do SUS do Brasil inteiro”.

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Entenda

O Ozempic é um dos diversos medicamentos agonistas do receptor GLP‑1, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras, indicados para o tratamento do diabetes e para o controle da obesidade. O grupo inclui a dulaglutida, a liraglutida, a semaglutida e a tirzepatida.

Paula Laboissière – Repórter da Agência Brasil Publicado em 13/03/2026 – 12:39

Ministério da Saúde leva unidades móveis do Agora Tem Especialistas para atender população afetada pelas chuvas em Minas Gerais

Iniciativa busca zerar a demanda por exames de imagem na região e reforçar a assistência à saúde diante da crise provocada pelas chuvas na Zona da Mata Mineira

A cidade de Juiz de Fora (MG) recebeu, nesta sexta-feira (6), uma carreta do programa Agora Tem Especialistas, enviada pelo Ministério da Saúde para reforçar o atendimento à população diante da emergência provocada pelas chuvas. A unidade móvel tem capacidade para realizar até 50 exames de imagem por dia, como tomografia e ultrassonografia, com equipe multiprofissional, ajudando a reduzir o tempo de espera na rede local.

Para os municípios de Ubá e Matias Barbosa, o Ministério da Saúde também disponibilizou Unidades de Atendimento Móvel — duas em Ubá (MG) e uma em Matias Barbosa (MG). As estruturas vão oferecer serviços essenciais da Atenção Primária e devem iniciar os atendimentos na próxima semana. Entre os serviços previstos estão consultas médicas e de enfermagem, acompanhamento de crianças e idosos, controle de doenças crônicas, curativos, pequenos procedimentos e atendimento pré-natal.

Na carreta instalada em Juiz de Fora, estão sendo realizados 14 tipos de tomografia computadorizada sem contraste, incluindo exames de pescoço, crânio e coluna. Atualmente, 410 pessoas aguardam por esse exame no município. A expectativa é zerar a fila, com a realização de cerca de 50 exames por dia durante um mês em que a unidade permanecerá na cidade.

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Foto: Rodrigo Rosetti/MS

A aposentada Ana Roque, de 77 anos, foi a primeira paciente a chegar à carreta para fazer uma tomografia do tórax. Ela aguardava pelo exame desde novembro do ano passado. “Fiquei muito satisfeita por conseguir realizar o exame depois de esperar tanto”, conta. A atuação do Ministério da Saúde nas cidades mais afetadas pelas chuvas tem sido decisiva para garantir atendimento de saúde e ampliar a assistência à população.

Recursos para resposta à emergência

O Governo do Brasil liberou R$ 16,4 milhões para reforçar a assistência à saúde em Juiz de Fora, Ubá e Matias Barbosa. Os recursos contemplam ações emergenciais e a habilitação de novos serviços, incluindo a entrega de 50 ambulâncias do SAMU 192, da carreta do programa Agora Tem Especialistas e das seis unidades móveis de Atenção Primária.

Nove kits emergenciais com medicamentos e insumos estratégicos já estão na região. Cada conjunto reúne 16 itens estratégicos e 32 medicamentos, entre antibióticos, analgésicos, anti-hipertensivos e soluções injetáveis, além de ataduras, gazes, dispositivos de infusão, seringas, luvas e máscaras. Cada kit tem capacidade para atender até 1,5 mil pessoas por mês, o que representa assistência para 13,5 mil pessoas no período, volume mais que suficiente para a demanda atual.

A pasta também flexibilizou as regras de dispensação do Programa Farmácia Popular do Brasil para a população afetada, facilitando o acesso gratuito a medicamentos e insumos. A medida beneficia moradores de Juiz de Fora, Ubá e Matias Barbosa, reduzindo barreiras administrativas em um momento de necessidade.

Médicos e enfermeiros da Força Nacional do SUS também reforçam a assistência na região, atuando de forma integrada com as equipes locais. Parte dos profissionais está no território oferecendo atendimento psicológico às famílias afetadas e aos trabalhadores que atuaram durante a tragédia, além de apoiar o município na reorganização dos serviços de saúde.

João Vitor Moura
Ministério da Saúde Categoria Saúde e Vigilância Sanitária

Fiocruz recebe delegação para estruturação de Escola Nacional de Saúde Pública de Moçambique

A Fiocruz recebeu, na última semana, uma delegação do Instituto Nacional de Saúde (INS) de Moçambique para reuniões de trabalho voltadas à estruturação da Escola Nacional de Saúde Pública do país – uma colaboração firmada no ano passado durante visita oficial do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Moçambique. Entre os dias 23 e 27 de fevereiro, docentes e pesquisadores da Fundação, especialmente envolvidos com a área da Educação, participaram de uma grande agenda estratégica pautada nessa cooperação estruturante que prevê ainda a possibilidade futura da construção de uma Escola voltada à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Delegação do Instituto Nacional de Saúde de Moçambique visita a Fiocruz no Rio de Janeiro (foto: Peter Ilicciev)

“A cooperação com Moçambique é um dos exemplos mais bem-sucedidos de cooperação estruturante do Brasil no campo da saúde, sendo a Fiocruz como protagonista. baseada em uma parceria de longa data voltada ao fortalecimento do sistema de saúde do país, ampliando sua capacidade de resposta às emergências em saúde e a tantos outros desafios, como os efeitos das mudanças climáticas e o impacto das doenças crônicas”, destaca o presidente da Fiocruz, Mario Moreira. “A Fiocruz fortalece essa cooperação com importantes cooperações no campo da educação, já materializada na estruturação da Escola de Saúde Publica de Moçambique, projeto inspirador para se pensar numa escola de saúde pública de língua portuguesa. É nosso compromisso trabalharmos juntos por um Sul Global fortalecido, caminhando numa relação de trocas e solidariedade para o maior acesso da população à promoção da saúde”.

A visita de profissionais moçambicanos envolveu cerca de 30 participantes na sede da Fiocruz, no Rio de Janeiro. A programação contou com a equipe da Vice-Presidência de Educação, Informação e Comunicação (Vpeic), da Coordenação-Geral de Educação (CGE/Vpeic), da Vice-presidente de Saúde Global e Relações Internacionais (VPSGRI), e de unidades de referência na formação em saúde, como a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp) e a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV), além de outros atores institucionais com potencial de contribuição nessa articulação.

A missão promoveu debates sobre estrutura curricular, marcos regulatórios, desenho institucional, estratégias de internacionalização e mecanismos de avaliação da qualidade acadêmica para a plena implantação da Escola Nacional de Saúde Pública de Moçambique.

A cooperação firmada com o INS de Moçambique visa apoiar o país parceiro na criação e consolidação de capacidades próprias, fortalecendo seu sistema nacional de saúde a partir da qualificação de sua força de trabalho. Os profissionais da Fiocruz atuarão na construção das bases acadêmicas, pedagógicas e institucionais necessárias para desenhar, implementar e sustentar propostas formativas em quatro campos prioritários: Economia da Saúde; Clima, Ambiente e Saúde; Saúde Digital; e Planejamento e Gestão em Saúde.

Diretor do INS de Moçambique, Eduardo Samo Gudo afirmou que a missão ao Brasil foi bastante produtiva, lembrando que esse trabalho conjunto é um compromisso firmado pelas instituições com apoio político dos ministros de Saúde e dos chefes de Estado de ambos os países durante a visita do presidente Lula, em novembro de 2025, a Moçambique.

Segundo ele, a Escola é uma prioridade para o sistema da saúde moçambicano, que tem uma demanda importante de especialistas num momento em que o país enfrenta crescente número e agravamento de emergências em saúde pública, surtos epidemiológicos, eventos climáticos, doenças crônicas, além de rápido crescimento demográfico.

“O contexto socioeconômico e demográfico demanda novas competências dos profissionais de saúde e, por isso, a Escola é fundamental. A Fiocruz tem muita experiência, a partir da sua Escola de Saúde Pública e a Escola Politécnica de Saúde, e é esse conhecimento que aproveitamos nesta missão. Voltamos para Moçambique para dar continuidade a essas discussões e certos do apoio e da dedicação que recebemos dos profissionais da Fiocruz. Foi uma demonstração do compromisso que a instituição tem com a formação de profissionais de saúde”, afirmou Gudo.

Marly.

A vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação da Fiocruz, Marly Marques da Cruz, realiza apresentação para os profissionais visitantes (foto: Peter Ilicciev)

A agenda no Brasil incluiu também discussões sobre a implementação da Escola de Saúde Pública da CPLP, que seria vinculada ao próprio INS e voltada aos países africanos de língua portuguesa, com sede em Moçambique. Essa discussão foi aprofundada entre o chefe de Gabinete da Presidência da Fiocruz, Rivaldo Venâncio, e o diretor-geral do INS, Eduardo Samo Gudo, em reunião que articulou a composição de um grupo de trabalho para estruturar tecnicamente a proposta junto aos parceiros.

Durante o período na Fiocruz, a comitiva compartilhou expectativas e necessidades locais e conheceu detalhadamente programas de pós-graduação, suas linhas de pesquisa e estruturas curriculares, debateram modelos pedagógicos, estratégias de implementação e analisaram experiências já consolidadas pela Fundação, incluindo sua interface histórica com o Ministério da Saúde brasileiro. Além da Ensp e a EPSJV, outras iniciativas e coordenações da Fundação foram apresentadas como potenciais parceiros para essa grande construção, como o Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict), a Coordenação de Informação e Comunicação (Cinco/Vpeic), o Campus Virtual Fiocruz e o Instituto Aggeu Magalhães (Fiocruz Pernambuco).    

Ao final da visita, foram definidas linhas de trabalho concretas para apoio técnico e acadêmico da Fiocruz ao país africano, consolidando uma agenda de cooperação internacional orientada ao fortalecimento sustentável do sistema de saúde moçambicano por meio da implementação de uma escola nacional robusta, estratégica e alinhada à formação qualificada de recursos humanos e às prioridades sanitárias de Moçambique.

Publicado em 04/03/2026 09:28 Isabela Schincariol (Vpeic/Fiocruz) e Ana Paula Blower (Agência Fiocruz de Notícias)

E-book traça diagnóstico da Atenção Primária à Saúde no SUS

Com participação da Fiocruz, o Ministério da Saúde (MS) lançou o e-book Panorama da APS no SUS: Censo Nacional das UBS 2024, que apresenta um retrato atualizado sobre a Atenção Primária à Saúde, principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS). A publicação destaca avanços, desafios e perspectivas para o fortalecimento da APS no Brasil.

Elaborado pela Secretaria de Atenção Primária à Saúde (MS) e pela Rede de Pesquisa em Atenção Primária à Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), da qual a Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) faz parte, o e-book reúne, em sete capítulos temáticos, um panorama abrangente e detalhado dos resultados do Censo Nacional das Unidades Básicas de Saúde (Censo das UBS 2024). O livro examina desde as condições estruturais das Unidades Básicas de Saúde (UBS) e os diferentes modelos de atenção, até a composição das equipes multiprofissionais e os processos de formação, qualificação e educação permanente.

O conteúdo também aborda a disponibilidade de equipamentos e de recursos de saúde digital, o escopo das práticas e ações ofertadas, a atenção à saúde bucal, as iniciativas de promoção da saúde e vigilância, além das ações comunitárias e de equidade. A obra analisa ainda a coordenação do cuidado e a integração da Atenção Primária com as redes regionais de atenção à saúde.

Segundo os autores do e-book, “o panorama da APS brasileira é uma expressão do amadurecimento do SUS e um marco na trajetória de construção de um sistema público de saúde orientado pelas necessidades da população e sustentado pelo conhecimento científico de excelência”.

Nesse contexto, eles definem o Censo Nacional das UBS 2024 como mais um marco na avaliação da APS no Brasil, destacando seu caráter inovador e colaborativo, o qual fortalece a institucionalização da avaliação da APS, promove a integração entre academia e gestão pública, além de reafirmar o compromisso coletivo com a qualidade, o acesso universal e o cuidado integral.

Censo Nacional das Unidades Básicas de Saúde (Censo das UBS 2024)

O Censo Nacional das Unidades Básicas de Saúde (Censo das UBS 2024) visa traçar um diagnóstico nacional abrangente sobre a estrutura e o funcionamento das UBS, abordando desde as condições de infraestrutura e os processos de trabalho das equipes até a incorporação de tecnologias digitais, telessaúde, o escopo de ações e serviços ofertados e os mecanismos de coordenação do cuidado e integração à rede de atenção à saúde.

Realizado entre junho e setembro de 2024, o censo revela que, apesar do progresso, a Atenção Primária à Saúde carece de avanços na infraestrutura, além de ampliação na oferta de cuidados e na cobertura de ações preventivas e de promoção da saúde e da equidade. A iniciativa é da Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS/ MS), com apoio do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) e da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas/OMS). O estudo teve parceria da Rede de Pesquisas em APS da Abrasco.

O censo contou com a participação de 100% dos estabelecimentos de Atenção Primária à Saúde ativos no SUS em todo o país. Os dados contribuem para o planejamento de investimentos, a qualificação dos serviços e o monitoramento de resultados no Sistema Único de Saúde. O levantamento pode ainda orientar o planejamento de gestores das três esferas governamentais

Publicado em 02/03/2026 11:35 Danielle Monteiro (Informe Ensp